Cessar-fogo entre EUA e Irã traz certo alívio aos mercados. Mas riscos persistem

Acordo que pausa duas semanas no conflito reduz risco extremo, mas incertezas sobre Ormuz, inflação e oferta de energia mantêm volatilidade nos mercados

Stocks Join Bonds Higher As Fed-Hike Wagers Fade
09 de Abril, 2026 | 10:53 AM

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Bloomberg Línea — A trégua de duas semanas entre os Estados Unidos e o Irã aliviou o pior cenário de risco extremo que os mercados antecipavam há poucos dias, mas não restabeleceu as condições anteriores ao conflito.

Para os investidores, isso significa operar em um ambiente ainda volátil, o que influencia as decisões de alocação de portfólio.

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O cenário envolve incertezas sobre a reabertura do Estreito de Ormuz, a queda do preço do petróleo e a recuperação dos ativos de risco, embora a normalização efetiva dos sistemas energético, financeiro e geopolítico ainda esteja longe de ocorrer.

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O acordo, fechado no último minuto do prazo estabelecido por Donald Trump, cria uma pausa operacional sem resolver os aspectos estruturais do conflito.

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Por isso, Charu Chanana, analista do Saxo Bank, alerta que “isso é uma pausa, não um recomeço completo; portanto, o alívio tático pode continuar no curto prazo, mas os riscos estruturais ligados ao petróleo, à inflação e à geopolítica não desapareceram”.

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Para os investidores, o ponto-chave não é a recuperação imediata, mas avaliar até que ponto esse movimento se apoia em fundamentos sustentáveis ou reflete apenas o desmonte de posições de proteção diante de um cenário extremo que não se concretizou.

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Traders work on the floor of the American Stock Exchange (AMEX) at the New York Stock Exchange (NYSE) in New York, US, on Monday, March 23, 2026. US stocks rallied on Monday after President Donald Trump ordered the Pentagon to hold off on military strikes against Iranian energy infrastructure, spurring a retreat in oil prices. Photographer: Michael Nagle/Bloomberg

Energia, logística e o descompasso com a realidade

A recuperação do preço do petróleo após a trégua contrasta com a situação operacional no terreno.

A interrupção no abastecimento energético causada pelo conflito retirou entre 11 e 15 milhões de barris por dia do mercado, e sua recomposição depende mais de fatores logísticos do que produtivos.

A Wood Mackenzie estima que esses 11 milhões de barris por dia só poderão ser restabelecidos com a normalização das rotas de exportação.

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A própria consultoria destaca que “a logística de transporte pelo Estreito de Ormuz restringirá a recuperação por várias semanas”, em um contexto em que o tráfego ainda depende de seguros, financiamento comercial e garantias de segurança.

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O gargalo é imediato. Apenas cinco navios por dia atravessaram o estreito, frente aos 150 habituais antes do conflito, enquanto cerca de 2.000 embarcações permanecem bloqueadas. Além disso, a retomada da produção não é linear.

O Iraque pode levar de seis a nove meses para retornar aos níveis anteriores, enquanto o complexo de gás natural liquefeito de Ras Laffan, no Catar, pode não recuperar sua capacidade total até o fim de agosto.

A própria dinâmica de recuperação traz riscos adicionais. Segundo a Wood Mackenzie, uma retomada acelerada pode causar danos permanentes aos campos, já que “operadores, ao tentar restaurar a produção rapidamente, correm o risco de comprometer os ativos no longo prazo”.

Esse descompasso entre preço e realidade física é central para a análise de mercado.

A Arkevium, uma empresa independente de análise, alerta que “a recuperação total da produção e da refinação pode levar de 3 a 6 meses, mesmo no melhor cenário”, enquanto o petróleo ainda é negociado bem acima dos níveis pré-conflito, com o Brent distante dos US$ 73 registrados antes da guerra.

Para a Arkevium, a queda nos preços reflete “um ajuste emocional ao risco extremo que ignora as restrições físicas de oferta”. Já os analistas da Bloomberg Intelligence, Salih Yilmaz e Will Hares, avaliam que “deve surgir um novo piso mais elevado para o petróleo, provavelmente acima de US$ 80 por barril”.

Oil Facilities at Keihin Industrial Zone

Cicatrizes

O alívio imediato reduz o risco de um choque energético mais severo, mas não elimina seus efeitos macroeconômicos.

Neil Shearing, economista-chefe da Capital Economics, projeta um cenário-base em que o petróleo se estabiliza sem retornar aos níveis anteriores, mantendo-se em torno de US$ 80 por barril. Nesse caso, “a inflação geral deve subir para cerca de 3% a 4% ao ano nos Estados Unidos e na Europa”.

Esse quadro implica uma desaceleração moderada do crescimento global.

Embora o impacto fora da região seja limitado, nas economias diretamente afetadas o PIB pode encolher cerca de 10%, com efeitos duradouros sobre a infraestrutura energética e as cadeias de abastecimento.

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A inflação permanece o principal canal de transmissão. Mesmo com a reabertura do Estreito de Ormuz, os custos de transporte, seguros e logística seguem elevados, prolongando a pressão sobre os preços. Chanana alerta que “o pânico pode desaparecer mais rápido do que as cicatrizes”, indicando que os efeitos inflacionários podem persistir após a queda inicial do petróleo.

