A Colômbia e o Brasil estão entre os países com as maiores taxas de juros reais em seus títulos soberanos de 10 anos até janeiro de 2026, atrás apenas de economias que apresentaram fortes tensões macrofinanceiras, de acordo com dados da empresa Lumen Economic Intelligence.
As economias emergentes costumam pagar taxas reais próximas a 4%, enquanto nas economias de alta renda elas geralmente ficam abaixo de 2%, disse Luis Fernando Mejía, CEO do centro de análise Lumen Economic Intelligence, à Bloomberg Línea.
“O Brasil tem o mesmo problema da Colômbia, alto déficit e alta dívida. O México e o Peru têm taxas de juros compatíveis com seus pares de renda média alta”, disse ele.
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Sobre a Colômbia, explicou em sua conta no X que o nível das taxas reais “reflete o prêmio de risco associado à deterioração do equilíbrio fiscal e à ausência de um caminho credível de consolidação”.
Na sua opinião, “sem ajustes fiscais, o custo do financiamento para o governo e, por extensão, para toda a economia, continuará sendo estruturalmente alto”.
Mejía considerou que, no Peru, as taxas deveriam subir enquanto se resolve o futuro do cenário político, enquanto que no Brasil e na Colômbia “não deveria haver grandes movimentos agora, mas sim em torno das eleições” para a Presidência.
Ele disse que a Argentina ainda não é sujeita a crédito, mas que seus compromissos se concentram nos desembolsos milionários do Fundo Monetário Internacional (FMI), bem como na dívida secundária (compra/venda no mercado).
A colocação da dívida do Equador (títulos com vencimento em oito e 13 anos a taxas de 8,75% e 9,25%) alimentou a expectativa de que a Argentina poderia retornar em breve aos mercados internacionais.
A alta demanda por títulos equatorianos reforçou a percepção de que ainda há apetite global por dívida emergente, mesmo em países com histórico de inadimplência, como a Argentina.
No entanto, o ministro da Economia argentino, Luis Caputo, descartou entrar no mercado no curto prazo.
Em janeiro de 2026, as taxas de juros reais dos títulos soberanos de 10 anos são mais altas no Egito (10%), seguido pelo Brasil (8,7%), Rússia (7,7%) e Colômbia (7,1%).
Na sequência aparecem: Paquistão (5,2%), México ( 4,8%), África do Sul (4,4%), Peru (4%), Índia (3,9%) e Filipinas (3,8%), de acordo com dados da Lumen Economic Intelligence, com informações da revista The Economist.
Em uma faixa intermediária estão a Indonésia (2,8%), a República Tcheca (2,8%), a Polônia (2,6%), a Tailândia (2,5%), o Chile ( 2,4%) e a Itália (2,4%).
Em seguida, aparecem a Suécia (2,2%), a Dinamarca (1,9%), a Malásia (1,9%), Israel (1,9%), Estados Unidos (1,7%), Coreia do Sul (1,6%), China (1,4%), Hong Kong (1,4%), Reino Unido (1,4%) e zona do euro (1,0%).
As taxas são mais baixas no Canadá (0,9%), Austrália (0,9%), Taiwan (0,7%), Cingapura (0,7%), Espanha (0,7%), Alemanha (0,6%), Noruega (0,6%), Grécia (0,5%), Suíça (0,1%), Japão (0,0%) e Turquia (-2,0%).
“Buscar financiamento é caro por duas razões que se reforçam”, disse à Bloomberg Línea Emanoelle Santos, analista de mercados da plataforma global de investimentos XTB Latam.
Primeiro, explicou, o mundo ainda não voltou a um regime de taxa livre de risco baixo.
Em segundo lugar, o mercado pune mais a falta de âncoras fiscais credíveis.
“Por isso, a distância entre o Brasil ou a Colômbia e o Chile ou o Peru não é marginal, é de vários pontos percentuais por ano, e essa diferença se traduz rapidamente em maiores gastos com juros e menos espaço para políticas públicas”, afirmou Santos.
Em termos práticos, os países com índices elevados e classificação especulativa precisam crescer acima do custo médio da dívida e apresentar um ajuste fiscal gradual, mas consistente, “porque, caso contrário, cada rodada de refinanciamento se torna um multiplicador de vulnerabilidade”.
Evolução da dívida soberana
“A dívida soberana na região não conseguiu uma tendência sustentada de queda após o salto dos últimos anos”, comentou Santos.
O agregado da América Latina e do Caribe passa de 67,9% do PIB em 2022 para 73,5% em 2023, corrige em 2024 e volta a subir para 72,6% em 2025.
“Essa oscilação é consistente com um ambiente de crescimento moderado e consolidação fiscal parcial, em que o denominador ajuda em alguns anos, mas o custo dos juros e as necessidades de refinanciamento voltam a exercer pressão”, observou a analista.
O Brasil é o caso mais exigente: a dívida sobe de 83,9% para 91,4% do PIB entre 2022 e 2025, e o valor bruto em dólares também aumenta, o que, segundo Santos, “sugere que a melhora cíclica não foi suficiente para estabilizar a dinâmica e que o mercado acaba olhando mais para a trajetória fiscal do que para o nível pontual”.
