Bloomberg — O presidente Luiz Inácio Lula da Silva retornou ao poder prometendo revitalizar a unidade política e econômica da América do Sul. Um evento regional nesta semana mostra que ele agora luta para manter influência em seu próprio quintal.
Aos 80 anos, o ícone esquerdista ficará frente a frente com uma nova geração de presidentes mais jovens e conservadores no Fórum Econômico Internacional da América Latina e do Caribe — chamado de “Davos da América Latina” — no Panamá, nesta quarta-feira (28).
O evento é o primeiro encontro de chefes de Estado da região desde que os Estados Unidos capturaram Nicolás Maduro, da Venezuela, o que provocou indignação de Lula, mas elogios de outros líderes que estarão presentes no fórum.
Lula viajou para a Cidade do Panamá com a intenção de garantir que a esquerda esteja representada em discussões que serão dominadas por figuras conservadoras mais simpáticas ao presidente dos EUA, Donald Trump, e a Javier Milei, da Argentina, mais perto de casa.
Mas, mais do que um teste político, o evento é uma grande prova aos esforços de longa data de Lula para integrar as economias da região, de forma que fortaleçam as parcerias comerciais, de investimento e de infraestrutura, capazes de resistir a acentuadas divergências políticas.
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Na terça-feira, Lula realizou uma reunião bilateral com José Antonio Kast, o vencedor ultraconservador da eleição presidencial do Chile, em dezembro.
Kast, que substituirá o esquerdista Gabriel Boric em março, disse posteriormente que discutiram oportunidades de cooperação em questões de energia e segurança, ao mesmo tempo que elogiou uma “relação entre Estados” que vai “além das diferenças ideológicas”.
Lula, por sua vez, enfatizou programas para integrar ainda mais o comércio regional e as rotas econômicas com os portos da costa chilena, disse o governo brasileiro em comunicado.
Autoridades brasileiras afirmam que o encontro está em linha com o histórico de Lula de superar diferenças ideológicas. Ao longo de sua carreira, ele construiu laços estreitos com líderes como Hugo Chávez, à esquerda, Emmanuel Macron, ao centro, e George W. Bush, à direita. Ele falou com Trump na segunda-feira e está planejando uma visita a Washington no início de março.
“Não nos concentramos na orientação política de cada líder”, disse Gisela Padovan, secretária para Assuntos da América Latina e Caribe do Ministério das Relações Exteriores do Brasil, a repórteres antes da viagem. “Nossas relações, passadas e futuras, são muito maiores do que o momento político aqui ou ali.”
A integração das economias da América Latina tem sido um dos principais objetivos de Lula desde que reassumiu a presidência em 2023, como parte de uma onda de governos de esquerda. Ele marcou seu retorno ao reintegrar a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos e, no início do mandato, reuniu líderes regionais em Brasília para um evento destinado a buscar consensos em questões como infraestrutura, meio ambiente e saúde.
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Contudo, esses esforços fracassaram em parte porque ele usou o encontro para defender Maduro, e enfrentou a percepção dos líderes mais conservadores da região de que ele estava determinado a reviver a Unasul, uma união de nações sul-americanas de esquerda, originalmente criada para contrabalançar a influência dos EUA na região.
Mais tarde, Lula enviou uma equipe de assessores de campanha à Argentina, em uma tentativa de frustrar a ascensão de Milei, contribuindo para a deterioração das relações políticas com a nação vizinha após a vitória do libertário. Essa vitória acabou por anunciar uma guinada regional à direita, que se acelerou com as vitórias de Daniel Noboa, do Equador, de Rodrigo Paz, da Bolívia, e Kast, todos os três também presentes no Panamá.
O governo brasileiro reconheceu deficiências dessa estratégia: o esforço de integração regional de Lula encontrou “obstáculos significativos”, disse a agência de inteligência do país em um relatório divulgado no fim do ano passado, incluindo um “desalinhamento com os projetos políticos dos países vizinhos”.
Mas, sejam liderados por líderes de direita ou de esquerda, os esforços para estreitar os laços entre as economias da América Latina enfrentam desafios que vão além da política: chegar a um consenso sobre qualquer assunto provou ser ainda mais difícil em um mundo abalado pelas guerras comerciais dos EUA e pela abordagem imprevisível — e altamente pessoal — de Trump aos assuntos globais.
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Lula tem obtido sucesso recentemente ao focar em questões econômicas que transcendem as linhas ideológicas.
Anteriormente, neste mês, o Mercosul, bloco formado por Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, finalizou um acordo de livre comércio com a União Europeia, um pacto que representa uma promessa substancial tanto para ele quanto para Milei.
E com Trump colocando a América Latina em uma posição cada vez mais difícil entre os EUA e a China, ele não está sozinho em adotar um tom mais pragmático em relação a questões econômicas.
Milei certa vez se referiu ao governo comunista de Pequim como um “assassino” e prometeu romper relações com o Brasil. Mas, na semana passada, o aliado fiel de Trump elogiou a China como uma “grande parceira comercial”, enquanto adotava um tom mais focado em negócios em relação a Lula — embora os dois ainda não conversem.
“Temos uma relação adulta”, disse Milei em entrevista em Davos. “Isto não é uma disputa ideológica de artigos acadêmicos. No meio disso estão as vidas de milhões de seres humanos.”
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