Nesse contexto, a política monetária entra em uma fase mais complexa. O mercado volta a precificar cortes de juros, mas com menor convicção. Segundo o Saxo Bank, “os mercados podem retomar a expectativa de cortes, mas é improvável que isso compense totalmente o choque recente”.

Chris Turner, do ING, observa que bancos centrais podem adotar um tom mais duro diante do risco de uma segunda onda inflacionária, citando o caso do Banco Central da Nova Zelândia, que já considera aumentos preventivos após revisar sua projeção de inflação para 4,2%.

O resultado é uma curva de juros que não retorna ao ponto inicial. O cenário deixa de ser apenas de “juros mais altos por mais tempo” e passa a um ambiente em que cortes continuam possíveis, mas mais lentos e condicionados.

Moedas, metais e rotação setorial

O dólar passou a recuar após o anúncio do cessar-fogo, refletindo a desmontagem de posições defensivas. Derek Halpenny, chefe de pesquisa do MUFG, afirma que a trégua temporária “é claramente negativa para o dólar”, positiva para ativos de risco e “potencialmente favorável ao crescimento global”.

Ainda assim, essa correção não implica reversão completa. Turner ressalta que “há incerteza demais para esperar uma reversão total das tendências observadas em março”, com possibilidade de o índice DXY caminhar para 98,50, mas sem rompimento claro de níveis inferiores.

Ao mesmo tempo, os metais preciosos refletem a interação entre juros, dólar e risco geopolítico. Ole Hansen, do Saxo Bank, afirma que a queda anterior do ouro foi causada por fatores macroeconômicos ligados a “liquidação e alta dos rendimentos, e não por uma queda na demanda por proteção”.

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Após a trégua, o ouro subiu 2%, para US$ 4.805, e a prata, 6%, impulsionados pela queda dos rendimentos e pela fraqueza do dólar. Hansen observa que “os metais preciosos estão presos entre a redução do temor inflacionário e a demanda contínua por proteção”, o que sugere suporte estrutural, mas menor impulso.

O UBS projeta que o ouro pode atingir cerca de US$ 5.500 por onça nos próximos 6 a 12 meses, indicando potencial de valorização. “Continuamos a acreditar que os investidores devem permanecer no mercado, apesar da incerteza no curto prazo”, afirmou Mark Haefele, diretor de investimentos do banco.

Segundo ele, investidores podem substituir “parte da exposição direta a ações por estratégias de preservação de capital e aumentar a exposição ao ouro e a um amplo conjunto de commodities como proteção”.

No plano setorial, a rotação é evidente. Chanana aponta companhias aéreas, consumo discricionário, tecnologia e ativos cíclicos como beneficiários da queda do petróleo e da melhora do sentimento. Em contrapartida, energia e setores defensivos perdem atratividade relativa.

A one-kilogram gold bar arranged at the Perth Mint Refinery, operated by Gold Corp., in Perth, Australia, on Thursday, Feb. 5, 2026. The reversal came as the stock market was whipsawed by volatility, Bitcoin tumbled and what had been a steep run-up in gold and silver prices abruptly reversed, all of which drove investors into the safety of US Treasuries. Photographer: Matt Jelonek/Bloomberg

O impacto do choque energético, porém, vai além do petróleo. Dados do Morgan Stanley indicam que insumos como GLP, petroquímicos, alumínio, fertilizantes e GNL — com até 45% de dependência do tráfego pelo Golfo — afetam cadeias produtivas essenciais, da agricultura aos semicondutores e à construção civil.

Isso significa que a normalização será desigual. A recuperação de setores intensivos em energia e químicos dependerá mais da retomada logística do que do preço do petróleo.

Estratégia de investimento

O cenário atual exige distinguir oportunidades táticas de riscos estruturais. No curto prazo, a redução do risco extremo favorece ativos cíclicos, moedas de maior beta e exposição ao crescimento. Turner estima que essas moedas possam se valorizar até 2% em relação aos mínimos recentes, enquanto ativos de risco mantêm o impulso.

No entanto, a base estrutural segue pressionada. A Arkevium afirma que “o cessar-fogo é um reconhecimento mútuo da insustentabilidade, não um caminho para a paz”, em um contexto em que o controle do Estreito de Ormuz representa uma mudança duradoura na geopolítica energética.

O mesmo relatório alerta que o mercado pode estar subestimando o risco, ao interpretar a queda do petróleo como normalização, enquanto persistem restrições físicas, prêmios de seguro até oito vezes maiores e limitações no transporte.

Nesse cenário, o posicionamento torna-se mais seletivo. A empresa mantém visão neutra com viés de alta para o petróleo, favorece ativos reais e setores defensivos e reduz exposição aos mercados do Golfo, onde os danos estruturais podem não estar totalmente precificados.

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A estratégia de longo prazo converge para a diversificação. Hansen destaca que “a demanda dos bancos centrais e a incerteza geopolítica continuam sustentando o ouro”, enquanto Chanana defende equilibrar exposição ao crescimento com ativos ligados à segurança energética e à resiliência das cadeias de abastecimento.

O desfecho permanece em aberto. A sustentação do cessar-fogo, a reabertura efetiva do Estreito de Ormuz, a trajetória da inflação e a resposta dos bancos centrais determinarão se a recuperação atual se consolida ou reverte. Como resume Halpenny, “os mercados seguirão altamente sensíveis às notícias sobre as negociações”, exigindo postura ativa dos investidores.