Bloomberg — O modelo econômico da Áustria sempre teve como pilar a água dos Alpes que passa por turbinas para gerar energia para residências e empresas. Mas, à medida que as mudanças climáticas redesenham o mapa hidrológico do país, ele enfrenta uma transformação estrutural — e as tensões geopolíticas intensificaram a sensação de urgência.
Cientistas alertam que o país se aproxima de um ponto de inflexão conhecido como “pico hídrico”: com o recuo das geleiras dos Alpes, essas reservas congeladas deixarão de conseguir impulsionar o fluxo dos rios e gerar eletricidade na mesma medida que antes.
“Quase todas as geleiras têm perdido massa. Isso é consenso”, disse Francesca Pellicciotti, glaciologista do Instituto de Ciência e Tecnologia da Áustria. “Em algum momento, haverá menos água disponível para a geração hidrelétrica.”
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O conceito aguça as preocupações em Viena de que a dependência da energia hidrelétrica — historicamente vista como um pilar da segurança energética — pode se tornar uma vulnerabilidade, justamente quando as perturbações provocadas por conflitos ampliam os riscos de depender de combustíveis importados.
Para um país cuja segunda empresa mais valiosa listada em bolsa — a estatal Verbund — gera cerca de 90% de sua eletricidade a partir de hidrelétricas, as consequências reverberam dos mercados de energia até as avaliações de crédito.
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As mudanças climáticas já produzem padrões de precipitação mais voláteis, mas a perspectiva de redução da disponibilidade hídrica reforça a necessidade de diversificação para energia eólica, solar e armazenamento de energia, a fim de amortecer tanto os choques climáticos quanto os riscos de abastecimento externo.
O fechamento do Estreito de Ormuz pelo Irã, após ataques dos Estados Unidos e de Israel, evidenciou o quanto os sistemas energéticos dependentes de exportações podem ser vulneráveis.
Geleiras em colapso
Os modelos climáticos sugerem que o pico hídrico pode ocorrer nas próximas duas décadas. Com isso, a Áustria tem uma janela cada vez mais estreita para se adaptar.
Embora o derretimento acelerado das geleiras tenha aumentado temporariamente o escoamento superficial, essa tendência deve se reverter já em 2040. A partir desse ponto, a redução das reservas de gelo significará menos água de degelo alimentando rios e reservatórios.
Uma nova geração de pesquisas busca aprimorar essas projeções. Pellicciotti coordena um projeto de US$ 9,5 milhões que combina inteligência artificial com modelos baseados em física para simular sistemas hídricos de montanha e identificar pontos de inflexão em bacias glaciais.
A iniciativa — conhecida como MountAInWater e parcialmente financiada pelo ex-CEO do Google Eric Schmidt — tem como objetivo determinar quando e onde o pico hídrico pode ocorrer.

Risco financeiro
Os alertas já se refletem em indicadores financeiros. O mês passado, a S&P Global Ratings rebaixou a nota de crédito da Verbund de A+ para A, citando condições hídricas mais fracas e perspectivas de queda na geração de eletricidade. A agência prevê enfraquecimento dos resultados ao longo de 2026 e 2027.
O rebaixamento evidencia como o risco climático se converte em pressão financeira mensurável. O coeficiente de geração da Verbund — um indicador-chave do fluxo dos rios em relação às médias históricas — caiu para 0,79 em 2025, bem abaixo dos níveis normais.
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A menor disponibilidade hídrica limita a geração de energia e pode comprimir as margens, mesmo com a aceleração dos investimentos.
A expectativa é que a Verbund destine mais de € 2 bilhões nos próximos dois anos à expansão da transmissão e das energias renováveis. Com isso, a dívida deve mais que dobrar até 2028.
Ao mesmo tempo, o fluxo de caixa tende a se deteriorar em razão da menor produção hidrelétrica e dos tetos de preço de eletricidade impostos pelo governo.
A rede hidrelétrica austríaca foi por muito tempo considerada uma vantagem estratégica, que permitiu ao país alcançar uma das maiores participações de energia renovável da Europa e se proteger da volatilidade dos combustíveis fósseis. Mas essa força passa a ser cada vez mais condicional à medida que os padrões climáticos mudam.
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A precipitação cai cada vez mais na forma de chuva em vez de neve, o que perturba o derretimento gradual da neve na primavera — processo que tradicionalmente alimenta os rios.
Com isso, as concessionárias enfrentam entradas de água mais voláteis, com períodos de seca intercalados por chuvas intensas. Essa variabilidade complica a gestão dos reservatórios e reduz a previsibilidade na geração, segundo a Verbund.

