IPOs de volta? Nova onda de ofertas aponta ‘barra mais alta’ para estreantes

Mercado cobra mais rigor na rentabilidade e na geração de caixa, diz Otavio Dantas, sócio do BCG, citando novo estudo da consultoria; Arm, Instacart e Klaviyo são exemplos do novo momento

Instacart IPO at Nasdaq September 19th 2023 (Photo: Instacart)
20 de Setembro, 2023 | 05:05 AM

Bloomberg Línea — A conclusão bem-sucedida de três IPOs em Nova York nos últimos dias, com preços de ações no topo da faixa indicativa e demanda acima do book de oferta, sinalizou para o mercado uma esperada reabertura da janela para ofertas públicas iniciais nos próximos meses. Mas os tempos de euforia e estreia de empresas que entregam apenas crescimento acelerado ficaram para trás, e as “novatas” já são um exemplo. É o que afirmou Otavio Dantas, managing director e sócio do BCG.

“O mercado tem cobrado muito mais rigor na rentabilidade das empresas. A barra está mais alta para as que querem abrir capital. Aquelas que antes pensavam em IPO para levantar capital e queimavam caixa vão enfrentar dificuldades”, disse Dantas em entrevista à Bloomberg Línea.

Nesse contexto, empresas que atendam a certas condições agora mais valorizadas por grandes investidores ampliam as probabilidades para uma listagem, segundo aponta um estudo recém-divulgado pelo BCG, “Tech Startups Should Prepare Now for the Next IPO Boom”.

Há diferenças que já são evidentes nas empresas que conseguiram romper o momento até então ainda adverso para ofertas iniciais na comparação com as estreantes de 2020 e 2021.

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São os casos da Arm Holdings (ARM), empresa de design de chips, da Instacart (CART), de delivery de supermercados com soluções de gestão e de inteligência de dados para o varejista e publicidade online, e da Klaviyo, uma plataforma de automação de e-mail marketing e SMS com uso de dados.

A Arm é um ponto fora da curva que tem algumas das maiores empresas de tecnologia do mundo como clientes e lucrou mais de US$ 500 milhões no último ano fiscal, com margem operacional de 29%, que, segundo projeta, deve ter subido para 40% no trimestre mais recente.

A Instacart e a Klaviyo também operam com lucro - a primeira diversificou os negócios para além do delivery de alimentos e hoje fatura com publicidade online e venda de software para varejistas.

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“As startups de tecnologia [que buscam o IPO] devem demonstrar um caminho claro para a rentabilidade, fornecer evidências específicas de crescimento robusto no setor, reunir uma equipe de gestão experiente e confirmar sua prontidão operacional para o mercado público”, apontou o estudo do Boston Consulting Group.

Dispor de diferenciais competitivos versus seus pares e, posteriormente, ter clareza da destinação de recursos eventualmente captados e explicar isso a investidores são outras recomendações.

Ao endereçar essas questões, segundo a consultoria, as startups podem desenvolver um plano de negócios sólido e uma história convincente que as diferencie da concorrência. O estudo aponta com base em dados passados que empresas tech que conseguem atender tais requisitos conseguem, em 90% dos casos, concluir um IPO quando a janela reabre para ofertas.

Damodaran: valor justo

Os próximos meses também indicam que, à parte o IPO bem-sucedido, as perspectivas de valorização de ações são muito menos prováveis do que no período aquecido de 2020 e 2021, segundo apontou Aswath Damodaran, considerado o “pai do valuation” e professor na Stern School of Business da NYU.

“A ideia de que existe smart money, ou seja, que há um grupo de investidores de alguma forma mais sábio, mais informado e menos propenso a agir emocionalmente do que o resto de nós, e que ganha retornos mais altos do que o resto de nós, é profundamente enraizada”, escreveu Damodaran em uma análise publicada no LinkedIn nesta terça-feira (19).

“Para aqueles que ainda acreditam que os investidores de venture capital são o último bastião do smart money, é hora de deixar essa crença de lado.”

“Espero que o IPO da Instacart tenha uma valorização significativa em seu primeiro dia de negociação, especialmente considerando o fato de que o preço de oferta parece refletir uma perspectiva relativamente conservadora para a empresa, e o preço parece favorável”, escreveu antes do início da negociação das ações da empresa.

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As ações chegaram a subir 43% no começo da sessão nesta terça e encerraram com ganhos de 12,33%, a US$ 33,70.

