Bloomberg — O tráfego no Estreito de Ormuz estava quase paralisado neste domingo (19) após o Irã reverter a decisão de reabrir a via e atacar embarcações que tentavam passar, com a advertência de que bloquearia as travessias enquanto o bloqueio americano aos portos iranianos persistisse.
O impasse em torno de Ormuz — por onde transitava cerca de um quinto do petróleo e do gás natural liquefeito (GNL) do mundo antes da guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã — ameaça aprofundar a crise energética que abala a economia global e minar as expectativas de um acordo de paz iminente, propagandeado pelo presidente americano Donald Trump.
Ormuz é um dos vários pontos sem resolução nas negociações de paz, ao lado do programa nuclear iraniano e da invasão israelense em curso no Líbano.
“Os navios aguardam instruções das forças armadas do Irã para determinar se podem passar pela rota”, informou a agência de notícias semioficial iraniana Mehr neste domingo.
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Ainda assim, na noite de sábado, o presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf — que liderou a delegação iraniana nas negociações com os Estados Unidos no início deste mês no Paquistão —, disse que, embora as divergências “ainda sejam significativas”, as negociações avançam. Ele acrescentou que as forças armadas do Irã estão prontas para agir mesmo durante as conversas.
“É impossível que outros passem pelo Estreito de Ormuz enquanto nós não podemos”, disse ele em pronunciamento televisivo, referindo-se ao bloqueio naval americano.
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Enquanto isso, os militares americanos se preparam para embarcar em petroleiros ligados ao Irã e confiscar navios comerciais em águas internacionais nos próximos dias, como forma de pressionar Teerã a reabrir Ormuz, noticiou o Wall Street Journal no sábado, citando autoridades americanas anônimas. A Casa Branca não respondeu imediatamente a um pedido de comentário sobre a reportagem do WSJ.
A Marinha dos Guardiões da Revolução Islâmica emitiu um comunicado na tarde de sábado alertando as embarcações a não deixarem suas ancoragens no Golfo Pérsico e no Mar de Omã, e que se aproximar do estreito “será considerado cooperação com o inimigo, e a embarcação infratora será atacada.”
“Eles queriam fechar o Estreito de novo, como fazem há anos, e não podem nos chantagear”, disse Trump a repórteres no sábado sobre o Irã — embora o estreito estivesse completamente aberto até que Estados Unidos e Israel iniciassem sua campanha de bombardeios sete semanas atrás. “Teremos informações até o fim do dia, sabe. Estamos conversando com eles. Estamos adotando uma postura firme.”
Cessar-fogo no Líbano se fragmenta
Havia também sinais de que o cessar-fogo no Líbano — vinculado à decisão do Irã de permitir o tráfego em Ormuz — pode estar se desfazendo. As Forças de Defesa de Israel afirmaram ter atacado “sabotadores” que se aproximavam de suas tropas em violação à trégua.
Os desdobramentos desfazem o otimismo crescente de que Estados Unidos e Irã se aproximavam de um acordo amplo para encerrar a guerra, que já custou milhares de vidas e perturbou as exportações de energia do Golfo Pérsico.
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No sábado, Israel atacou o que chamou de “célula terrorista” no sul do Líbano, onde sua invasão já matou cerca de 2.000 pessoas e deslocou mais de 1 milhão.
O presidente Emmanuel Macron também afirmou que um soldado francês morreu em um ataque a forças de paz da ONU no Líbano e sugeriu que o Hezbollah — o grupo apoiado pelo Irã que Israel combate — foi o responsável.
Trump disse no sábado que há “conversas muito boas” em andamento com o Irã. Um dia antes, afirmou que os Estados Unidos trabalhariam com a República Islâmica para recuperar o “pó nuclear” do país.
Mas Esmail Baghaei, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, disse à televisão estatal que o urânio enriquecido “é tão sagrado para nós quanto o solo iraniano, e não será transferido a lugar algum sob nenhuma circunstância.”
