Investimento pós-queda de Maduro: estrategistas recomendam cautela ante incertezas

Especialistas ouvidos pela Bloomberg Línea avaliam que a dívida venezuelana ainda não é opção interessante para o portfólio devido aos riscos elevados, enquanto impacto para ativos como contratos de petróleo e mercados cambiais é incerto

Celebración del Día de la Familia venezolana unida, en Caracas, el 15 de mayo de 2025.
06 de Janeiro, 2026 | 03:56 PM

Bloomberg Línea — Uma das primeiras reações do mercado financeiro ao ataque dos Estados Unidos à Venezuela no fim de semana foi a valorização dos títulos soberanos do país latino, com a expectativa de uma reabertura da economia sul-americana.

Os bonds da Venezuela com vencimento em 2027 subiram 29% nesta segunda-feira (5), para cerca de 43 centavos de dólar, segundo dados da Bloomberg.

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O país está em default há oito anos, sob impacto de sanções americanas que isolaram a Venezuela de grande parte da economia global. Com o novo aumento do valor, os bonds retornam ao patamar anterior ao calote.

Os títulos praticamente dobraram de valor no último ano após a eleição do presidente americano Donald Trump, culminando com a alta deste começo de semana após a intervenção na Venezuela e captura do líder venezuelano Nicolás Maduro.

No entanto ainda é cedo para dizer que a mudança de regime será uma oportunidade de investimento, segundo especialistas ouvidos pela Bloomberg Línea.

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“Investir na dívida do governo da Venezuela é tratar um ativo estressado como opção óbvia de investimento, ignorando a maratona jurídica e política que será a reestruturação”, afirmou Luis Ferreira, CIO (Chief Investment Officer) para as Américas do grupo bancário suíço EFG.

A Venezuela tem cerca de US$ 60 bilhões em bonds inadimplentes. Dada a dimensão do passivo, a hierarquia dos credores deve ser ainda mais disputada, o que deve arrastar o processo, mesmo com uma eventual estabilização econômica. “Pode demorar anos; não recomendamos como investimento.”

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Daniel Utsch, gestor de renda variável da Nero Capital, também defendeu que a recente valorização dos títulos venezuelanos não é suficiente para justificar o investimento, já que os bonds ainda precificam elevado risco de default.

“Do ponto de vista de alocação de recursos, é um país considerado totalmente ‘ininvestível’, tanto à luz do investidor estrangeiro quanto para alocadores no Brasil”, afirmou. “Ainda seria preciso melhorar muito [para justificar um aporte]”.

Na renda variável, a maior movimentação tem sido das ações de petroleiras norte-americanas depois que Trump sinalizou que planeja revitalizar a indústria petrolífera do país sob a liderança das empresas dos EUA.

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A Chevron (CVX), a única grande petrolífera americana atualmente operando na Venezuela, teve ganhos de 5,10% no primeiro pregão após a derrubada de Maduro, na segunda-feira (5). A ConocoPhillips (COP) e a Exxon Mobil (XOM) avançaram 2,59% e 2,21%, respectivamente.

As três ações, no entanto, operam com perdas nesta terça-feira (6).

Impactos nos mercados em LatAm

Os especialistas traçam dois cenários majoritários para os próximos meses.

No desdobramento mais otimista, a expectativa é que uma Venezuela aberta a investimentos poderia beneficiar a América Latina com um spillover econômico.

O país chegou a ser o sexto maior destino das exportações brasileiras em 2007 e integrou o Mercosul, maior bloco econômico da região, antes de ser suspenso em 2017 por ruptura da ordem democrática.

A longo prazo, um aumento de produção de petróleo na Venezuela também poderia pressionar os preços da commodity, funcionando como um elemento deflacionário.

Mas, mesmo nesse cenário, os riscos permanecem no radar.

“Há uma possibilidade de aumento significativo da oferta de petróleo no médio prazo, mas mesmo isso é incerto, já que não necessariamente os planos de abertura desse mercado pelos EUA serão concretizados”, afirmou Paula Zogbi, estrategista-chefe da Nomad.

Na projeção mais desafiadora, um aumento nas tensões geopolíticas poderia elevar a incerteza e contaminar as perspectivas para os ativos da América Latina de forma generalizada.

Entre os principais riscos estão questionamentos de órgãos internacionais sobre a legalidade da intervenção dos EUA, tentativas de sanções contra outros países da região e volatilidade do dólar.

O resultado seria um alargamento dos spreads, com distorções de preço nas ações. Como contrapartida, seria uma oportunidades de compra na renda variável.

“Se houver um cenário geral de apreensão em que o mercado pune qualidade junto com risco, ele se torna o momento certo para alguma alocação em papéis de mercado emergente”, defendeu Ferreira, do EFG.

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México e Colômbia na mira

Por ora, os analistas do UBS BB avaliam que os riscos são baixos para os maiores mercados da América Latina – Brasil, México, Chile, Colômbia, Peru e Argentina.

Ainda assim, é possível que a turbulência na Venezuela faça com que preocupações locais voltem a ganhar protagonismo.

Os analistas do banco estimam que México e Colômbia são os mercados mais suscetíveis à reprecificação por parte dos investidores, dado que o peso mexicano e o colombiano aparecem estão sobrevalorizados nos modelos do UBS BB em 7% e 8% respectivamente.

“Na Colômbia, pressões adicionais de gastos ligadas a preocupações com a segurança nacional - o país mobilizou no fim de semana cerca de 30.000 soldados para a fronteira com a Venezuela - podem surgir em um momento em que as contas fiscais já estão sob forte pressão”, afirmaram os analistas em relatório.

Trump também ameaçou os dois países latinoamericanos nos últimos dias.

O presidente americano disse que uma nova ação militar na Colômbia “soava bem” e afirmou que era “preciso fazer algo em relação ao México” devido aos cartéis de drogas que atuam no país.

Para o Brasil, o UBS BB estima que as implicações parecem mais limitadas. O país tem a maior economia da região, mantém a China como principal parceiro comercial e alcançou uma melhora no relacionamento com os EUA nos últimos meses, o que deixa o país relativamente isolado dos efeitos diretos do conflito.

Utsch, da Nero Capital, disse projetar que a tensão na Venezuela pode ser explorada pela oposição de direita nas eleições presidenciais do Brasil neste ano, a depender dos resultados da operação.

“Se os desdobramentos da intervenção forem positivos, isso pode fazer preço do lado doméstico”, afirmou.

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