Crise no Oriente Médio provoca corrida global por cargas de petróleo bruto

Enquanto o cenário continua incerto diante do frágil cessar-fogo no Irã, traders e refinarias buscam mercados cada vez mais distantes; cargas chegam a ser negociadas acima de US$ 140 o barril

Petróleo
Por Yongchang Chin - Lucia Kassai - Bill Lehane - Grant Smith
12 de Abril, 2026 | 10:47 AM

Bloomberg — Enquanto os investidores tinham os olhos voltados para o frágil cessar-fogo iraniano na semana passada, uma disputa desesperada por cargas se instaurou no mercado de petróleo, com traders e refinarias vasculhando o globo em busca de suprimentos disponíveis de forma imediata.

No Mar do Norte — o mais importante mercado físico de petróleo bruto do mundo —, traders fizeram 40 ofertas de compra de cargas na semana passada, e apenas quatro encontraram contrapartes dispostas a vender.

PUBLICIDADE

Cargas para entrega nas próximas semanas foram negociadas a preços sem precedentes, acima de US$ 140 o barril.


Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.


Em outros mercados, refinarias buscaram fornecimentos em regiões cada vez mais distantes, o que resultou em uma série de negociações atípicas e prêmios em alta para qualquer petróleo disponível para embarque imediato.

PUBLICIDADE

Traders afirmaram que os movimentos de pânico nos principais mercados físicos de petróleo do mundo revelam a dimensão do déficit de petróleo bruto que deve se agravar à medida que a perda de suprimentos do Oriente Médio deixa uma lacuna crescente.

Leia também: Negociações entre EUA e Irã terminam sem acordo e colocam cessar-fogo em risco

A disparada dos preços sinaliza que algumas refinarias europeias provavelmente terão de seguir o exemplo das asiáticas e reduzir a produção — um movimento que pode ajudar a equilibrar o mercado de petróleo bruto, mas que aprofundaria o déficit em produtos essenciais como diesel e combustível de aviação.

PUBLICIDADE

“Há simplesmente uma escassez de petróleo bruto”, disse Neil Crosby, chefe de pesquisa da Sparta Commodities AS. “O Brent físico está em caos e já subiu longe demais. Nesse ritmo, até as refinarias europeias terão de reduzir a utilização, talvez já no próximo mês.”

Futuro do cessar-fogo incerto

A agitação no mercado físico de petróleo contrasta com o mercado futuro, onde o petróleo para entrega em junho caiu 13% na semana passada, fechando em cerca de US$ 95 o barril, em meio ao otimismo com o cessar-fogo.

Houve alguns sinais iniciais de maior movimentação no Estreito de Hormuz no fim de semana, com dois superpetroleiros chineses e um grego atravessando a via marítima — mas o tráfego ainda permanece bem abaixo dos níveis anteriores à guerra.

PUBLICIDADE

O petróleo bruto proveniente do Golfo leva semanas para chegar às refinarias na Ásia e na Europa.

Leia também: Goldman Sachs vê petróleo Brent acima de US$ 100 o barril se Ormuz permanecer fechado

Além disso, as negociações de paz entre os Estados Unidos e o Irã neste fim de semana não chegaram a um acordo, lançando dúvidas sobre os esforços para encerrar a guerra e retomar os embarques de energia.

“As últimas cargas que passaram pelo Estreito de Hormuz antes do conflito já chegam aos seus destinos. É aqui que os mercados negociados no papel encontram a realidade física, e a lacuna de 40 dias nos fluxos globais de energia fica plenamente exposta”, escreveu Sultan al Jaber, presidente-executivo da Abu Dhabi National Oil Co., em uma publicação no LinkedIn na quinta-feira.

Essa lacuna se reflete nos prêmios que as refinarias estão dispostas a pagar para garantir cargas de petróleo bruto disponíveis no curto prazo.

Traders de algumas refinarias asiáticas, que falaram sob condição de anonimato, disseram que não se preocupavam mais com o preço — apenas buscavam assegurar barris de petróleo onde quer que estivessem, para garantir a segurança energética.

Leia também: Do Brasil ao Chile: petróleo pressiona inflação e expõe fragilidades na América Latina

O Dated Brent — o principal benchmark do mercado físico de petróleo, usado para precificar milhões de barris por dia — atingiu um recorde de US$ 144 o barril antes do cessar-fogo, superando as máximas de 2008, mesmo com os contratos futuros ainda bem abaixo dos recordes históricos.

