BC pode ampliar corte no 2º trimestre se guerra acabar, diz JPMorgan

Uma redução das tensões retiraria ‘boa parte’ do prêmio de risco geopolítico do petróleo e do real, disse Marina Valentini, estrategista de mercado global na JPMorgan Asset Management à Bloomberg News

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Bloomberg — Uma possível desescalada do conflito entre Irã e EUA em um futuro próximo poderia reabrir espaço para o Banco Central discutir um ritmo de corte de 0,50 ponto percentual na taxa Selic.

A avaliação é de Marina Valentini, estrategista de mercado global na JPMorgan Asset Management. Uma redução das tensões retiraria “boa parte” do prêmio de risco geopolítico do petróleo e do real, segundo ela.

“Assumindo que as incertezas em torno do conflito se dissipem e que os efeitos secundários sobre a inflação brasileira se mostrem contidos ao longo dos próximos meses, o Banco Central poderia retomar o ritmo de corte de 50 pontos-base já no segundo trimestre deste ano”, disse Marina em entrevista à Bloomberg News.

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Os temores de uma inflação disseminada diante do choque de oferta de petróleo e das incertezas sobre a duração da guerra têm gerado forte volatilidade nos mercados internacionais.

Em sua última decisão, o Banco Central iniciou o ciclo de flexibilização monetária cortando a Selic em 0,25 ponto percentual, para 14,75% ao ano, e citando na ata da reunião “forte aumento da incerteza” e necessidade de cautela.

O fim da guerra e um possível alívio nos preços do petróleo — que já registra alta de mais de 30% desde o início do conflito — começou a ser aventado nos últimos dias, com o noticiário sobre negociações entre os EUA e o Irã. As notícias chegaram a trazer momentos pontuais de alívio, mas sem sustentação.

Na semana passada, o Irã rejeitou uma proposta de Washington para encerrar a guerra, e agora, com a chegada de tropas americanas ao Oriente Médio e a entrada de militantes Houthis do Iêmen no conflito, se eleva o risco de interrupções prolongadas na oferta de energia.

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O petróleo voltou a subir com força nesta segunda-feira (30), com o Brent acima dos US$ 116 o barril, a caminho de um ganho mensal recorde. Analistas já traçam cenários mais extremos, com preços podendo chegar a US$ 200 o barril caso o conflito se estenda.

A aversão ao risco tem pressionado os contratos de juros futuros no Brasil, levando os investidores a reverem apostas de cortes mais agressivos da taxa básica. A curva de DI precificava um corte de 0,25pp, ante 0,50pp antes da guerra.

Em um cenário de desescalada, o mercado provavelmente voltaria rapidamente a precificar cortes de juros, “mas com um piso de Selic para o fim deste ano um pouco mais elevado do que o projetado antes do conflito”, segundo ela. “O mercado pode precisar de algum tempo para recalibrar totalmente as apostas”.

Reajuste

Caso haja algum tipo de acordo ou negociação estruturada dos EUA com o Irã, o mercado global passará a focar na rapidez da recuperação dos fluxos de petróleo e no retorno das operações de produção da commodity após os danos à infraestrutura, diz Marina.

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Haveria “algum alívio” nos yields no curto prazo, à medida que o mercado reajusta as expectativas de alta de juros para bancos centrais ao redor do mundo, sobretudo na Europa e no Reino Unido, segundo ela. Ações de mercados emergentes e na Europa poderiam ter recuperação.

“Embora os preços do petróleo provavelmente caiam com qualquer anúncio de cessar-fogo, é improvável que retornem imediatamente aos níveis pré-conflito. Processar as disrupções de oferta levará tempo, e devemos esperar volatilidade contínua nos próximos meses,” disse ela.

No médio prazo, o mercado deve voltar ao roteiro pré-guerra, uma vez que os investidores ganhem confiança na normalização da oferta de energia.

“Os investidores globais ainda não mudaram a postura. Ainda veem valor nos mercados emergentes e ainda estão posicionados para isso”, disse.

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