O material — que os Estados Unidos afirmam ter sido soterrado em bunkers profundos após o bombardeio às instalações nucleares iranianas durante a guerra de 12 dias do ano passado — está no centro dos esforços para encerrar o conflito, e seu destino é crucial para qualquer acordo mais amplo.
O impulso por uma paz duradoura havia ganhado força no final da semana passada. As rachaduras começaram a surgir no sábado com as críticas do Irã ao bloqueio americano continuado.
A Marinha britânica informou em seguida que um petroleiro foi abordado por lanchas dos Guardiões da Revolução antes de ser atacado, acrescentando que o navio e sua tripulação estavam em segurança.
Um navio porta-contêineres foi atingido por um projétil de origem desconhecida em um incidente separado na costa de Omã, segundo a mesma fonte.
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O líder supremo do Irã, Mojtaba Khamenei, afirmou que a marinha do país “está pronta para fazer os inimigos sentirem o amargor de novas derrotas”, em comunicado divulgado por ocasião do Dia Nacional do Exército. Não ficou claro se sua mensagem foi uma resposta direta aos desdobramentos em torno de Ormuz.
O Irã controla o estreito e garantirá seus direitos “seja à mesa de negociação, seja em campo”, disse o primeiro vice-presidente iraniano, Mohammad Reza Aref, segundo a agência Mehr.
“Embora um acordo pareça estar ao alcance e possa pôr fim à atual rodada de hostilidades entre Estados Unidos e Irã e trazer alívio aos mercados de energia, é improvável que resulte em uma paz plena ou duradoura”, escreveram analistas da Bloomberg Economics, entre eles Jennifer Welch, em relatório. “Nossa avaliação é que qualquer acordo será limitado e frágil.”
Confusão em torno do acordo
Trump disse à Bloomberg News em entrevista por telefone na sexta-feira que o Irã concordou em suspender seu programa nuclear indefinidamente e que “a maioria dos pontos principais” nas discussões com o país está finalizada.
O presidente também levantou na entrevista a ameaça de retomar os ataques ao Irã assim que o atual cessar-fogo expire em poucos dias. “Talvez eu não o prorrogue, então haverá um bloqueio e, infelizmente, teremos que voltar a lançar bombas”, disse ele.
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Os comentários de Trump e a declaração de Teerã sobre Ormuz na sexta-feira foram os sinais mais recentes de que os dois lados trabalham nos bastidores em um acordo, após a primeira rodada de conversas diretas no Paquistão não ter chegado a um resultado.
A guerra levou o Irã a retaliar contra bases americanas na região e atacar infraestrutura de petróleo e gás de aliados dos Estados Unidos no Golfo, desencadeando uma crise energética global.
Os preços do petróleo, combustíveis e gás natural despencaram com as esperanças de que os últimos desdobramentos significassem o fim da guerra e que mais suprimentos de energia pudessem transitar com segurança por Ormuz.
O Brent caiu 9% na sexta-feira, para cerca de US$ 90 por barril. Os preços do diesel nos Estados Unidos e na Europa também recuaram.
Em uma mudança notável, os preços físicos do petróleo também cederam de forma expressiva, acompanhando os futuros.
Na sexta-feira, o Brent datado — o índice físico mais importante do mundo — ficou abaixo de US$ 100 por barril pela primeira vez desde 11 de março. As bolsas ampliaram a alta com especulações de que a guerra logo terminaria.
Uma das propostas em discussão é a liberação de US$ 20 bilhões em fundos iranianos congelados pelos Estados Unidos em troca de Teerã abrir mão de seu estoque de urânio enriquecido, noticiou o Axios, citando dois funcionários americanos e duas outras fontes não identificadas com conhecimento das negociações.
Trump rechaçou a ideia na entrevista por telefone, repetindo “não” várias vezes quando questionado se liberaria os US$ 20 bilhões.
-- Com a colaboração de Weilun Soon, Sara Gharaibeh, Kate Sullivan, Omar Tamo, Valentine Baldassari e Patrick Sykes.
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