Votação na Colômbia gera euforia no mercado, que vê 80% de chance de vitória da direita

O avanço de Abelardo de la Espriella no primeiro turno provocou uma reavaliação das expectativas entre os investidores, fortaleceu os ativos colombianos e aumentou as apostas em sua chegada à Casa de Nariño

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Bloomberg Línea — O primeiro turno das eleições presidenciais não só redefiniu o cenário político colombiano, como também provocou uma rápida revisão das expectativas entre bancos de investimento, gestores de ativos e mercados de previsão. O mercado agora vê uma probabilidade significativamente maior de uma vitória de Abelardo de la Espriella no segundo turno, em 21 de junho.

O candidato de direita obteve 43,7% dos votos, o que equivale a 10,4 milhões de votos, contra os 40,9% de Iván Cepeda, apoiado pelo governo.

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O resultado surpreendeu boa parte dos analistas internacionais, que esperavam que Cepeda ficasse em primeiro lugar ou previam uma disputa mais equilibrada no primeiro turno.

“O resultado foi uma grande surpresa para as pesquisas pré-eleitorais, que sempre colocavam Cepeda em primeiro lugar”, disse Santiago Téllez, economista da Goldman Sachs (GS).

“Embora a trajetória de De la Espriella nas pesquisas tivesse melhorado constantemente desde abril, seu apoio nunca havia ultrapassado os 36%, o que torna a margem de sua vantagem no primeiro turno uma surpresa positiva significativa”.

A reação foi imediata. Os mercados de previsão passaram a atribuir a De la Espriella uma probabilidade de cerca de 80% de se tornar o próximo presidente da Colômbia, enquanto a bolsa colombiana subiu 6,8%, o peso se valorizou cerca de COP$130 em relação ao dólar e as taxas dos TES recuaram.

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A revisão das expectativas não se deve apenas à diferença de 2,8 pontos percentuais que separou os dois candidatos.

Grande parte das análises concentra-se na forma como os votos dos candidatos eliminados foram distribuídos e nas possibilidades de expansão de cada bloco político.

O aspecto mais relevante é o desempenho de Paloma Valencia, que obteve 6,9% dos votos e declarou seu apoio a De la Espriella poucas horas após a divulgação dos resultados. Esse apoio foi compartilhado pelo ex-presidente Álvaro Uribe e por líderes de seu setor político.

O Goldman Sachs destacou que a adesão de Valência colocou “a soma dos votos dos dois candidatos de direita ligeiramente acima de 50%”, um fator que reduz o risco de uma transferência incompleta de votos entre os dois eleitorados.

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A mesma conclusão aparece em vários relatórios elaborados após a eleição.

A Bloomberg Economics afirmou que De la Espriella “provavelmente está em melhor posição do que Cepeda para atrair os quase 7% dos eleitores que ainda optaram por Valencia no primeiro turno”, enquanto a Natixis lembrou que, segundo o pesquisador César Caballero, entre 80% e 85% dos que planejavam votar em Valencia apoiariam De la Espriella em um segundo turno contra Cepeda.

A força dessa possível transferência de votos ganha importância, pois a margem de crescimento para ambos os candidatos parece mais limitada do que em eleições anteriores.

A participação eleitoral atingiu 57,9%, um nível superior ao registrado no primeiro turno de 2022, o que diminui a possibilidade de que um aumento extraordinário no número de eleitores, por si só, altere o resultado final.

Esse fator aparece de forma recorrente nos modelos elaborados pelo Citi (C).

O analista Esteban Tamayo concluiu que “a matemática eleitoral sugere que o segundo turno é, principalmente, uma disputa de mobilização, com a ADLE mantendo a vantagem mesmo que a nova participação favoreça Cepeda”.

Matemática eleitoral

O relatório do Citi é um dos mais contundentes entre os publicados após o dia das eleições. A instituição simulou diferentes cenários, combinando níveis de participação e porcentagens de transferência de votos provenientes de Valência.

