De hawkish a dovish: Trump anuncia escolha de Kevin Warsh para comandar o Fed

Nomeação antecipada no mercado mais cedo foi anunciada em post na plataforma Truth Social. Ex-diretor do Fed de 2006 a 2011, Warsh defendeu juros mais altos no passado, mas recentemente se alinhou a Trump ao pedir taxas menores

Kevin Warsh esteve no Board of Governors do Federal Reserve de 2006 a 2011, período que abrangeu a crise financeira global de 2008
Por Catarina Saraiva
30 de Janeiro, 2026 | 10:05 AM

Bloomberg — O presidente Donald Trump disse nesta manhã de sexta-feira (30) que pretende indicar Kevin Warsh para ser o próximo presidente do Federal Reserve, de acordo com uma publicação em sua plataforma Truth Social.

“Conheço Kevin há muito tempo e não tenho dúvidas de que ele será um dos GRANDES presidentes do Fed, talvez o melhor”, escreveu Trump. “Além de tudo, ele é o ‘elenco central’ e nunca deixará vocês na mão.”

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Warsh, que atuou no Board of Governors do banco central dos EUA de 2006 a 2011 e já aconselhou Trump sobre política econômica, sucederá Jerome Powell quando seu mandato no comando terminar em maio.

Isso marcará o retorno de Warsh, hoje com 55 anos, ao Fed, depois que ele foi preterido para o cargo principal em 2017, quando Trump escolheu Powell.

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Se confirmado pelo Senado, o ex-diretor do Fed assumirá o comando da política monetária dos EUA em um momento em que muitos economistas e investidores consideram que seu tradicional isolamento das autoridades eleitas está sendo ameaçado pela Casa Branca.

Warsh se alinhou com o presidente Trump em 2025 ao defender publicamente taxas de juros mais baixas, contrariando sua reputação de longa data como um “falcão da inflação” - ou seja, com um perfil hawkish.

O dólar manteve os ganhos e os futuros das ações dos EUA permaneceram em baixa depois que Trump confirmou as notícias que ganharam força nesta manhã de que escolheria Warsh.

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Embora o próximo presidente do Fed tenha feito eco aos apelos de Trump para reduzir os custos dos empréstimos e reformular o banco central no ano passado, traders o veem como potencialmente mais hawkish do que outros candidatos para a função, dado o quanto ele se preocupou com a inflação quando estava no Fed e suas críticas mais recentes ao seu grande balanço patrimonial.

Durante seu período no Fed no mandato de Ben Bernanke como presidente do Fed, Warsh sempre foi cauteloso em relação à inflação e frequentemente apoiava taxas de juros mais altas.

A disposição de reduzir as taxas é vista como um teste decisivo para o próximo presidente, o que preocupa os observadores do Fed, pois isso prejudicaria a independência do banco central.

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A escolha de Warsh não garante uma mudança na política do Fed.

As taxas de juros são fixadas por maioria de votos do Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC), composto por sete diretores (governors) do Fed e cinco dos 12 presidentes dos bancos regionais do Fed.

O FOMC manteve sua taxa de referência estável nesta semana, depois de reduzi-la três vezes consecutivas no final de 2025, e as taxas permanecem bem acima do nível desejado por Trump - no intervalo entre 3,50% e 3,75%.

Sua confirmação no Senado também pode ser complicada em razão de uma investigação do Departamento de Justiça recentemente anunciada sobre o banco central.

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Em 9 de janeiro, o Fed recebeu intimações referentes ao depoimento de Powell no Congresso em 2025 sobre um projeto de reforma de um prédio.

Powell emitiu uma extraordinária declaração gravada em vídeo condenando a investigação, e vários legisladores republicanos saíram em defesa do banco central, sendo que um deles prometeu bloquear qualquer nomeação para o Fed até que a questão legal fosse resolvida (encerrada).

Crítico frequente do Fed

Trump tem estado em desacordo com Powell quase desde que o atual presidente do Fed assumiu o comando em 2018.

Em 2020, o presidente lamentou ter escolhido Powell em vez de Warsh para o cargo: “Kevin, eu poderia ter usado você um pouco mais aqui. Por que você não foi mais contundente quando quis esse cargo?”, disse ele na época.

Warsh aconselhou Trump sobre política econômica desde a sua primeira campanha presidencial. Desde que deixou o Fed, Warsh tem criticado com frequência a instituição, dizendo recentemente que ela precisa de uma mudança de regime e propondo um plano para reduzir as taxas de juros.

“Trata-se de quebrar algumas cabeças, porque a forma como eles têm feito negócios não está funcionando”, disse Warsh à Fox News em julho.

Warsh foi nomeado para o Conselho de Diretores do Fed pelo então presidente George W. Bush em 2006, depois de ter trabalhado na Casa Branca de Bush e, antes disso, em Wall Street - atuou por anos no Morgan Stanley.

Embora não fosse muito conhecido quando entrou para o banco central, sua experiência e seus contatos nos mercados financeiros e no mundo bancário se mostraram fundamentais durante a crise financeira de 2008.

Sua nomeação à época o tornou a pessoa mais jovem a ocupar o cargo de diretor do Fed - e um dos mais ricos. Ele é casado com Jane Lauder, filha do proeminente doador republicano Ronald Lauder - filho, por sua vez, de Estée Lauder, da marca de maquiagens de mesmo nome, e ex-colega de classe de Trump na Wharton School.

Lauder doou US$ 5 milhões em março para o MAGA, o super comitê de ação política de Trump.

Warsh se demitiu do Fed em 2011, logo após o início de uma segunda rodada de compras de títulos para sustentar uma economia em crise.

Desde então, ele tem criticado a expansão do balanço patrimonial do Fed e agora argumenta que, ao reduzir o tamanho do balanço de forma mais agressiva, o banco central também poderia reduzir mais as taxas de juros.

Visão hawkish do mercado

Essa abertura para taxas mais baixas marcaria uma mudança para Warsh, que já foi tão cauteloso com relação à inflação que defendeu taxas mais altas mesmo no auge da crise financeira global de 2008.

Economistas da Evercore ISI, liderados por Krishna Guha, escreveram em uma nota na quinta-feira que, se Warsh fosse escolhido, os investidores reagiriam inclinando a curva de rendimento - ampliando o prêmio dos títulos do Tesouro com prazos mais longos em relação aos mais curtos -, na expectativa de que ele seria mais hawkish do que os outros candidatos, embora adiassem uma abordagem hawkish em 2026.

Eles também previram que, inicialmente, o dólar estaria mais alto, e os ativos de risco, mais baixos.

Embora o Fed tenha feito três cortes de um quarto de ponto nas taxas de juros no ano passado - em setembro, outubro e dezembro -, Powell disse na quarta-feira (27) que havia um amplo apoio no FOMC para manter as taxas inalteradas em meio a sinais de alguma estabilização no mercado de trabalho.

Os contratos nos mercados de futuros mostram que os investidores esperam que as taxas caiam para cerca de 3% até o final de 2026, ainda muito acima de onde Trump gostaria que estivessem - perto de zero, segundo já declarou.

-- Com a colaboração de Simon Kennedy.

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