O México e a Colômbia convergem em 58,9% do PIB em 2025, mas por caminhos diferentes: o México acelera o rácio desde 2024, enquanto a Colômbia mostra mais volatilidade, com uma recuperação em 2024 e uma correção parcial em 2025, “típico de economias onde o crescimento nominal e a taxa de câmbio podem mover o rácio tanto quanto o saldo fiscal”.
O Chile sobe gradualmente até 42,7% do PIB, ainda dentro de uma faixa moderada, e o Peru mantém-se praticamente em torno de 32% do PIB, que é o perfil mais defensivo do grupo.
Outra interpretação do custo do financiamento

Outra forma de avaliar o custo do financiamento soberano é através do EMBI do JPMorgan (JPM), que mede o spread (ou diferencial) que os títulos soberanos em dólares pagam em relação aos títulos do Tesouro dos Estados Unidos.
O EMBI não depende de uma única emissão, mas agrega vários títulos em moeda forte e permite “uma comparação consistente entre países e ao longo do tempo”, disse Jonathan Fortun, economista do Instituto de Finanças Internacionais (IIF), à Bloomberg Línea.
Essa medição reflete o custo pelo qual o mercado empresta hoje, mas não o tamanho da dívida nem a carga fiscal associada ao seu serviço.
Assim, um país pode pagar uma taxa relativamente alta e ter pouca dívida, ou pagar uma taxa mais baixa com um estoque elevado de dívida.
Nesse contexto, Fortun destaca que o panorama global mostra “uma dispersão muito clara”.
No extremo superior aparecem países em default ou em grave crise, como o Líbano e a Venezuela, com spreads que , em diferentes momentos, ultrapassaram amplamente os 1.500–2.000 pontos-base (pb).
“Na Venezuela, por exemplo, embora o país continue em default e com spreads excepcionalmente elevados, o prêmio de risco caiu significativamente desde seus picos, em paralelo aos recentes acontecimentos políticos e a uma reavaliação dos cenários de transição e eventual reestruturação”, disse Fortun.
Para o analista do IIF, isso ilustra como os spreads respondem a mudanças na percepção de risco, mais do que a melhorias imediatas nos fundamentos macroeconômicos.
Em seguida, aparecem economias com acesso muito limitado aos mercados internacionais ou com histórico recente de reestruturação, como Bolívia e Argentina, cujos spreads permanecem elevados, embora abaixo dos casos mais extremos.
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Entretanto,“o Equador está retornando gradualmente aos mercados, e isso já se reflete em uma redução significativa dos spreads em relação aos máximos pós-reestruturação”, explicou Fortun.
Em um nível intermediário estão países como Colômbia e El Salvador, com spreads em torno de 230–260 pb, “níveis muito alinhados com vários pares emergentes”, segundo Fortun.
Especificamente sobre a Colômbia, ele disse que o país aparece em uma posição intermediária e relativamente estável dentro do universo emergente, em um contexto de compressão generalizada das taxas e spreads.
Mais abaixo aparecem México, Brasil, Peru, Chile e Uruguai, com spreads que oscilam entre 70 e 200 pb, “refletindo maior profundidade financeira e marcos políticos mais confiáveis”.
Na maior parte do universo emergente, o spread concentra-se geralmente na faixa de 150 a 400 pontos-base, de acordo com os números do IIF.
O apelo da dívida da América Latina

Para a analista Emanoelle Santos, a atratividade da dívida soberana latino-americana em 2025 e 2026 não se explica apenas pelo nível das taxas, mas pela combinação entre “normalização macro local e um ambiente externo mais imprevisível”.
A região chega a esta etapa com uma inflação mais contida, moedas relativamente mais firmes e contas externas menos frágeis, o que melhora a leitura do risco face a episódios de saída de capitais.
No entanto, ele ressalta que essa melhora coexiste com um prêmio global mais sensível a choques políticos, fiscais e geopolíticos, razão pela qual o mercado está recompensando mais claramente aqueles que oferecem regras fiscais confiáveis, instituições mais estáveis e uma gestão da dívida mais transparente.
Isso pode ser observado na dispersão dos spreads e rendimentos.
Com índices de endividamento mais baixos, “o Chile e o Peru combinam solvência com um custo financeiro que parece administrável, enquanto o Brasil e a Colômbia enfrentam uma carga de juros significativamente mais alta”, observou Santos.
Isso em um momento em que “o financiamento internacional ainda exige disciplina e sinais consistentes”.
Nesse contexto, Santos afirma que entrar no mercado não é apenas uma decisão de liquidez, mas também uma prova de credibilidade, “porque cada nova emissão ancora expectativas sobre a trajetória fiscal futura e, se o mercado perceber dúvidas, o custo marginal aumenta rapidamente”.
“A consolidação fiscal tornou-se mais difícil sem reformas estruturais, e as trajetórias da dívida continuarão a diferir entre os grandes países que ainda não conseguem superávits primários sustentáveis e as economias que conseguiram estabilizar seus balanços”, concluiu.