Na sexta-feira, o preço havia recuado para US$ 126 o barril, ainda mais de US$ 30 acima dos futuros do Brent com entrega em junho. Traders como a Trafigura Group e a Gunvor Group faziam ofertas de compra com prêmios superiores a US$ 22 o barril acima do Dated Brent para cargas no Mar do Norte com entrega no final de abril e início de maio.

Suprimentos da Nigéria para carregamento no próximo mês foram ofertados a até US$ 25 por barril acima do benchmark — contra menos de US$ 3 antes do início da guerra com o Irã.

Petróleo dos EUA, do Canadá e da Venezuela

Os países asiáticos, os mais dependentes do Estreito de Hormuz para o fornecimento de petróleo bruto, já ultrapassaram suas fontes tradicionais e vasculham o globo em busca de barris.

As refinarias japonesas lideraram a corrida pela compra de petróleo dos Estados Unidos, que exporta em volumes recordes.

Uma onda de compras por parte de refinarias chinesas elevou os embarques de petróleo a partir de Vancouver, no Canadá, a um recorde histórico neste mês.

As refinarias indianas, por sua vez, aceleraram as aquisições provenientes da Venezuela. Na primeira semana de abril, navios-tanque carregaram quase 6 milhões de barris para o país sul-asiático — o dobro do volume registrado no mesmo período em março.

O foco está nos barris disponíveis o quanto antes, e as refinarias estão dispostas a pagar caro pela rapidez.

Refinarias japonesas contrataram navios menores do que o habitual para suas compras de petróleo americano, a fim de atravessar o Canal do Panamá e chegar ao Japão mais rapidamente.

No sábado, o presidente Donald Trump publicou nas redes sociais sobre os “números massivos” de navios-tanque rumo aos Estados Undidos para carregar seu petróleo.

O Midland WTI em Houston, conhecido como MEH, subiu a um prêmio de quase US$ 4 o barril em relação ao benchmark americano — aproximadamente quatro vezes o nível anterior à guerra.

Traders disseram que o prêmio refletia o valor do tempo correspondente ao trajeto de cerca de cinco dias até Houston.

Risco de desabastecimento

A enorme diferença entre o preço do petróleo físico e o dos futuros é, em parte, reflexo dessa mesma dinâmica: os barris valem um prêmio substancial quanto mais cedo podem ser entregues — condição de mercado conhecida como backwardation.

Petróleo

O nível extremo dos prêmios para o petróleo bruto com entrega imediata pressiona fortemente o mercado, segundo traders e analistas.

Refinarias menores enfrentam necessidades de financiamento muito maiores em razão dos preços elevados, além do desafio de fazer hedge em um mercado no qual o petróleo bruto físico que compram é muito mais caro do que os derivativos mais líquidos a ele vinculados.

“É uma dor de cabeça enorme para a gestão de risco de preços — no papel as margens são fantásticas, mas os fluxos de caixa reais de comprar uma carga e decidir refiná-la podem ser bem diferentes”, afirmou Roberto Ulivieri, consultor da Midhurst Downstream e ex-economista de refino da Saudi Aramco.

Como resultado, algumas refinarias começam a se retirar do mercado — e a consequência será uma redução na produção, o que aperta ainda mais o mercado de derivados.

Leia também: Nova CEO da BP assume com desafio de simplificar operação e recuperar valor da empresa

Os preços do combustível de aviação e do diesel já dispararam para recordes ou próximo deles, acima de US$ 200 o barril.

No politicamente sensível mercado de gasolina americano, os estoques caíram ao menor nível em quase 16 anos, segundo a Agência de Informações de Energia (EIA, na sigla em inglês).

E, à medida que os compradores de petróleo convergem para os Estados Unidos, analistas alertam que o déficit logo será sentido no próprio país.

“Os mercados físicos não se orientam pelas redes sociais. Ao contrário, têm se fortalecido sem parar, à medida que os efeitos das interrupções se espalharam da Ásia para a bacia do Atlântico”, disse Amrita Sen, cofundadora da consultoria Energy Aspects.

“Se os futuros não se aproximarem das realidades físicas, as exportações americanas podem facilmente se manter elevadas — sujeitas à disponibilidade de navios — ao ponto de não restar petróleo bruto suficiente para as refinarias dos próprios Estados Unidos.”

-- Com a colaboração de Mia Gindis, Rachel Graham, Alex Longley, Archie Hunter, Christopher Charleston, Robert Tuttle e Charles Gorrivan.

Veja mais em Bloomberg.com

Leia também

Constellation vê guerra no Irã impulsionar perfuração na América do Sul, segundo o CEO