Bloomberg — O Mercosul e a União Europeia assinaram um dos maiores acordos de livre comércio do mundo no sábado (17), concretizando uma negociação que vem sendo trabalhada há mais de duas décadas.
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e o chefe do Conselho Europeu, Antonio Costa, assinaram o pacto em Assunção, no Paraguai, uma semana após a UE ter aprovado o acordo com o bloco sul-americano formado por Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai.
O acordo, que criará um mercado integrado de 780 milhões de consumidores, fortalecerá a posição da Europa em uma região rica em recursos que está sendo cada vez mais disputada pelos EUA e pela China. Von der Leyen e líderes como o brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva também o elogiaram como uma forma de sinalizar a independência das duas superpotências.
“Este momento é para conectar continentes”, disse von der Leyen na assinatura. “Ele reflete uma escolha clara e deliberada: Escolhemos o comércio justo em vez das tarifas; escolhemos uma parceria produtiva de longo prazo em vez do isolamento; e, acima de tudo, pretendemos oferecer benefícios reais e tangíveis para nosso povo e nossas empresas.”
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A assinatura ocorre em meio a um cenário de interesse renovado dos EUA na América do Sul.
O governo dos Estados Unidos sob o presidente Donald Trump emitiu recentemente um documento de segurança nacional que redefiniu a prioridade da região para as ações políticas dos EUA.
Há duas semanas, os EUA prenderam o líder venezuelano Nicolas Maduro e o levaram a Nova York para enfrentar acusações criminais.
A eliminação gradual das tarifas sobre produtos agrícolas deverá beneficiar as potências agrícolas da América do Sul, enquanto a remoção de impostos sobre carros, máquinas e outros produtos é positiva para a indústria europeia.
A Bloomberg Economics estimou que o acordo impulsionaria a economia do bloco do Mercosul em até 0,7% até 2040, e a da Europa em 0,1% após 15 anos.
“Estamos falando do maior acordo entre dois blocos - ele reúne economias que somam US$ 22 trilhões”, disse Tatiana Prazeres, secretária de comércio exterior do Brasil, em declarações públicas no início desta semana. “Isso ajudará a região a se integrar melhor à economia global.”
O presidente da Argentina, Javier Milei, o presidente do Uruguai, Yamandu Orsi, e o presidente do Paraguai, Santiago Pena, participaram da cerimônia de assinatura.
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Lula, que participa das negociações comerciais desde o início de sua primeira presidência em 2003, não viajou ao Paraguai, mas se reuniu com von der Leyen no Rio de Janeiro na sexta-feira (16).
O acordo quase foi desfeito em dezembro devido à oposição de grandes nações agrícolas como a França e a Itália.
Mas as medidas de salvaguarda oferecidas aos agricultores europeus ajudaram a influenciar a primeira-ministra italiana Giorgia Meloni, deixando Emmanuel Macron, da França, sem apoio suficiente para bloquear o acordo, que, após a assinatura de sábado, ainda precisa ser aprovado pelo Parlamento Europeu.
A participação da UE no comércio do Mercosul caiu de 23% em 2001 para 14%, de acordo com a Bloomberg Economics. Mas o acordo expandirá sua rede comercial na América Latina para 97% da economia da região, muito mais do que os 44% dos EUA e os 14% da China, de acordo com o Banco Santander.
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O pacto poderia ajudar a Europa a escapar de sua dinâmica tensa com os EUA e a China, depois de ter passado grande parte de 2025 envolvida em batalhas comerciais com ambos.
Também pode provar para a América do Sul que a Europa pode oferecer uma alternativa econômica confiável para as duas superpotências - especialmente porque busca atrair investimentos para a indústria e desenvolver reservas de metais e minerais que são fundamentais para os planos de transição verde e digital da Europa.
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A Europa e o Brasil estão em negociações para um acordo separado sobre metais críticos, disse von der Leyen no Rio de Janeiro na sexta-feira.
Esse acordo “estruturaria nossa cooperação em projetos de investimento conjunto em lítio, níquel e terras raras”, disse ela, promovendo a independência estratégica “em um mundo onde os minerais tendem a se tornar um instrumento de coerção”.
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