Dólar a R$ 4,50 e bolsa em 250 mil pontos? As previsões de Wall Street após o 1º turno

Bancos de investimento enxergam potencial para uma nova rodada de valorização dos ativos brasileiros após o primeiro turno, embora o cenário dependa do desfecho da disputa entre Flávio Bolsonaro e Lula e da credibilidade do próximo governo

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Bloomberg Línea — O primeiro turno das eleições no Brasil marcou o início de uma nova fase para os mercados. Após a alta inicial dos ativos locais, os bancos de investimento estão propondo operações para aproveitar uma eventual segunda fase desse movimento, desde ações e o real até títulos e taxas.

O ponto de partida é o resultado eleitoral. Flávio Bolsonaro (PL) ficou à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e a composição do Congresso se deslocou para o centro-direita e a direita — resultado que os bancos associam a maiores possibilidades de consolidação fiscal.

A diferença está entre antecipar uma alta e investir dinheiro nessa hipótese. O Citi (C) aumentou sua exposição no Brasil, o JPMorgan (JPM) mantém operações relacionadas ao real e às taxas, e o Morgan Stanley (MS) identifica os ativos que poderiam se beneficiar caso o prêmio fiscal caia.

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“Em nossa opinião, é melhor aproveitar o movimento logo no início do que mais tarde”, disse Alice Zheng, analista do Citi. A empresa decidiu aumentar sua exposição ao Brasil após uma reação que ela classificou como excepcionalmente forte. Estes são os cinco pontos-chave identificados pelos bancos de investimento.

1. Wall Street aposta na continuidade da alta

O Citi parte de uma observação sobre o comportamento do mercado após grandes eventos. Os movimentos extraordinários do primeiro dia costumam apresentar certa continuidade, pois parte dos investidores evita, inicialmente, entrar no mercado após uma alta abrupta e acaba fazendo isso se não ocorrer uma correção rápida.

A empresa não se limita a esperar por essa continuidade. Depois de ter adquirido exposição a uma queda do câmbio por meio de uma opção digital antes do primeiro turno, decidiu aumentar seu risco no Brasil após o resultado eleitoral e manter capacidade para abrir novas posições.

“Queremos, portanto, aumentar nossa exposição ao Brasil”, escreveu Zheng. A estratégia baseia-se na expectativa de que um eventual governo de Bolsonaro favoreça privatizações, desregulamentação, custos de financiamento mais baixos e um ajuste fiscal.

O JPMorgan também considera que o resultado permite uma valorização adicional, embora condicione parte desse potencial a sinais que ainda não existem. O banco destaca a política fiscal, a governança econômica e o marco institucional entre as variáveis que o mercado observará antes do segundo turno.

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2. A meta de 250.000 pontos

O mercado de ações concentra uma das apostas mais explícitas. O Citi comprou contratos futuros sobre o Ibovespa, o índice de referência da bolsa brasileira, a 208.990 pontos. Sua meta é de 250.000 pontos e estabeleceu um nível de vigilância de 190.000. A operação envolve um risco de US$ 500.000.

O Citi usa 2018 como precedente: naquela época, o Ibovespa subiu imediatamente após o primeiro turno e manteve essa tendência até o segundo turno. A instituição acrescenta que os fluxos estrangeiros para as ações brasileiras estavam estáveis desde meados de setembro e distantes dos níveis alcançados no início de 2026.

Ibovespa

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O Morgan Stanley chega ao mesmo nível por outro caminho. A instituição espera que o Ibovespa se aproxime de sua meta de 250.000 pontos caso as probabilidades de uma mudança na política se mantenham, em comparação com os 192.000 pontos que serviam de referência antes do resultado ser divulgado.

“Esperamos que o mercado se aproxime da nossa meta de 250.000 pontos para o índice Ibovespa no curto prazo”, escreveram Nikolaj Lippmann, Julia Nogueira e Marcos Ríos, estrategistas do Morgan Stanley. Seu cenário otimista para 2027 também aponta o Ibovespa em 250.000 pontos.

O JPMorgan aponta o potencial por meio da avaliação. A instituição estima que o múltiplo preço/lucro em 12 meses possa subir entre 20% e 25%, passando de 8,9 vezes para cerca de 10,9 vezes. Aproximadamente metade desse ajuste, equivalente a um avanço de 10% a 11% nas ações, poderia ocorrer rapidamente.

