Bloomberg — O primeiro-ministro Mark Carney afirmou que o Canadá aplicará tarifas de retaliação sobre US$ 20 bilhões em produtos americanos a partir de 8 de setembro, intensificando a disputa que abala uma das maiores relações comerciais do mundo.
“Tomamos essa medida com relutância”, disse Carney no sábado (22), “porque reconhecemos que isso aumentará os custos e reduzirá as opções para os canadenses”.
A medida também afetará empresas e estados americanos inocentes e tornará mais difícil a cooperação entre os dois países, reconheceu o primeiro-ministro.
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No entanto, ele afirmou que não teve outra escolha depois que as negociações comerciais com o governo do presidente Donald Trump fracassaram na noite de sexta-feira e os Estados Unidos impuseram tarifas de importação de 50% sobre itens como compensados, bebidas alcoólicas, equipamentos elétricos e equipamentos de hóquei provenientes do Canadá.
“Você está em guerra quando é atacado”, disse Carney aos repórteres em Ottawa. “Fomos atacados.”
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As tarifas retaliatórias serão aplicadas ao aço, laticínios, eletrodomésticos, equipamentos agrícolas, eletrônicos, celulose e papel dos Estados Unidos. Mais detalhes serão divulgados nos próximos dias, afirmou o primeiro-ministro.
As tarifas retaliatórias têm como objetivo igualar, em termos de valor em dólares, as últimas tarifas impostas pelos Estados Unidos. Trump utilizou pela primeira vez uma regra da época da Grande Depressão Econômica (1929), conhecida como Seção 338, para impor as tarifas sobre produtos canadenses que totalizam cerca de US$ 20 bilhões em importações anuais dos Estados Unidos.
Ao revidar, Carney está assumindo um risco econômico e político. Autoridades americanas indicaram na sexta-feira que, caso o Canadá retaliasse, elas teriam opções para intensificar as medidas — aumentando a possibilidade de uma guerra comercial em espiral entre dois países que trocaram quase US$ 900 bilhões em bens e serviços no ano passado.
Carney afirmou que as negociações fracassaram por uma série de razões. Uma delas envolvia as tarifas automotivas de Trump, fixadas em 25% sobre o conteúdo não americano em um veículo fabricado no Canadá.
As equipes de negociação discutiram a redução dessa alíquota para 15%, mas os Estados Unidos não quiseram estender essa redução tarifária a caminhões de médio e grande porte, como os que estão atualmente entrando em produção na fábrica da Ford nos subúrbios de Toronto.
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Os Estados Unidos também procuraram impor limites aos acordos comerciais do Canadá com outros países e fizeram exigências sobre questões culturais e relacionadas à língua francesa que eram inaceitáveis, afirmou Carney.
Ele acrescentou que a tensão não é uma boa notícia para as negociações em torno do Acordo EUA-México-Canadá (USMCA), que entrou em revisões contínuas depois que Trump se recusou a renová-lo em julho.
Assinatura ‘a lápis’
Após meses em que parecia relutante em falar sobre as delicadas e arriscadas negociações com os Estados Unidos, Carney mudou de tática no sábado.
Ele criticou duramente os Estados Unidos por violarem o acordo comercial USMCA com a imposição de tarifas nos últimos 18 meses e acusou a Casa Branca de alterar continuamente suas justificativas para as medidas comerciais, incluindo o tráfico de fentanil, a política leiteira do Canadá, um comercial de televisão de que Trump não gostou, a fumaça dos incêndios florestais e o déficit comercial.
“Nosso governo compreendeu antes de muitos que os Estados Unidos transformariam todas as suas relações comerciais, que imporiam uma série de tarifas aos seus aliados mais próximos e usariam a integração econômica como arma”, afirmou o primeiro-ministro. “Reconhecemos que, às vezes, sua assinatura estava escrita a lápis.”
Os Estados Unidos são, de longe, o maior mercado de exportação do Canadá, com petróleo, veículos e peças automotivas entre as principais categorias. O déficit comercial dos Estados Unidos com o Canadá é impulsionado pelas enormes importações de petróleo bruto das províncias do oeste.
“O Canadá alimenta o crescimento americano: fornecendo 99% de suas importações de gás natural, 85% das importações de eletricidade e 60% das importações de petróleo bruto”, disse Carney. “Não creio que eles queiram que paremos de enviá-los.”
O Canadá é também o maior comprador de bens e serviços dos Estados Unidos, além da União Europeia, de acordo com dados do Departamento de Comércio americano.
O primeiro-ministro de Ontário, Doug Ford, aconselhou Carney nesta semana a considerar uma retaliação “dólar por dólar” caso as negociações fracassassem.
Em uma carta ao primeiro-ministro, ele destacou os ativos energéticos e minerais essenciais do Canadá como pontos de vantagem nas negociações e também sugeriu a imposição de tarifas adicionais sobre produtos provenientes de estados “politicamente significativos” para Trump, como Flórida, Texas, Iowa e Wisconsin.
“Os produtos desses estados devem enfrentar toda a força da resposta do Canadá”, escreveu Ford na carta, divulgada por seu gabinete no sábado.
Pesquisas sugerem que Carney conta com amplo apoio público para se opor às táticas comerciais agressivas dos EUA. Uma pesquisa com canadenses publicada esta semana pela Leger Marketing revelou que 56% queriam que o governo “adotasse uma linha dura e não fizesse mais concessões”.
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A mesma pesquisa revelou apoio a medidas como impostos de exportação sobre a energia que os Estados Unidos compram do Canadá e impostos especiais sobre serviços americanos, como a Netflix.
Jason Kenney, ex-premiê de Alberta e rival político do Partido Liberal de Carney, elogiou o primeiro-ministro por se retirar das negociações.
“O Canadá claramente fez um esforço sério e de boa-fé para obter maior estabilidade e acesso ao mercado, e continua pronto para chegar a um acordo justo e equilibrado”, afirmou Kenney em uma postagem nas redes sociais. “Mas não estamos nos rendendo covardemente diante da constante agressão econômica e política.”
É provável que muitos canadenses continuem retaliando à sua maneira — com algum incentivo de políticos eleitos —, recusando-se a viajar para o sul e boicotando produtos americanos.
As viagens de canadenses aos Estados Unidos caíram drasticamente desde que Trump retornou à Casa Branca, prejudicando estados fronteiriços e destinos turísticos como Las Vegas.
Questionado se parte de sua estratégia de retaliação se baseava em dados de pesquisas de opinião e no mercado de títulos dos Estados Unidos — que tem registrado picos nos rendimentos —, Carney afirmou que não. Mas acrescentou: “Os mercados às vezes ignoram esses fundamentos e, de repente, passam a se concentrar neles.”
-- Com a colaboração de Nojoud Al Mallees.
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