Bloomberg — Por muito tempo símbolo de rigor fiscal entre os mercados emergentes, o México chegou, no auge, a ser um tomador com classificação A no mercado de títulos poucos anos atrás.
Hoje, o país está à beira do grau especulativo e paga juros mais altos do que os oferecidos por pequenos vizinhos com notas de crédito inferiores, como Guatemala e Panamá.
Há uma série de razões para a deterioração — da disparada dos gastos públicos ao fraco crescimento econômico —, mas, ultimamente, uma questão aparece repetidamente: as perdas financeiras que se acumulam na gigante estatal de petróleo Petroleos Mexicanos e a forma como o governo continua injetando dinheiro na companhia para mantê-la de pé.
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Apenas nos últimos dois anos, a presidente Claudia Sheinbaum organizou mais de US$ 50 bilhões em socorros à Pemex.
Somados aos cerca de US$ 80 bilhões repassados à empresa por seu antecessor e mentor, Andres Manuel Lopez Obrador, o valor supera US$ 130 bilhões.
Para um país como o México, é uma quantia enorme — muito superior, por exemplo, ao gasto com todos os ramos das Forças Armadas juntos, incluindo as forças de segurança encarregadas de combater os cartéis — e ajudou a fazer o déficit orçamentário quase dobrar.
As injeções de recursos evitaram uma calamidade imediata na Pemex, segundo observadores de longa data do México, mas apenas encobrem os verdadeiros problemas — uma força de trabalho inchada que extrai quantidades cada vez menores de petróleo de poços antigos. Pior ainda, afirmam, os pagamentos transferem, na prática, a deterioração financeira da Pemex para o balanço do governo.
Assim, em vez de a Pemex caminhar rapidamente e sozinha para uma crise de dívida, a empresa arrasta lentamente todo o governo e agrava os problemas fiscais do país.
Em maio, o México sofreu um golpe duplo quando a Moody’s Ratings rebaixou a nota de crédito para apenas um nível acima do grau especulativo e a S&P Global Ratings ameaçou fazer o mesmo, ao atribuir perspectiva negativa à classificação.
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Operadores de títulos já começaram a tratar a dívida mexicana como grau especulativo, exigindo rendimentos maiores para emprestar ao governo e, com isso, encarecendo o financiamento para todos os tomadores de recursos em um país que precisa urgentemente de mais investimentos para reanimar a economia enfraquecida.
Claudio Loser, economista que estuda a América Latina desde a década de 1970, afirma nunca ter visto uma estatal da região comprometer as finanças de um governo nesse grau.
“Não quero exagerar”, diz Loser, que comandou as operações do Fundo Monetário Internacional no Hemisfério Ocidental por quase uma década, mas “é incrível o que aconteceu”.
Loser se lembra de quando a Pemex, em seus melhores tempos, era a principal fonte tanto de receita tributária do governo quanto dos dólares de que o país precisava para sustentar o peso no mercado de câmbio. Nos círculos políticos e financeiros, era simplesmente a “galinha dos ovos de ouro”.
Mas políticos, ansiosos para extrair da empresa o máximo de dinheiro possível, privaram a Pemex dos recursos necessários para investir em novos poços de petróleo e tecnologia e depois a sobrecarregaram de dívidas.
Hoje, a produção diária da Pemex caiu para menos de 1,7 milhão de barris, apenas metade do pico alcançado duas décadas atrás, enquanto a dívida supera US$ 70 bilhões, o maior valor devido por qualquer petroleira do mundo.
“A pobre galinha está muito doente”, diz Loser.
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Cortar agora o acesso da empresa a recursos — ou abri-la ao investimento privado — para proteger o governo dos efeitos financeiros é impensável, porém, em um país onde o petróleo desperta paixões patrióticas desde que líderes revolucionários expulsaram Standard Oil e Royal Dutch Shell e criaram a indústria estatal na década de 1930.
Uma tentativa de permitir a volta ao país das multinacionais e de seu conhecimento em perfuração foi rapidamente interrompida por Lopez Obrador quando ele assumiu o poder, em 2018.
Assim, empresa e governo estão presos nesse abraço incômodo, que pressiona a economia ano após ano e corrói a credibilidade conquistada pelo México nos mercados internacionais quando o país obteve sua primeira classificação de grau de investimento, há um quarto de século.
Arturo Porzecanski, pesquisador do Center for Latin American & Latino Studies da American University, chama a Pemex de “parasita sugador de sangue” que se tornou dependente de socorros do governo para permanecer solvente.
Essa “relação parasitária” pode ser observada no mercado de títulos, diz Porzecanski, que acompanhou a América Latina durante três décadas como analista de Wall Street.
De um lado, a preocupação dos investidores com um calote da Pemex diminuiu, o que reduziu os rendimentos dos títulos da empresa e elevou as notas de crédito. Mas isso, afirma, “ocorreu ao custo de o governo soberano ter de pagar rendimentos mais altos”.
Dias após o rebaixamento de maio, Sheinbaum criticou duramente as agências de classificação de risco. “O que as agências de classificação medem?”, perguntou em sua entrevista coletiva diária, conhecida como mañanera. “Os indicadores delas estão muito ultrapassados, presos à era neoliberal.” Ela citou o investimento estrangeiro recorde e um grande superávit comercial como evidências da solidez da economia e das finanças do México.
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Há um ano, Sheinbaum apresentou um plano para reduzir gradualmente a dependência da Pemex de repasses do governo — parte dos quais foi usada para diminuir a dívida da empresa. Pelo plano, a Pemex deve reduzir ainda mais a dívida, aumentar a produção de petróleo e melhorar as operações de refino, tornando-se autossuficiente até 2027.
Em resposta a perguntas da Bloomberg News, a Pemex afirmou que avança para atingir a meta de autossuficiência. Fluxos de caixa e margens melhoraram, e a dívida agora está quase 27% abaixo do pico de 2018, o que reforça que a ajuda do governo foi usada em grande parte para fortalecer as finanças da Pemex, e não simplesmente para financiar as operações cotidianas, afirmou a empresa.
“Com a redução da dívida, a necessidade de financiamento adicional do governo federal diminuirá”, afirmou a Pemex.
O Ministério das Finanças não respondeu aos pedidos de comentário sobre como o apoio à Pemex afeta a posição do país no mercado de títulos. Em sua declaração, porém, a Pemex afirmou que os investidores continuam tratando o México como tomador com grau de investimento e reconhecem as “forças estruturais” do país.
Luis Maizel é um desses investidores.
“O México vai ficar bem”, diz Maizel, cofundador da LM Capital Group, gestora de investimentos de San Diego que detém cerca de US$ 30 milhões em títulos da Pemex.
Apesar de todos os problemas enfrentados pelo México, ele afirma que a proximidade com o enorme mercado consumidor dos EUA significa que o país sempre atrairá investimento suficiente para manter a economia em movimento. “Portanto, o México continuará vendendo seus títulos e os compradores continuarão comprando.”
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