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3. Valorização do real

O real constitui mais uma expressão direta do “trade eleitoral”. O JPMorgan espera que o câmbio teste a marca de R$ 5,00 e mantém uma estrutura de opções para três meses entre R$ 5,00 e R$ 4,80. Sua análise considera viável que o par alcance R$ 4,80 nas próximas semanas. Hoje, o dólar é negociado acima de R$ 4,98.

O Morgan Stanley prevê uma trajetória mais ampla. Primeiramente, considera um limite abaixo das mínimas de 2026, próximo de R$ 4,90, apoiado também por eventuais compras de ações por investidores estrangeiros. O cenário de alta leva, posteriormente, o câmbio até R$ 4,50 durante o primeiro trimestre de 2027.

Esse objetivo depende de certas condições. “Para atingir esses níveis, é preciso apresentar aos mercados um plano fiscal mais credível e o contexto global precisa permanecer relativamente estável”, escreveram Ioana Zamfir e Sofía Palacios, estrategistas do Morgan Stanley.

Câmbio - USD/BRL

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O Citi aumenta sua exposição cambial de forma indireta. A empresa mantém sem cobertura cambial sua nova posição no Brasil na alocação global de ativos, além da operação em USD/BRL aberta antes das eleições.

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4. Aposta por um abatimento fiscal menor

O mesmo argumento se aplica aos títulos: se os investidores perceberem uma maior disciplina fiscal, poderão exigir uma rentabilidade menor para emprestar dinheiro ao Brasil. Como o preço dos títulos se move na direção oposta ao seu rendimento, uma queda nessas taxas favorece quem já os possui.

O Citi comprou NTN-F com vencimento em 2031, títulos do governo brasileiro que pagam uma taxa fixa. A operação foi realizada com um rendimento de 12,90% e estabeleceu uma meta de 12,25%. A aposta pressupõe que o rendimento caia e, portanto, que o preço do título suba.

A empresa também mantém a posição sem cobertura cambial, pelo que fica exposta ao real. O Citi considera que esses títulos podem se beneficiar de uma menor percepção de risco fiscal e de expectativas de taxas de juros mais baixas no Brasil.

O JPMorgan apresenta uma tese semelhante por meio da curva DI, que reflete as taxas de juros esperadas pelo mercado para diferentes prazos no Brasil. O banco aposta em uma queda da taxa de janeiro de 2037 para 13,00%, ante 14,16% antes do primeiro turno.

O Morgan Stanley também espera uma redução nas taxas implícitas. A instituição estima que os contratos DI a partir de janeiro de 2029 possam cair inicialmente entre 100 e 150 pontos-base, enquanto a expectativa para a taxa final do ciclo possa passar de cerca de 13,50% para 11,00%.

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5. Riscos

As operações não significam resultados garantidos. O próximo marco político é o segundo turno, em 25 de outubro, enquanto que, para os mercados, o foco se voltará posteriormente para o programa fiscal e a composição da equipe econômica.

O Morgan Stanley considera que o ajuste de preços pode anteceder o ajuste das contas públicas. “A implementação fiscal será gradual, mas a valorização dos ativos brasileiros não precisa ser”, escreveram Ana Madeira e Thiago Machado.

O JPMorgan condiciona o potencial das ações no segundo semestre à adoção de medidas que permitam taxas mais baixas. Para alcançar uma mudança estrutural na valorização, o banco exige uma agenda que combine disciplina fiscal e reformas estruturais, além de um contexto externo favorável.

O Citi identifica dois riscos específicos para sua compra do Ibovespa: um episódio global de aversão ao risco e uma vitória de Lula no segundo turno. Para os títulos, acrescenta uma venda global de duração. O Morgan Stanley incorpora, além disso, a credibilidade do plano fiscal e alerta que a sazonalidade de fim de ano poderia frear a valorização do real.

Assim, a próxima fase dependerá menos da repetição da reação após o primeiro turno e mais dos sinais que permitam manter as posições já estabelecidas: segundo turno, programa fiscal, ministros da economia, trajetória das taxas e condições financeiras globais.

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