Bloomberg Línea — A guerra entre Irã, Estados Unidos e Israel freou a tendência de diversificação global que impulsionou o mercado brasileiro no início do ano. A expectativa de gestores locais, no entanto, é que a turbulência seja passageira e que não afete a atratividade da bolsa local a médio prazo.
Os dois primeiros meses de 2026 foram marcados por uma fraqueza global do dólar e pela busca por investimentos fora dos Estados Unidos – uma mudança relevante de tendência após mais de uma década de protagonismo das bolsas americanas nas carteiras globais.
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A guerra porém, deixou os investidores mais cautelosos a partir de março, e diminuiu o fluxo de capital para mercados emergentes. Ainda assim, o impacto não deve comprometer as perspectivas de médio prazo, segundo Rodrigo Santoro, diretor de ações da Bradesco Asset.
“O fluxo de capital estrangeiro para o Brasil no ano está em torno de R$ 50 bilhões. E uma vez que a guerra termine, devemos voltar a ter esse fluxo vindo da diversificação [global para mercados emergentes]”, afirmou Santoro em painel durante o Brazil Investment Forum, realizado pelo Bradesco BBI nesta terça-feira (7).
O gestor participou do painel ao lado de André Lion, sócio e diretor de portfólio da Ibiuna Investimentos, Sara Delfim, sócia da Dahlia Capital, e André Caldas, sócio e diretor de portfólio de ações da Springs Capital.
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Delfim destacou que, apesar das turbulências recentes, o Ibovespa entregou cerca do dobro de retorno do CDI nos últimos três anos – um desempenho que pode ser ainda melhor a depender das condições macroeconômicas.
“Apesar de toda a alta recente, a gente ainda acha o valuation da bolsa atrativo, especialmente porque o lucro das empresas também subiu. Não é verdade para a bolsa como um todo, mas tem muito setor e muita empresa entregando bons resultados, bons dividendos”, afirmou.
O valuation atrativo por si só não seria motivo suficiente para apostar em uma alta, não fosse o contexto macroeconômico favorável, que une a tendência global de diversificação e dólar enfraquecido com a perspectiva de queda de juros no Brasil.
O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) decidiu reduzir a taxa básica de juros da economia em 0,25 ponto percentual em sua última reunião, em março deste ano. A Selic caiu de 15% para 14,75% ao ano, em seu primeiro corte em quase dois anos.
“Os estrangeiros compram agressivamente [quando ocorre] o corte. E o Brasil ainda não recebeu ainda esse fluxo de capital, porque o Copom acabou de começar um ciclo de redução de juros em paralelo com uma aversão a risco global”, pontuou André Caldas, da Sprint Capital.
O gestor projeta que a taxa de juros deve ficar na faixa entre 11% e 12% nos próximos 12 a 18 meses – um patamar ainda elevado, mas que será mais atrativo para o investidor.
O maior risco para o cenário é a possibilidade de um conflito prolongado no Oriente Médio que eleve a inflação e coloque uma possível recessão global no radar.
Não é, porém, o cenário-base. “No momento em que o Irã começa a participar das discussões isso demonstra que a guerra não vai durar três ou seis meses”, disse Caldas.
André Lion, da Ibiuna Investimentos, reforçou que os rumos da guerra estão completamente abertos e que, apesar das boas perspectivas para a bolsa, não é possível retomar integralmente o cenário anterior ao conflito.
“Nós já aumentamos o investimento no setor de energia como um todo. Não se pode manter a cabeça de janeiro achando que é tudo igual: aquele cenário não existe mais”, afirmou.
Para uma retomada consistente da renda variável no Brasil, outro fator será determinante: a volta do investidor local. Mais conservador, esse perfil de investidor ficou majoritariamente de fora da alta ocorrida nos primeiros meses deste ano.
Lion projeta que o fluxo de retomada para o restante de 2026 deve continuar ancorado no investidor estrangeiro, que vê o mercado local como uma alocação de oportunidade. Para que o investidor doméstico retorne, ainda é preciso que os juros recuem com maior consistência.
“A partir do momento que a gente entrar em um ciclo real de afrouxamento monetário, o investidor vai ficar incomodado em perder o retorno de 1% ao mês [na renda fixa]. Precisamos de uma clareza maior, de um ciclo de cortes mais prolongado. Não apenas um ciclo de calibração de política monetária”.
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