Fifa ignora cobrança por transparência e não explica decisão sobre atacante dos EUA

Sem seguir as regras da própria entidade, Comissão Disciplinar revogou suspensão de uma partida imposta a Folarin Balogun após pressão do presidente americano, Donald Trump

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Bloomberg — Quase todo mundo já deu sua opinião sobre se o atacante norte-americano Folarin Balogun merecia ou não o cartão vermelho, com exceção da única entidade que realmente importa: a Fifa.

No domingo, a Fifa revogou a suspensão de uma partida imposta a Balogun, permitindo que ele jogasse contra a Bélgica no confronto decisivo das oitavas de final na noite de segunda-feira (6), em Seattle. A entidade ainda não explicou por que reverteu o cartão vermelho, uma decisão que não só é sem precedentes durante uma Copa do Mundo, mas também contraria suas próprias regras.

“Se você pretende administrar uma organização baseada em regras, em vez de algo autoritário”, disse Alastair Campbell, sócio da Level Law, “precisa explicar sua tomada de decisão.”

Na segunda-feira, a comissão de apelações da Fifa negou o pedido da Federação Real Belga de Futebol (RBFA) para reconsiderar a elegibilidade de Balogun para a partida, alegando que o pedido era “inadmissível” por a RBFA não ser parte ativa no processo em andamento entre a Fifa e a Federação de Futebol dos EUA. A RBFA afirmou que a decisão constitui uma violação das regras e regulamentos da Fifa.

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Balogun foi expulso em uma partida na quarta-feira após pisar com força no tornozelo direito do zagueiro de Bósnia e Herzegovina, Tarik Muharemovic. Nos dias seguintes, tanto a Federação de Futebol dos EUA quanto o presidente Donald Trump pressionaram o presidente da Fifa, Gianni Infantino, para que revertesse a decisão.

A Fifa, que há muito tempo apregoa sua suposta neutralidade política, tem enfrentado intensa pressão nos últimos dias.

Em discurso na Casa Branca na segunda-feira, Trump confirmou ter ligado para Infantino após a decisão do árbitro de suspender Balogun e afirmou acreditar que Balogun não havia cometido falta. O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, já havia solicitado um processo de apelação.

Infantino divulgou um comunicado na tarde de segunda-feira, afirmando que, embora tenha recebido uma ligação de Trump, a Comissão Disciplinar da Fifa agiu de forma independente.

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“Dadas as supostas ligações estreitas do presidente Trump com Gianni Infantino e os comentários de Marco Rubio sobre a expulsão de Balogun, essa decisão não passa uma boa imagem”, afirma Sam Kasoulis, associado da Morgan Sports Law, “e teria sido melhor para todos se a Fifativesse divulgado os motivos por trás de sua decisão de forma clara e transparente.”

Se Balogun cometeu falta ou não é irrelevante no momento em que o árbitro sacou o cartão vermelho. De acordo com o Artigo 9, parágrafo 1, do Código Disciplinar da Fifa: “As decisões tomadas pelo árbitro em campo são definitivas e não podem ser revistas pelos órgãos judiciais da Fifa.”

Essa regra tem como objetivo impedir que a Fifa se torne um tribunal de apelação contra decisões em campo, especialmente durante um torneio de ritmo acelerado.

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Em vez disso, a Fifa recorreu a uma regra diferente. O Artigo 27 permitiu que a Fifa “suspendesse total ou parcialmente” a suspensão de Balogun por um ano, em vez de aplicá-la imediatamente. Uma decisão semelhante foi aplicada a Cristiano Ronaldo para permitir que o astro português jogasse nas primeiras partidas da Copa do Mundo após uma suspensão de três partidas.

“A Fifa, na prática, permitiu que uma regra interna se sobrepusesse a outra para beneficiar o artilheiro da seleção anfitriã”, afirmou Simon Leaf, sócio do escritório Three Points Law.

A poucas horas do início da partida, somado à falta de explicação, isso significava que a Bélgica tinha poucos argumentos para recorrer.

Qualquer recurso — que custa 1.000 francos suíços (cerca de US$ 1.200) — deve ser apresentado no prazo de três dias a partir da decisão. A Bélgica precisa apresentar “uma exposição dos fatos, provas, uma lista das testemunhas propostas (com um breve resumo de seus depoimentos previstos) e as conclusões do recorrente”, de acordo com documentos da Fifa.

“Até o momento, a RBFA ainda não recebeu nenhuma decisão nem qualquer explicação da Fifaa respeito deste assunto”, afirmou a Real Federação Belga de Futebol em comunicado na segunda-feira. “Portanto, não tem outra alternativa a não ser contestar a elegibilidade do jogador para a próxima partida.”

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Resta pouco tempo para que a RBFA encaminhe seu recurso ao Tribunal Arbitral do Esporte, órgão independente responsável pela resolução de disputas esportivas em todo o mundo. Para começar, a RBFA precisaria de uma decisão da Comissão de Apelação da Fifa para poder recorrer.

A RBFA solicitou mais informações à Fifa e afirmou que nenhuma informação foi fornecida. Em uma reviravolta confusa, a Fifa considerou esse pedido como um recurso, e a RBFA foi informada de que “um juiz havia sido nomeado e que a RBFA dispunha de apenas algumas horas para concluir esse recurso”.

A decisão também provocou comoção na Bélgica, um país conhecido por suas divisões linguísticas e por seu governo conturbado. Em todo o espectro político, os políticos se uniram em sua indignação diante da decisão da Fifa. A RBFA acrescentou que “continuará a lutar nas próximas horas, dias e meses em defesa dos princípios fundamentais da ética, da competição leal e dos interesses do futebol como um todo”.

Balogun é atualmente o segundo favorito a marcar durante a partida em Seattle, atrás do atacante belga Romelu Lukaku.

“Aceitamos a decisão da Comissão Disciplinar e estamos satisfeitos por Folarin Balogun estar apto a competir”, afirmou a Federação de Futebol dos EUA em comunicado.

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