Da SpaceX à OpenAI: ETFs temáticos moldam nova fase de IPOs globais em 2026

Mercado de ofertas públicas iniciais contará com um conjunto de emissores que, independentemente do seu tamanho, compartilham uma característica em comum: estão alinhados com as grandes megatendências que impulsionam as carteiras temáticas

SpaceX
26 de Janeiro, 2026 | 10:15 AM

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Bloomberg Línea — O mercado global entra em 2026 com um ambiente pronto para absorver uma nova geração de unicórnios tecnológicos. Não se trata apenas de expectativas em torno de ofertas públicas iniciais, mas de uma configuração estrutural que envolve capital, regulamentação, narrativa de investimento e uma demanda institucional concentrada em fundos temáticos.

SpaceX, OpenAI, Databricks e Anthropic lideram uma lista de possíveis emissores que ainda não estão cotados, mas que já mobilizam recursos, especulação e posicionamento antecipado.

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Em ciclos anteriores, as Ofertas Públicas Iniciais (IPO) marcavam o interesse do mercado. Desta vez, os ETFs temáticos e outros veículos antecipam a chegada dessas empresas como parte de uma estratégia mais ampla baseada em megatendências.

Breanne Dougherty, analista da Bloomberg Intelligence, afirma que “há uma razão clara pela qual os ETFs temáticos estão no topo da nossa lista de posicionamento para 2026: um profundo banco global de IPOs repleto de empresas privadas em expansão, indispensáveis e poderosos catalisadores temáticos”.

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O encerramento de 2025 já deu sinais da mudança de tom. O volume de OPI cresceu 39%, com casos como CoreWeave e Circle que mostraram como uma conexão temática clara pode se traduzir em uma absorção imediata por parte de ETFs e investidores estruturais. A expectativa para 2026 não reside apenas nas novas ofertas, mas em como o mercado já se reconfigura para integrá-las.

ETFs temáticos

O relatório da Bloomberg Intelligence afirma que, em 2026, o mercado de IPO contará com um conjunto de emissores que, independentemente do seu tamanho, compartilham uma característica em comum: estão alinhados com as grandes megatendências que impulsionam as carteiras temáticas. SpaceX, OpenAI, Anthropic, Databricks, Kraken e outras empresas ligadas à inteligência artificial, espaço, cibersegurança, defesa e criptomoedas compõem um possível pipeline com ressonância global.

Dougherty destaca que “seus olhos estão voltados para um banco de OPI que abrange geografias e temas. Mas o momento é importante, com uma força que constantemente inclina as probabilidades a favor: um catalisador temático claro”.

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A magnitude do fluxo de capital para esses setores na véspera de suas possíveis ofertas públicas valida essa abordagem. A Bloomberg Intelligence estima que, em 2025, aproximadamente US$ 600 bilhões foram canalizados para unicórnios temáticos, com concentração em inteligência artificial.

Dougherty destaca que “o boom apresenta indicadores clássicos pré-OPI: rodadas tardias superdimensionadas, reajustes de avaliação, alianças estratégicas e fortalecimento operacional”.

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Nesse contexto, os ETFs temáticos surgem como veículos com capacidade de absorção imediata. De acordo com o relatório, algumas das empresas privadas mais observadas, como SpaceX, Kraken ou Ripple , “contam com catalisadores temáticos claros e investíveis”. Em 2025, empresas como CoreWeave e Circle foram incorporadas a 42 e 48 ETFs temáticos, respectivamente, acumulando US$ 37,7 bilhões e US$ 23,7 bilhões em ativos sob gestão.

O comportamento dessas duas empresas funciona como um antecipado do padrão que poderia ser replicado em futuras listagens, como a da SpaceX. Ambos os casos mostram como a presença de um catalisador temático definido, como inteligência artificial ou infraestrutura criptográfica, acelera a adoção por parte dos ETFs, oferecendo uma fonte imediata de demanda estrutural após a abertura de capital.

Dougherty adverte, no entanto, que “a história mostra que as OPI frequentemente caem em ciclos de ascensão e queda precoces, mas uma forte relevância temática pode ser um fator crítico”.

