Mercado de US$ 31 trilhões dos Treasuries pode exigir intervenção, segundo o Barclays

Mercado de dívida do governo dos Estados Unidos cresceu muito mais rapidamente do que o volume de capital bancário e criou uma lacuna entre a oferta e a demanda por liquidez, diz relatório do banco

Mercado de dívida do governo dos Estados Unidos tem crescido a uma taxa de quase 9% desde 2009 (Foto: Al Drago/Bloomberg)
Por Miles J. Herszenhorn
31 de Março, 2026 | 02:43 PM

Bloomberg — O mercado de títulos de dívida do Tesouro americano passou a ficar estruturalmente instável por seu crescimento explosivo e provavelmente exigirá “intervenções oficiais” ocasionais para sustentar seu funcionamento, segundo estrategistas do Barclays.

O mercado de dívida do governo dos Estados Unidos, de US$ 31 trilhões, “cresceu muito mais rapidamente do que o volume de capital bancário”, criando uma lacuna entre a oferta e a demanda por liquidez que reverte uma tendência de décadas e é “a força subjacente que impulsiona a fragilidade do mercado”, de acordo com um relatório de Jeffrey Meli, professor de finanças da Universidade de Nova York, e de vários de seus antigos colegas do Barclays, divulgado em 30 de março.

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O mercado de Treasuries tem crescido a uma taxa de quase 9% desde 2009, mais rápido do que nas duas décadas anteriores.

O capital bancário, por sua vez, expandiu, em média, 3,8% ao ano desde 2019, menos da metade da taxa registrada no período anterior, de acordo com o relatório elaborado em conjunto pelos estrategistas do Barclays Samuel Earl, Anshul Pradhan e Amrut Nashikkar.

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O cálculo do capital bancário utiliza dados trimestrais da Federal Deposit Insurance Corp.

“Esse desequilíbrio aumenta a necessidade de intervenções oficiais para estabilizar os mercados durante períodos de volatilidade”, escreveu a equipe.

O resultado é “um ciclo vicioso: expectativas de intervenção podem se tornar autorreforçadoras se resultarem em maior uso de alavancagem e, portanto, mais risco de desmontes desordenados”.

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Meli deixou o Barclays para seguir carreira acadêmica no ano passado e continua sendo consultor do banco.

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As intervenções oficiais no mercado de títulos do Tesouro tornaram-se uma característica comum do cenário desde a crise financeira de 2008, assumindo a forma de compras em larga escala de papéis pelo Federal Reserve.

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A maior dessas intervenções ocorreu após o início da pandemia de Covid-19 em 2020, quando as compras de Treasuries pelo Fed para atender à uma demanda repentina por caixa no sistema financeiro, fizeram com que suas posições disparassem para quase US$ 5 trilhões em 2022, ante cerca de US$ 2 trilhões no início de 2020.

 Intervenções oficiais no mercado de títulos do Tesouro inflaram as reservas do Fed

O crescimento do mercado de Treasuries é função do tamanho dos déficits orçamentários federais que necessitam de financiamento. A desaceleração no crescimento do capital bancário, diz o relatório, parece ser consequência das reformas pós-crise que reduziram o retorno médio sobre o patrimônio dos bancos.

Leia também: Até quando os Treasuries permanecerão com taxas acima de 4%

Outras manifestações do crescimento do mercado em ritmo mais acelerado do que o do capital bancário incluem o barateamento generalizado dos Treasuries em relação aos swaps de juros. Também incluem o colapso, desde a crise financeira, da fatia dos leilões de Treasuries destinada aos chamados dealers primários.

O mercado de Treasuries pode suportar períodos ocasionais de instabilidade, porém a tolerância a esses episódios tem diminuído ao longo da última década porque “todo o pilar de liquidez do novo regime regulatório é construído na premissa de que o mercado de títulos do Tesouro permanecerá líquido, mesmo durante períodos de estresse econômico e financeiro mais amplos”, afirma o relatório.

Desse ponto de vista, “a estabilidade do mercado pode ser considerada um passivo do Federal Reserve”.

O desequilíbrio de liquidez nos Treasuries significa que “não é possível ter mercados estáveis, intermediários estáveis ​​e evitar resgates”, conclui o relatório. “Um compromisso crível de evitar intervenções no mercado aumentaria a preferência por reservas e exacerbaria a relutância dos bancos em estender seus balanços durante períodos de estresse”.

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