Bloomberg — O presidente Donald Trump enfatizou que quer que Kevin Warsh lidere o Federal Reserve de forma independente, ao tentar minimizar preocupação de investidores de que pressionaria o novo chefe do banco central americano sobre decisões de política monetária.
Warsh, que prometeu realizar a maior reformulação em décadas no banco central americano, tomou posse nesta sexta-feira (22) numa cerimônia na Casa Branca como 17º presidente do Fed.
“Quero que Kevin seja totalmente independente. Quero que ele seja independente e apenas faça um ótimo trabalho. Não olhe para mim, não olhe para ninguém, apenas faça a própria coisa e faça um ótimo trabalho”, disse Trump durante a cerimônia de posse.
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Warsh assume num momento tenso para a economia e o banco central. Pressões de preços reaceleraram nos últimos meses, impulsionadas pelo impacto da guerra no Oriente Médio sobre fornecimentos de energia.
Investidores agora veem alta de juros chegando até dezembro após novos dados na sexta-feira mostrarem que expectativas dos consumidores para inflação de longo prazo saltaram para maior nível em sete meses.
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O Fed, enquanto isso, foi atacado no último ano por Trump por não cortar taxas de juros rápido o suficiente. Durante a cerimônia, Trump criticou o Fed por se tornar “distraído por preocupações muito distantes de sua missão e mandato centrais”, como mudança climática e iniciativas de diversidade, mas se absteve de comentar sobre decisões de juros.
“Kevin protegerá a integridade do Fed. Eles tomarão suas próprias decisões, e espero que as tomem bem, mas estarão ouvindo Kevin o tempo todo”, disse Trump.
Mas o pano de fundo de inflação persistente e pressão política alimentou preocupação entre investidores e analistas de que a independência do Fed está sob ameaça.
Em sua audiência de confirmação para o cargo, Warsh prometeu repetidamente agir de forma independente mesmo ao criticar o banco central pelo que chamou de desvio de missão e sua resposta ao surto inflacionário da pandemia.
Alguns aliados do presidente estão ansiosos para ajudar Warsh a evitar o mesmo destino de Jerome Powell, agora ex-presidente do Fed, que tem sido um dos alvos favoritos de Trump desde seu primeiro mandato.
Figuras públicas sensíveis a oscilações do mercado e conscientes da importância da independência do Fed para operadores de títulos, como o secretário do Tesouro Scott Bessent e Larry Kudlow, da Fox Business, fizeram declarações dando cobertura a Warsh para deixar juros inalterados por um tempo.
Mensagens similares foram entregues em particular, segundo pessoas familiarizadas com o assunto que falaram com a Bloomberg News, e o esforço pode estar funcionando, pelo menos por enquanto.
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Mesmo ao declarar seu desejo de que Warsh seja independente, Trump também sutilmente encorajou Warsh a não atrapalhar quando a economia expandir rapidamente.
“Diferente de alguns de seus antecessores, Kevin entende que quando a economia está em expansão, isso é algo bom”, disse Trump. “Não temos que enlouquecer, apenas deixe expandir. Queremos que expanda.”
As personalidades presentes na cerimônia de sexta-feira também destacaram os laços do novo presidente com o movimento conservador.
O juiz Clarence Thomas, um dos membros mais conservadores da Suprema Corte, presidiu o juramento de Warsh. A Suprema Corte avalia uma ação que desafia a tentativa de Trump de demitir Lisa Cook como governadora do Fed.
Em seus comentários, Warsh também destacou seu tempo trabalhando com o juiz Brett Kavanaugh, que também estava presente, durante a presidência de George W. Bush. Ele disse a Trump: “Nos considerávamos abençoados e gratos por servir a nação que amamos.”
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Warsh não é o primeiro presidente do Fed a fazer juramento na presença do presidente. George W. Bush compareceu à posse de Ben Bernanke em 2006 na sede do banco central, enquanto Ronald Reagan sediou a cerimônia de Alan Greenspan na Casa Branca em 1987.
O Senado americano confirmou Warsh como presidente do Fed por votação de 54-45 no início de maio. A votação foi a margem de confirmação mais apertada de todos os tempos para presidente do Fed, refletindo divisões partidárias no Congresso e preocupações entre legisladores democratas de que Warsh pode ser receptivo a demandas de Trump sobre taxas de juros.
Warsh, um dos funcionários do Fed mais ricos da história, prometeu se desfazer de algumas de suas participações antes de tomar posse. Documentos divulgados pelo Escritório de Ética Governamental no início desta semana mostraram que ele vendeu a maioria delas, embora esses registros não indiquem se todas as participações foram vendidas e permaneça incerto se ele já se desfez de tudo.
‘Mudança de regime’
Warsh prometeu trazer “mudança de regime” ao banco central, incluindo reduzir o balanço patrimonial de US$ 6,7 trilhões do Fed, estabelecer nova estrutura para analisar inflação e mudar como a instituição se comunica com o público.
Após fazer o juramento, Warsh disse que era possível entregar “prosperidade incomparável que elevará padrões de vida para americanos de todas as esferas da vida.”
“Nosso mandato no Fed é promover a estabilidade de preços e o emprego máximo”, disse ele. “Quando buscamos esses objetivos com sabedoria e clareza, independência e determinação, a inflação pode ser menor, o crescimento mais forte, o salário líquido real mais alto.”
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Warsh enfrentará desafio imediato, porém, na frente de política monetária. Antes de receber nomeação de Trump para o cargo de presidente, Warsh apresentou argumento para por que juros poderiam ser menores. Mas autoridades do Fed mostram pouco apetite para entregar reduções de curto prazo em meio a preocupações sobre inflação, que acelerou em abril no ritmo mais rápido desde 2023.
Os formuladores de política monetária mantiveram as taxas de juros inalteradas no mês passado numa faixa de 3,5% a 3,75% ao ano. A ata da reunião mostrou que a maioria dos diretores alertou que provavelmente precisariam considerar aumentar taxas de juros se a inflação continuar persistentemente acima de sua meta de 2%.
O governador do Fed Christopher Waller, um dos mais influentes, disse na sexta-feira que agora pensa que o próximo movimento do banco central tem a mesma probabilidade de ser de alta quanto de corte. O comitê de definição de juros do Fed se reunirá novamente em 16 e 17 de junho em Washington.
A transição de liderança no Fed também é incomum pela decisão de Powell de permanecer no Conselho de Governadores, rompendo com precedente de presidentes anteriores deixarem a instituição ao final de seus mandatos de liderança. Seu mandato como governador vai até janeiro de 2028.
Powell disse que ameaças legais contínuas contra ele e o banco central não lhe deixaram opção senão ficar. O último presidente que saiu e permaneceu no conselho foi Marriner Eccles, que ficou até 1951 após seu mandato como chefe do banco central terminar em 1948.
O Departamento de Justiça de Trump abriu investigação criminal sobre reforma de US$ 2,5 bilhões da sede do banco central em Washington, algo que reteve a confirmação de Warsh antes da procuradora americana Jeanine Pirro dizer que a estava abandonando.
Powell disse que está ficando para apoiar a independência do Fed de interferência política e não para minar seu sucessor.
-- Com colaboração de Saleha Mohsin.
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