Janelas de emissão

A recuperação do mercado de IPOs observada em 2025 estabelece as bases para o que poderá ser uma expansão ainda mais profunda em 2026. De acordo com o último relatório da EY, foram realizadas 1.293 IPOs globais com um volume total de US$ 171,8 bilhões, o que representa um aumento de 39% na arrecadação em relação ao ano anterior.

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A EY antecipa que “2026 poderá trazer um dos ciclos de listagens tecnológicas mais significativos em mais de uma década, com uma possível mega onda de OPIs impulsionadas pela IA no horizonte”.

O interesse estrutural por setores como inteligência artificial, defesa e infraestrutura também é observado na análise do escritório internacional de advocacia Cleary Gottlieb, especializado em direito corporativo e financeiro, que destaca que “a força das OPIs em 2025 foi sustentada por emissores tecnológicos focados em infraestrutura digital e cibersegurança, que se posicionaram consistentemente na faixa alta de preços e tiveram um sólido desempenho pós-IPO”.

Nos Estados Unidos, o apetite dos investidores permitiu encerrar 2025 com 202 OPIs acima de US$ 50 milhões, contra 150 em 2024. Cleary Gottlieb explica que “a dinâmica de mercado subjacente à recuperação das OPIs nos EUA em 2025 foi um acúmulo de empresas apoiadas por capital de risco que haviam atingido a maturidade, coincidindo com uma demanda contida por emissores com perfis de forte crescimento”.

O relatório da EY também revela que a Ásia-Pacífico liderou em arrecadação graças a sete das dez maiores OPIs do ano, enquanto a EMEIA dominou em número de operações. A Índia se destacou com 367 ofertas públicas e US$ 22,9 bilhões arrecadados, impulsionados por uma base de investidores domésticos ativa e listagens de pequenas e médias empresas.

Na Europa, apesar de uma queda de 20% no número de operações e de 10% nos valores, a EY destaca que “a atividade de OPI refletiu um ano de recalibração estrutural, mais do que uma retração”. As reformas regulatórias no Reino Unido, França, Bélgica e Itália buscam justamente reduzir as cargas administrativas para emissores emergentes.

Quanto ao papel das empresas de private equity, o relatório da EY revela que “embora os patrocinadores tenham representado apenas 103 operações, eles geraram US$ 62,1 bilhões em arrecadação, o que equivale a 36% do total mundial de fundos obtidos por meio de OPI”.

Expectativas na América Latina

A região mostra sinais contraditórios em relação à sua preparação para aderir a este ciclo expansivo. O México foi um dos mercados mais ativos do continente em 2025, com operações como a da Fibra Next, no valor de US$ 431 milhões, e a da Esentia Energy, no valor de US$ 630 milhões.

A Cleary Gottlieb antecipa que “a esperada oferta pública inicial (IPO) do Banamex no segundo semestre de 2026 está posicionada para ser uma das ofertas globais mais esperadas do ano”.

Em contrapartida, o Brasil continua sem registrar uma oferta pública inicial tradicional desde 2021, com uma queda no número de empresas listadas na B3 para níveis anteriores a 2020.

Mesmo assim, a Comissão de Valores Mobiliários introduziu um marco simplificado para emissões de pequenas e médias empresas, e o mercado espera que uma eventual redução das taxas possa reabrir a janela de mercado.

Nesse cenário, os ETFs temáticos poderiam desempenhar um papel catalisador se as condições macroeconômicas permitissem que emissores de setores como fintech, energia ou infraestrutura se alinhassem às narrativas que dominam o apetite global. No entanto, sua eficácia dependerá da capacidade das empresas unicórnio de articular uma proposta de valor clara, com fundamentos financeiros sólidos e projeção estratégica em setores alinhados com o investimento estrutural.

Fergal McAleavey, sócio da EY, resume assim o ponto crítico desta conjuntura: “As empresas devem garantir a manutenção da flexibilidade estratégica, contar uma história clara sobre o seu negócio e garantir que os seus alicerces sejam sólidos”.