“Mesmo que isso não aconteça, não vejo muito benefício em comprar as ações pelo preço de oferta [de US$ 30], não apenas porque elas parecem estar com um valor justo mas também porque não vejo um potencial de valorização suficiente, mesmo que as coisas corram a favor da empresa”, disse Damodaran, citando que seriam necessárias premissas mais favoráveis como um crescimento do segmento de entregas de alimentos online ou um take rate (comissão) maior para justificar preços mais altos da ação.

Na análise, o “pai do valuation” lembra uma questão que aponta como fundamental. “Eu argumento há muito tempo que IPOs são precificados, não calculados com base no valor [...] A diferença entre calcular o valor e calcular o preço é que, enquanto o primeiro exige que você lide com questões de negócios relacionadas a crescimento, rentabilidade e reinvestimento, o último se baseia em quanto os investidores estão pagando por empresas pares, um julgamento subjetivo, mas que ainda assim é feito.”

‘Prontidão para o IPO’

O estudo do BCG, que foi preparado antes da reta final de preparação para os IPOs da Arm Holdings, da Instacart e da Klaviyo, já indicava a necessidade de preparação para a próxima janela que se aproxima.

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“As atuais condições de mercado adversas oferecem um momento ideal para as startups de tecnologia estabelecerem as bases para abrir capital. Com uma preparação que geralmente leva de 12 a 18 meses, iniciar o processo agora garantirá que as empresas estejam posicionadas na frente da fila quando as condições do mercado de capitais melhorarem”, apontou o BCG.

Nesse sentido, a existência do momentum do mercado americano para ofertas iniciais referenda o que o estudo define como IPO readiness, a “prontidão para o IPO”. “Quanto mais empresas prontas para o IPO, maior a probabilidade de massa crítica para as ofertas”, disse o sócio do BCG.

“Há alguns fatores que já sugerem a retomada do mercado. Um deles é volatilidade, que tem caído substancialmente versus o fim do ano passado e o começo deste ano. E volatilidade é uma medida de incerteza, que é algo que pesa na hora de comprar um ativo que não se conhece tão bem.”

Segundo ele, os múltiplos - no relatório, o preço/lucro futuro - das ações também começam a se recuperar da queda mais acentuada, o que favorece as ofertas. No setor tech, múltiplos estão em 25x o P/E, depois de terem atingido o patamar de 80x em meados de 2021, com o mercado aquecido.

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Há, por fim, um indicador qualitativo que é a confiança do investidor e que também começa a melhorar justamente em reação a essas condições mais favoráveis de mercado.

Mas a evolução gradual das condições de mercado para uma reabertura da janela pode não necessariamente resultar em um volume grande de ofertas, na avaliação do sócio do BCG.

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“Há poucas empresas que estão se preparando. Ainda é um caso ou outro, de empresa com tese muito boa, vantagem competitiva clara e os economics ‘redondos’, com crescimento e rentabilidade.”

Segundo o managing director do BCG, fundamentos devem prevalecer inclusive sobre a tese das empresas, em uma referência indireta ao hype no mercado com a Inteligência Artificial (IA), não só generativa.

“Acredito muito em AI. Vemos muitos casos de uso com altíssimo impacto para os negócios. Pode ser comparável ao impacto da internet 20, 30 anos atrás. Mas quantas empresas da época sobraram hoje? Pensando em abertura de capital, vejo IA como uma tese ainda pouco madura”, afirmou.

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Segundo ele, somente exceções devem conseguir a listagem e será o investimento de venture capital e de private equity que deve suprir a necessidade de recursos para startups de IA, e não o mercado público.

No Brasil, a janela não abriu sequer para ofertas públicas iniciais isoladas, mas o momento também se aproxima, disse o sócio do BCG. É uma avaliação compartilhada por bankers e profissionais habitualmente envolvidos em tais ofertas.

“O Brasil está um pouco atrás. Quando vejo múltiplos do Ibovespa ou mesmo do setor tech, não vejo ainda uma reação, estão próximos dos mínimos históricos”, afirmou. Além de incertezas globais, ele apontou questões da economia local, como a aprovação pendente de reformas. “Mas entendo que esse momento chegará também para o mercado doméstico, só talvez ainda leve seis meses”, disse Dantas.

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Marcelo Sakate

Marcelo Sakate é editor-chefe da Bloomberg Línea no Brasil. Anteriormente, foi editor da EXAME e do CNN Brasil Business, repórter sênior da Veja e chefe de reportagem de economia da Folha de S. Paulo.