Bloomberg — Os bancos que têm clientes expostos ao ciclo do super El Niño que se forma no Oceano Pacífico começaram a avaliar as estruturas dos empréstimos e os riscos de perdas, e o reescalonamento da dívida está entre as opções em consideração.
O Banco Bilbao Vizcaya Argentaria (BBVA) da Espanha, que além de sua presença na Península Ibérica também possui uma base significativa de clientes no Peru, na Argentina e na Colômbia, solicitou às equipes locais de risco que realizassem análises das carteiras de crédito, uma vez que o El Niño, aliado ao aquecimento global, representa um conjunto único de ameaças.
Medidas que podem ser consideradas pelo banco para seus clientes mais vulneráveis incluem o reescalonamento da dívida, afirmou o BBVA em uma análise compartilhada com a Bloomberg News. “Os dados que estamos gerando atualmente apoiam esse processo de gestão”, afirmou.
Assim que o BBVA se sentir seguro com sua análise, compartilhará as informações com os clientes como parte de seu processo de assessoria, afirmou.
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O fenômeno climático associado ao aquecimento no Oceano Pacífico equatorial já está agravando secas e inundações que prejudicam as safras. A Organização Meteorológica Mundial afirma que a África Austral e o Sudeste Asiático enfrentam riscos elevados, enquanto partes da América Latina estão vulneráveis tanto à seca quanto às inundações.
As preocupações entre os bancos surgem após alertas de gestores de recursos de que a intensidade do atual ciclo do El Niño não deixará aos investidores nenhum refúgio, já que o fenômeno climático perturba o abastecimento de commodities, impulsiona a inflação e amplia os déficits comerciais.
Os bancos sediados na União Europeia estão sob pressão regulatória específica para relatar tais riscos devido à evolução dos requisitos de divulgação previstos nas chamadas regras do Pilar 3 da UE, afirmou Grace Osborne, analista de finanças sustentáveis da Bloomberg Intelligence. Ela vê um risco elevado de os bancos precisarem recorrer a “moratórias no pagamento de empréstimos agrícolas após eventos climáticos severos, dada a lacuna na proteção de seguros na agricultura europeia”.
Em uma nota divulgada na segunda-feira (2), Osborne também alertou para os riscos associados a empréstimos expostos a setores que consomem grandes quantidades de água, como parte do conjunto de cenários relacionados ao El Niño que os bancos precisam enfrentar.
O Danske Bank, por sua vez, alertou para as implicações do El Niño além das exposições a commodities. Empresas com sede fora das regiões geográficas na rota imediata do El Niño ainda podem estar em risco por meio das cadeias de abastecimento, e o Danske cita transporte marítimo e logística como exemplos de setores na mira, independentemente de sua localização.
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No JPMorgan Chase e no Citigroup, analistas publicaram pesquisas relacionando o El Niño a riscos elevados decorrentes não apenas dos setores de agricultura, commodities e energia, mas também do impacto sobre a economia em geral.
E Sebastian Werner, chefe de elaboração de cenários de risco climático do Citi, adverte que um indicador amplamente utilizado para medir a intensidade do El Niño — o Índice Oceânico do Niño, que se concentra no Pacífico tropical central — não “captura todos os aspectos” do ciclo climático, o que aumenta a complexidade da modelagem de riscos.
Entre os bancos que já destacam tais exposições está a Credicorp, com sede em Lima, que estimou em agosto que cerca de 9% de sua carteira de empréstimos está diretamente exposta a clientes em risco devido às consequências do El Niño.
No mesmo mês, o diretor financeiro do Banco do Brasil, Marco Geovanne Tobias da Silva, afirmou que a instituição está “muito preocupada” e “acompanhando de perto os efeitos do El Niño”, durante uma teleconferência com analistas.
A Intercorp Financial Services, uma das maiores instituições financeiras do Peru, afirma já ter estabelecido cláusulas especiais de empréstimo relacionadas ao El Niño para clientes dos setores de pesca e agricultura, com uma gama de instrumentos disponíveis que inclui períodos de carência e reescalonamentos.
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No Standard Chartered, que, além de suas operações no Reino Unido, também possui exposições significativas a clientes na África, no Oriente Médio e na Ásia, os banqueiros estão sendo solicitados a realizar uma avaliação detalhada dos riscos associados ao atual ciclo do El Niño.
“Estamos monitorando de perto os possíveis impactos do El Niño”, afirmou Karen Wilkinson, diretora global de clima, sustentabilidade e risco reputacional do Standard Chartered. “Realizamos análises em nível de portfólio em nossos negócios de banco corporativo e de investimento e agora estamos incorporando isso às avaliações de risco climático em nível de cliente.”
Isso se soma ao monitoramento de riscos físicos relacionados ao El Niño, como inundações, tempestades e estresse térmico, “em principais locais operacionais e centros de dados”, afirmou ela.
A análise da BI sobre os bancos da UE indica que, além do BBVA, o CaixaBank e o Santander também possuem carteiras de empréstimos agrícolas altamente expostas a riscos físicos. Essas exposições têm o potencial de afetar a qualidade de crédito mais rapidamente do que os empréstimos imobiliários, afirmou Osborne.
Julia Lucena, gerente de risco climático do CaixaBank, afirmou que “embora as exposições sensíveis representem cerca de 60% dos empréstimos do banco para a agricultura, pecuária e pesca, o setor em si representa menos de 1% da carteira total de empréstimos do CaixaBank”, em resposta por escrito às perguntas. “Consequentemente, a exposição geral do setor a riscos físicos para o banco é considerada limitada.”
O CaixaBank afirmou que monitora sua exposição de crédito a riscos climáticos físicos em todos os setores e desenvolveu uma estrutura para avaliar como os eventos climáticos podem impactar os indicadores de risco de crédito, especialmente a possibilidade de inadimplência ou de perda em caso de inadimplência. Os empréstimos considerados sensíveis a riscos climáticos físicos têm se mantido relativamente estáveis no banco desde 2022, afirmou Lucena.
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O Santander avalia os riscos climáticos sob diferentes cenários e horizontes temporais, incluindo avaliações de impacto específicas quando ocorrem eventos significativos, afirmou um porta-voz do banco por e-mail. O Santander possui € 1,7 bilhão em empréstimos para agricultura, silvicultura e pesca expostos a riscos físicos, o que equivale a 56% dessa carteira.
“Nosso foco atual está na antecipação, na preparação e na capacidade de resposta”, afirmou o Santander. O banco também possui mecanismos específicos de monitoramento e alerta precoce, incluindo boletins meteorológicos semanais e atualizações mensais sobre o El Niño, informou.
“Isso ajuda as equipes relevantes a identificar áreas potencialmente afetadas e avaliar a exposição em todas as carteiras e clientes”, afirmou o Santander. O banco possui “procedimentos de contingência e coordenação que podem ser acionados” conforme necessário, acrescentou.
O BBVA afirmou que espera monitorar as repercussões do El Niño para seus clientes de duas maneiras. O que descreve como Fase 1 envolveria análises quantitativas baseadas em dados históricos, comparando cenários climáticos neutros com os eventos de El Niño mais intensos já registrados. A Fase 2 envolve a integração de modelos meteorológicos sazonais com atualizações mensais das principais variáveis para estabelecer um sistema de alerta precoce que ajude os clientes a se prepararem para choques climáticos extremos.
“Esse tipo de aplicação nunca foi tentado antes”, afirmou o banco. “Portanto, serve como um teste e validação dos modelos para casos de uso futuros.”
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