O desequilíbrio sazonal é particularmente evidente no inverno, quando a produção hidrelétrica cai. Nos meses mais frios, a Áustria precisa recorrer a outras fontes.
“Conseguimos cobrir mais de 90% da nossa eletricidade com energia renovável”, disse o ministro da Economia, Wolfgang Hattmannsdorfer, em coletiva de imprensa realizada em 26 de março. “Mas, no inverno, ainda precisamos produzir 20% da nossa demanda em usinas a gás e importar outros 20%.”
Diversificação da matriz energética
A lacuna impulsiona o esforço de diversificação da matriz energética, com o governo austríaco avançando na Lei de Aceleração da Expansão das Energias Renováveis. Conhecida pela sigla EABG, a proposta legislativa visa acelerar projetos de energia eólica, solar e transmissão.
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Hattmannsdorfer afirmou que a lei instituirá procedimentos uniformes em todo o país e dará prioridade à infraestrutura de energia renovável — uma tentativa de superar disputas jurídicas. Sob o sistema atual, alguns projetos levaram mais de uma década para obter aprovação.
“Estamos criando uma via rápida para projetos da transição energética — uma lei, uma autoridade, uma decisão”, disse ele, descrevendo uma abordagem simplificada para substituir as aprovações sobrepostas nas esferas federal, regional e local.

Para obter a aprovação, a coalizão centrista no poder precisará de maioria constitucional, o que significa garantir o apoio do Partido Verde ou do ultradireitista Partido da Liberdade. Os dois já manifestaram ressalvas.
O Partido da Liberdade, cético em relação ao clima, sempre se opôs à energia eólica por considerá-la impactante visualmente, e alertou que as autoridades federais pretendem restringir os direitos das províncias e municípios, onde o partido tem maior representação. Os Verdes, por sua vez, querem metas mais ambiciosas de energia renovável impostas às províncias.
“Em tempos de incerteza global, não podemos permitir nenhum tipo de atraso na produção doméstica de energia”, disse a secretária de Estado de Energia, Elisabeth Zehetner, no mês passado.
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As reformas refletem uma mudança mais ampla na estratégia energética da Áustria — de um foco centrado principalmente na descarbonização para a incorporação da adaptação climática. Isso implica reduzir a ênfase na energia hidrelétrica.
A Verbund já se ajusta a essa realidade. A concessionária diversifica sua atuação para energia eólica e solar, expande instalações de armazenamento de energia e investe em melhorias de eficiência nas usinas existentes. A empresa também amplia sua presença geográfica em mercados europeus vizinhos, para reduzir a exposição às condições hidrológicas locais.
Apesar da reorientação, a energia hidrelétrica continua central para a Áustria — ainda que com uma dose de cautela diante da incerteza sobre o momento exato do pico hídrico.
O risco é que um aumento temporário dos recursos hídricos, decorrente do derretimento das geleiras, mascare o declínio de longo prazo e retarde as ações necessárias. Mas, uma vez atingido um limiar crítico, a perda do gelo armazenado torna-se irreversível.
Para a Áustria, esse momento marcaria uma virada, corroendo a vantagem competitiva dos preços de eletricidade relativamente baixos. A expansão da energia eólica e solar poderia ajudar a suavizar os desequilíbrios sazonais e criar uma matriz energética mais resiliente.
Embora escalar essas tecnologias com rapidez suficiente ainda seja um desafio, a Áustria pode abrir caminho para outras economias dependentes da energia hidrelétrica. O sucesso dependerá da aprovação da lei EABG em uma forma capaz de preparar o país antes que o pico hídrico seja atingido.
“A questão central é quando o pico hídrico vai chegar”, disse Pellicciotti. “Depois disso, a água fornecida pelas geleiras começará a diminuir.”
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