Brasil tem juro real mais alto do mundo, acima de Rússia, Turquia e México

Levantamento da Lev Intelligence aponta que quatro países da América Latina estão entre os 10 com as taxas de juros reais mais altas, liderados pelo Brasil; inflação exige cautela de bancos centrais na região

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Bloomberg Línea — Brasil, México, Colômbia e Chile continuam no grupo de países com as maiores taxas de juros reais — ajustadas pela inflação — do mundo, de acordo com relatório da Lev Intelligence.

As autoridades monetárias da região optaram por uma postura mais conservadora diante dos novos surtos inflacionários gerados pela guerra no Oriente Médio e do aumento da incerteza internacional.

“A maioria dos países latino-americanos teve que adotar posturas mais conservadoras em matéria de taxas de juros”, disse à Bloomberg Línea Jason Vieira, economista-chefe da Lev Intelligence. “E devido a todos os acontecimentos bélicos mais recentes, acabaram preservando as taxas reais e nominais.”

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As elevadas taxas de juros na América Latina refletiriam a cautela dos bancos centrais diante de uma inflação que segue pressionada em componentes como serviços, apesar da desaceleração observada em alguns indicadores.

“O problema é que temos uma inflação geral muito concentrada em energia, e os índices de núcleo continuam bastante pressionados no setor de serviços”, apontou Vieira.

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Segundo a análise do economista, a força dos mercados de trabalho em vários países da região também limitou o efeito da política monetária, obrigando as autoridades a manter os juros em níveis elevados por mais tempo.

“No fundo, o tema é a inflação. Esses países precisam manter taxas nominais relativamente altas devido a níveis persistentes de inflação ou, em alguns casos, a expectativas de inflação que permanecem acima das metas de seus bancos centrais.

Como resultado, mesmo descontando a inflação, as taxas de juros reais continuam elevadas”, disse à Bloomberg Línea o analista financeiro Gregorio Gandini.

Países com maiores taxas de juros reais no mundo

PosiçãoPaísTaxa real ex ante
1Brasil9,36%
2Rússia9,31%
3Turquia5,57%
4México5,10%
5África do Sul3,74%
6Indonésia3,31%
7Colômbia3,17%
8Hungria3,02%
9Polônia2,61%
10Chile2,43%

O Brasil voltou a liderar o ranking mundial de maiores taxas reais, superando Rússia, Turquia, México e África do Sul. A taxa de juros atual ajustada pela inflação projetada para os próximos 12 meses no país é de 9,36%.

O México ocupa a quarta posição global, com taxa de 5,10%, enquanto a Colômbia aparece em sétimo, com 3,17%. O Chile é o décimo colocado, com 2,43% — acima de mercados como República Tcheca (2,20%), Índia (2,19%) e Austrália (1,71%).

Em termos nominais, o Brasil se mantém em quarto lugar (14,25%), abaixo apenas de Turquia (37%), Argentina (29%) e Rússia (14,50%), e acima de Colômbia (11,25%), África do Sul (7%) e México (6,50%).

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O relatório indica que as perspectivas de inflação para os próximos 12 meses foram revisadas majoritariamente para cima nos países do ranking, “o que gerou uma série significativa de taxas de juros reais mais baixas e negativas, em meio a um cenário adverso e ainda incerto devido ao conflito no Oriente Médio”.

No balanço geral, de um total de 164 países, 72,56% mantiveram as taxas de juros estáveis, 21,34% as elevaram e 6,10% as reduziram. Entre os 40 países do ranking específico, 62,50% mantiveram as taxas, 27,50% as elevaram e 10% as reduziram, segundo a Lev Intelligence.

Consequências dos juros elevados

Vieira afirma que, embora as altas taxas nominais busquem moderar a atividade econômica e conter a inflação, elas também têm efeitos sobre o crédito e o investimento. Enquanto favorecem aplicações financeiras — especialmente em renda fixa —, tendem a restringir o investimento produtivo ao elevar o custo do financiamento.

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Na avaliação do economista, a presença de países latino-americanos entre os de maiores taxas reais do mundo não responde exclusivamente a uma dinâmica regional, mas reflete fatores macroeconômicos particulares em cada mercado.

O atrativo dos mercados emergentes para investidores internacionais se enfraqueceu nos últimos meses, segundo o economista-chefe da Lev Intelligence.

No início do ano, as altas taxas de juros e as valorizações relativamente baixas das bolsas favoreciam estratégias de carry trade, mas o aumento das oportunidades de investimento nos Estados Unidos e a rotação global de capitais reduziram o fluxo em direção a essas economias.

“O ponto é que, com as ofertas públicas iniciais (IPOs) nos EUA, a mudança na rotação de setores e as transformações em alguns segmentos no exterior, os mercados emergentes em geral começam a perder atratividade — não só o Brasil”, disse.

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Como resultado, vários mercados emergentes enfrentaram pressões cambiais e saídas de capital de curto prazo, em um contexto de fortalecimento do dólar e maior preferência dos investidores por ativos de economias desenvolvidas.

No último dia de reunião, o Federal Reserve manteve inalterada a taxa de juros no intervalo de 3,50% a 3,75%, em linha com as expectativas do mercado. A decisão foi aprovada por unanimidade, com placar de 12 a 0, e o Comitê reafirmou seu compromisso com o cumprimento do mandato dual de emprego e estabilidade de preços.

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Segundo análise da SURA Investments, a decisão reforça a visão de um Fed ainda cauteloso, “em um contexto em que a economia americana mantém sinais de resiliência, mas a inflação segue acima da meta”.

“Embora a manutenção das taxas tenha ficado em linha com o esperado, o tom do comunicado não oferece sinais claros de uma guinada para uma postura mais expansiva”, explicaram os analistas da SURA.

Nesse contexto, a gestora mantém preferência pela renda variável em relação à renda fixa, posição neutra em duration e visão favorável ao crédito corporativo frente aos títulos do Tesouro americano, privilegiando instrumentos com maior carrego.

Na renda variável, Ásia ex-Japão e Estados Unidos “continuam sendo nossas regiões de maior convicção, enquanto mantemos uma postura menos favorável em relação à Europa, onde os principais indicadores macroeconômicos e de mercado seguem apontando para um cenário de maior fraqueza”.

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