O resultado foi uma vantagem consistente para De la Espriella. Segundo Tamayo, sua “simulação eleitoral sugere uma vantagem estrutural para De la Espriella, que se impõe em dezessete dos dezoito cenários simulados”.

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A única combinação favorável para Cepeda depende de vários fatores simultâneos: um aumento historicamente elevado da participação eleitoral, uma distribuição muito favorável dos novos eleitores e uma transferência significativa de votos de Valencia para De la Espriella.

A Bloomberg Economics chegou a uma conclusão semelhante, embora por um caminho diferente.

Jimena Zúñiga e Felipe Hernández argumentaram que a votação fortaleceu as perspectivas do candidato de direita, pois revelou uma consolidação do voto conservador maior do que o previsto e porque Cepeda teria alcançado um nível de apoio próximo ao esperado pelas pesquisas.

Para Zúñiga e Hernández, o desempenho de Cepeda “sugere que ele poderia atingir um teto de cerca de 40% de apoio e enfrentar dificuldades para ampliar seu apelo além de sua base atual”.

O Goldman Sachs também observou sinais favoráveis para De la Espriella nas pesquisas de opinião divulgadas nas últimas semanas.

A empresa informou que três das quatro principais institutos de pesquisa já o mostravam à frente de Cepeda em um eventual segundo turno, uma situação que contrasta com a observada em abril, quando a maioria das pesquisas apontava para o resultado contrário.

Outro fator observado pelas instituições financeiras é a capacidade de cada candidato de atrair eleitores moderados.

O Goldman destacou que Cepeda poderia enfrentar dificuldades para reter parte do eleitorado que apoiou Gustavo Petro apenas no segundo turno de 2022, enquanto De la Espriella apresenta índices de popularidade mais sólidos.

Reação dos mercados

A reação positiva dos ativos colombianos não se deve apenas a cálculos eleitorais. Ela também está ligada à percepção que os investidores têm sobre as propostas econômicas dos candidatos.

O Natixis afirmou que os preços dos ativos colombianos, incluindo o USDCOP, subiram porque refletiram o fato de que “De la Espriella, um candidato de direita favorável ao mercado, tem grandes chances de vencer a eleição”.

A entidade destacou pontos-chave de seu programa econômico, como a inclusão de José Manuel Restrepo na chapa vice-presidencial, uma proposta de ajuste fiscal de COP$ 70 bilhões, a redução do tamanho do Estado e a eliminação de alguns impostos.

Ashmore também observou que o programa de De la Espriella mantém uma orientação favorável aos mercados, com uma consolidação fiscal próxima a 3% do PIB em quatro anos, abertura ao investimento em petróleo e gás, apoio ao setor da construção civil e uma postura receptiva em relação ao Fundo Monetário Internacional.

No entanto, a empresa fez uma observação importante. “Ambos os candidatos ao segundo turno apresentam agora um programa mais ortodoxo do que o tom polarizado da campanha sugere”, afirmou a consultoria em um comunicado. Até mesmo a equipe de Cepeda está avaliando medidas de ajuste e perfis para o Ministério da Fazenda que o mercado considera mais ortodoxos, em comparação com a atual equipe econômica do governo de Gustavo Petro.

Esse ponto ajuda a explicar por que algumas entidades mantêm uma postura cautelosa, apesar do otimismo inicial.

A SURA Investments destacou que o risco político continua presente e alertou que não espera uma transição particularmente tranquila entre o atual governo e uma eventual nova administração, um fator que poderia gerar episódios de volatilidade nos próximos meses.

A evolução da campanha nas próximas três semanas continuará a ser o foco da atenção dos investidores. Os analistas estão observando especialmente o comportamento do eleitorado de centro, a capacidade de mobilização de cada campanha, a transferência efetiva de apoios de Valência e a reação dos mercados a novos acontecimentos políticos.