Bloomberg — Investidores apostam que o rali dos ativos brasileiros impulsionado pela eleição está apenas começando — uma visão que, em última análise, depende de um ajuste fiscal há muito exigido pelo mercado, mas sobre o qual ainda se sabe pouco.
Os mercados brasileiros registraram na segunda-feira (5) um dos melhores desempenhos dos últimos anos, com a performance surpreendentemente forte de Flávio Bolsonaro contra Luiz Inácio Lula da Silva alimentando apostas de que o candidato derrotará o atual presidente no segundo turno, ainda neste mês.
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Analistas que acompanham o Brasil esperam que o país tenha mais chances de enfrentar o déficit crescente sob o filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro, embora ele ainda não tenha apresentado um plano detalhado de como pretende fazer isso.
Ainda assim, essa expectativa, somada ao desencanto dos eleitores com Lula — que também impulsionou o avanço da direita nas eleições para o Congresso —, é suficiente para que casas como Pimco, UBS Asset Management, Citigroup e Morgan Stanley afirmem que os ativos brasileiros devem continuar em alta.
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“Os mercados provavelmente vão dar a ele o benefício da dúvida por enquanto, mas, no fim das contas, ele terá de entregar resultados na frente fiscal para que o rali se sustente”, disse Anthony Kettle, gestor sênior de mercados emergentes da RBC BlueBay.
Os ganhos continuaram no início dos negócios desta terça-feira, com o real em alta ao lado de outras moedas de mercados emergentes e as ações registrando pequenos avanços. O iShares MSCI Brazil ETF, maior fundo de índice que acompanha as ações brasileiras, subia 0,1% em Nova York, depois de registrar volumes e entradas de recursos recordes na sessão anterior.
Mudança política
O Brasil é o mais recente teste de uma mudança política que levou eleitores da região a se afastarem da esquerda e conduzirem ao poder governos considerados mais favoráveis ao mercado. Apenas no último ano, candidatos de direita, muitos deles com o apoio do presidente dos EUA, Donald Trump, venceram eleições na Bolívia, Chile, Colômbia e Peru.
Essa mudança aumentou o apelo da América Latina entre investidores, que também destacam a abundância de recursos naturais da região e a distância relativa dos principais conflitos geopolíticos.
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O país, porém, continua mergulhado em problemas fiscais. O déficit nominal aumentou para quase 10% do Produto Interno Bruto, e a dívida pública superou 80% do PIB. Segundo analistas, o aumento do endividamento obriga o Banco Central a manter os juros em níveis de dois dígitos, o que limita o crescimento econômico e sufoca famílias e empresas.
Flávio prometeu conter os gastos, reduzir a burocracia e cortar impostos. A principal assessora econômica, Daniella Marques, busca inspiração na agenda da “motosserra” de Javier Milei na Argentina, mas o candidato deu poucos detalhes sobre como pretende cumprir essas promessas.
Ainda assim, investidores o veem como uma melhora em relação ao cenário atual e consideram que ele tem mais chances de implementar mudanças significativas.
Após uma visita recente ao Brasil, o TCW Group saiu convencido de que a campanha está comprometida em perseguir uma reforma fiscal significativa, afirmou Ayoti Mittra, analista de dívida soberana da América Latina.
‘Game changer’
“É um ‘game changer’ para a forma como se deve pensar a política brasileira”, afirmou Alexander Robey, gestor da Allianz Global Investors. “O momento e o impulso estão do lado de Flávio.”
Investidores veem espaço para ganhos em diferentes classes de ativos. Howard Sheers, da JPMorgan Asset Management, afirmou que o real pode se beneficiar da entrada de recursos no mercado acionário e de termos de troca já favoráveis, ao passo que a RBC BlueBay avalia que o rali da dívida local ainda tem espaço para avançar.
Na UBS Asset Management, Shamaila Khan afirma que os ativos podem continuar em alta conforme os mercados incorporem nos preços maior disciplina fiscal e cresça a convicção de que as reformas necessárias começarão a sair do papel.
Há muitos obstáculos para que o cenário otimista se concretize. Flávio ainda precisa transformar o forte desempenho no primeiro turno em vitória no segundo, em 25 de outubro, e investidores estão atentos a sinais de que Lula consiga recuperar apoio com a redistribuição dos votos dados a outros candidatos.
Mesmo em caso de vitória de Flávio, a lua de mel com o mercado pode durar pouco. Natalia Gurushina, da VanEck, afirma que investidores rapidamente deixarão de se concentrar nas promessas de campanha para buscar evidências de metas fiscais críveis e avanços concretos nas reformas, algo que exige apoio do Legislativo.
“Para o Brasil, o relógio começa a correr agora”, afirmou.
Os resultados da eleição geral de domingo trazem algum alívio aos investidores mesmo se a disputa presidencial tiver outro desfecho em 25 de outubro. Um Congresso mais à direita, no qual os eleitores escolheram uma leva de aliados de Bolsonaro, pode ajudar Flávio a aprovar uma agenda ambiciosa caso seja eleito — ou limitar a capacidade de Lula de adotar medidas de elevado custo fiscal caso consiga reverter a disputa.
“Um Congresso mais conservador aumenta as chances de uma consolidação fiscal crível nos próximos anos e reduz de forma significativa o risco de cauda de uma política fiscal persistentemente frouxa, independentemente de quem vencer o segundo turno”, afirmou Pramol Dhawan, chefe de mercados emergentes da Pimco. “Estamos otimistas com o Brasil daqui para a frente.”
-- Com a colaboração de Leda Alvim, Barbara Nascimento, Maria Elena Vizcaino, Felipe Saturnino e Nicolle Yapur.
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