EUA miram empresas da China em novas sanções ao Irã, mas evitam grandes bancos

Ofensiva busca cortar fontes de financiamento de Teerã e atingir redes de aquisição de tecnologia na Ásia, sem avançar, por enquanto, sobre as principais instituições financeiras da China

Por

Bloomberg — A mais recente onda de sanções do governo Trump contra o Irã atingiu empresas na China e em Hong Kong, mas evitou a medida de muito maior impacto que seria visar as principais instituições financeiras chinesas.

Na segunda-feira, o Departamento do Tesouro dos EUA divulgou um pacote que visa dezenas de indivíduos e entidades como parte do que o secretário do Tesouro, Scott Bessent, descreveu como a “Operação Economic Outcast”, uma campanha mais ampla destinada a cortar as últimas fontes de sustento financeiro do Irã.

A inclusão de entidades sediadas em Hong Kong segue um padrão observado na aplicação, pelos EUA, das sanções impostas em relação à guerra da Rússia na Ucrânia.

Nessa campanha, Washington tem como alvo intermediários comerciais e empresas de transporte marítimo na cidade, acusados de auxiliar no transporte de mercadorias, incluindo tecnologia sensível.

Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.

Em maio, os EUA impuseram sanções a nove empresas e indivíduos chineses sob a alegação de que estavam auxiliando as forças armadas do Irã, poucos dias antes de uma cúpula de líderes em Pequim.

As últimas medidas contra o Irã sugerem que Washington busca aumentar os custos de se fazer negócios com Teerã, sem ainda enfrentar as repercussões econômicas e diplomáticas mais amplas que poderiam advir da imposição de sanções a grandes bancos chineses.

Ainda assim, não está claro quão eficazes serão as medidas contra as empresas, uma vez que se trata de entidades privadas com pouca exposição conhecida aos EUA.

“Sanções contra entidades específicas não têm sentido, pois não podem ser aplicadas com rapidez suficiente para acompanhar a velocidade com que entidades substitutas podem ser criadas”, afirmou Derek Scissors, pesquisador sênior do American Enterprise Institute que acompanha os investimentos chineses no exterior.

Algumas empresas poderiam começar como empresas de fachada e, em seguida, assumir mais atividades caso sobrevivam, disse Scissors, acrescentando que as dezenas de entidades citadas pelos EUA “existem em um universo de dezenas de milhares”.

Leia também: China mantém influência econômica na América Latina apesar da ofensiva de Trump

O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Lin Jian, indicou que seu país manteria suas relações econômicas com o Irã na terça-feira, durante uma coletiva de imprensa de rotina em Pequim.

“A cooperação da China com o Irã sempre foi conduzida dentro do quadro internacional e não deve ser interferida nem prejudicada”, acrescentou.

O governo de Hong Kong afirmou que aplica integralmente as sanções do Conselho de Segurança da ONU, mas não as medidas unilaterais impostas por países.

Um porta-voz oficial acrescentou que a cidade mantém um robusto sistema de controle comercial que monitora remessas de commodities estratégicas para impedir o desvio ilegal.

Um dos principais focos das medidas foi uma rede de aquisição de tecnologia centrada na Sweet Ocean Industrial, com sede em Hong Kong.

O Departamento do Tesouro alegou que a empresa atuou como intermediária na aquisição de equipamentos ópticos a laser e outros bens sensíveis destinados à Universidade de Tecnologia Malek Ashtar do Irã, uma instituição de pesquisa ligada à defesa e sujeita a sanções da ONU.

Os indivíduos Li Na, Tian Jianbai e Zhang Limei — todos residentes na China — também foram designados por supostamente ajudarem a coordenar atividades de aquisição por meio da rede, que, segundo o Tesouro, apoia a aquisição pelo Irã de tecnologia crítica para pesquisa nuclear e desenvolvimento de mísseis.

Leia também: Trump promete dobrar tarifas sobre carros do Canadá para 50% a partir de janeiro

Tais redes permitem que o Irã obtenha tecnologia de dupla utilização por meio de um “extenso sistema de empresas de fachada, canais financeiros secretos e intermediários logísticos em toda a Ásia Oriental”, de acordo com o comunicado dos EUA.

As sanções também atingiram várias empresas ligadas à mesma cadeia de suprimentos, incluindo a Shenzhen Sweet Ocean Technology, a RPT Technology, a Tiany Technology e a MT Trading and Logistics HK.

O Departamento do Tesouro também afirmou que a DEC Photonics, com sede em Hong Kong, transferiu repetidamente fundos para a Shenzhen Sweet Ocean. A empresa anuncia produtos ópticos e a laser em seu site.

O Tesouro alegou ainda que as empresas sediadas em Hong Kong Feili, Minvur, Feisu e Guska transferiram, cada uma, dezenas de milhares de dólares para a Sweet Ocean e sua rede, a fim de auxiliar usuários finais iranianos na aquisição de produtos.

Leia também: Trump promete ‘Dia D econômico’ contra Irã; ameaça a parceiros coloca China no foco

O Tesouro alegou que várias dessas entidades atuavam como empresas de fachada que facilitavam pagamentos para redes financeiras iranianas.

Washington identificou separadamente uma série de operadoras de logística que, segundo afirmou, tinham ligações com o Irã. Entre elas estavam a Shenzhen Huamei Lianyun International Logistics, a Shenzhen Bositong Logistics e a Bositong Supply Chain Shenzhen.

A DEC Photonics, a Tiany e a Shenzhen Bositong Logistics, que disponibilizavam informações de contato online, não responderam imediatamente às tentativas de contato para comentários.

--Com a colaboração de Colum Murphy e Linda Lew.

Veja mais em bloomberg.com