Bloomberg — Friedrich Merz está prestes a descobrir se seu plano para recolocar a Alemanha nos trilhos terá sucesso.
O enorme estímulo à infraestrutura lançado pelo chanceler começa a chegar à maior economia da Europa: € 24 bilhões já foram desembolsados até o início deste ano, com centenas de bilhões de euros ainda por vir. Um aumento dos gastos com defesa deve dar impulso adicional.
A pergunta central para Merz e o ministro das Finanças, Lars Klingbeil, ainda não tem resposta: quando isso vai gerar resultados?
“Merz e Klingbeil sabem que seu sucesso será julgado pelo retorno do crescimento”, disse Jens Suedekum, assessor econômico de Klingbeil. “É fundamental colocar o dinheiro na economia o mais rápido possível.”
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Parte dos recursos deve chegar rapidamente às empresas alemãs. Segundo o Ministério da Economia, o governo estima que dois terços de um ponto percentual do crescimento deste ano virão de seus gastos.
Como resultado, os investidores estão mais otimistas do que em qualquer momento desde 2021, e a produção cresceu mais do que os economistas esperavam no quarto trimestre.
“Tem de haver alguma reação”, disse Brian Coulton, economista-chefe da Fitch Ratings, em entrevista à Bloomberg News na semana passada em Frankfurt. “Mesmo que seja apenas um impulso direto de dois ou três anos, só de recuperar esse dinamismo na economia já é possível começar a melhorar a confiança.”
Mas pesquisas com líderes empresariais indicam que os executivos ainda não estão convencidos, depois de a economia ter avançado apenas 0,2% no ano passado, sua primeira expansão desde 2022.

Fora de Berlim, empresas que por muito tempo sustentaram a riqueza do país aguardam provas de que a Alemanha consegue reacender as perspectivas de negócios e evitar cortes de empregos.
Para o restante da Europa, uma economia alemã dinâmica, com um governo estável, daria sustentação aos esforços para traçar um novo rumo em um ambiente geopolítico hostil.
Se a iniciativa de Merz fracassar, líderes europeus terão muito mais dificuldade para articular uma resposta convincente às ameaças vindas de Moscou, Pequim e Washington.
O mercado acionário alemão disparou no ano passado após a promessa do novo chanceler de modernizar a infraestrutura deteriorada e aumentar os gastos com defesa. O índice de blue chips DAX40 subiu 22%, apesar dos ventos contrários globais enfrentados por setores-chave como o automotivo e o químico.
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Ainda assim, a coalizão governista da Alemanha tem enfrentado dificuldades nas pesquisas desde que assumiu o poder em maio do ano passado e encara cinco eleições regionais neste ano.
Um mau resultado em qualquer uma delas pode alimentar rumores desestabilizadores entre parlamentares e autoridades, com a extrema-direita da Alternativa para a Alemanha (AfD) pronta para explorar sinais de fragilidade.

Merz, de 70 anos, reconheceu a urgência de agir poucos dias após o início do novo ano. Ele disse aos parlamentares que partes da economia estão em um estado “muito crítico” e que os próximos meses precisam ser totalmente dedicados à restauração da prosperidade.
Há duas frentes nos esforços do governo. De um lado, ele corre para executar um fundo de infraestrutura de € 500 bilhões (US$ 580 bilhões) em um país que enfrenta dificuldades históricas para tirar grandes projetos do papel, além de reestruturar suas Forças Armadas, hoje enfraquecidas.
Ao mesmo tempo, a coalizão prometeu novas medidas para melhorar as condições internas, algo ainda mais importante diante das dúvidas sobre o modelo de negócios alemão baseado em exportações. É nesse ponto que os investidores querem ver avanços.
“Para as ações alemãs, depreciação acelerada, maior alocação de recursos de fundos de pensão em ações, preços de energia mais baixos e menos regulação são claramente fatores de apoio”, escreveu Maximilian Uleer, chefe de estratégia de ações europeias e multiativos do Deutsche Bank, em nota a clientes.
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As projeções oficiais divulgadas na última semana agora apontam crescimento de 1% neste ano. A Fitch prevê 1,2% e avalia que indicadores subjacentes de investimento já mostram sinais concretos de melhora, mesmo que a confiança empresarial ainda não acompanhe.
“Nos pontos em que se esperaria começar a ver isso, realmente parece que algo está acontecendo”, disse Coulton. “Isso pode facilmente se tornar mais autossustentável.”
Com frequência, porém, a Alemanha deu sinais de recuperação apenas para tropeçar em seguida. Dirk Schumacher, economista-chefe do banco de fomento KfW, prevê um impacto “significativo” desta vez, embora reconheça os riscos.
“Um perigo é que, por qualquer motivo, haja atrasos ou que as empresas não consigam executar esses pedidos com rapidez suficiente”, afirmou. “O outro é uma espiral pessimista autorrealizável, em que o setor empresarial acaba desistindo.”

A indústria automobilística alemã sintetiza as dificuldades do país. Espremidas entre a concorrência chinesa e tarifas dos EUA, empresas de Volkswagen a Mercedes-Benz, além de grandes fornecedores, anunciaram alertas de lucro e cortes de custos no ano passado.
Hildegard Mueller, presidente da associação da indústria automotiva VDA, ressaltou a importância do momento no início deste mês. Ao defender mais acordos comerciais, menos burocracia e melhor infraestrutura para veículos elétricos, ela descreveu 2026 como “o ano da decisão para muitas, muitas questões com consequências de longo prazo”.
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Novas decepções econômicas podem trazer problemas para o mercado de trabalho. Enquanto empresas industriais como Robert Bosch e Siemens cortam milhares de vagas, outros empregadores contrataram mais trabalhadores, e algumas companhias mantiveram funcionários na esperança de dias melhores.
“Quanto mais tempo a estagnação durar, maior é o risco de isso acabar se transformando em uma recessão”, disse Sebastian Dullien, diretor do instituto de pesquisa IMK, ligado aos sindicatos. “Por isso é tão importante que os investimentos públicos cheguem rapidamente e sejam acompanhados de reformas.”

As tensões dentro da coalizão já vieram à tona em torno de uma reforma da Previdência, que pressiona os custos do trabalho à medida que a população envelhece. Economistas também defendem foco na redução dos preços de energia, em cortes de impostos e na diminuição da burocracia.
Mas Merz e Klingbeil enfrentam dificuldades para manter tanto seus partidos quanto os eleitores alinhados, o que limita sua capacidade de aprovar medidas mais drásticas.
Três quartos dos alemães estão insatisfeitos com o desempenho do governo, segundo o instituto de pesquisas Forsa, e a AfD tem chances reais de conquistar o poder pela primeira vez em regiões do leste, como Saxônia-Anhalt e Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental.
“Merz e Klingbeil reconhecem claramente a gravidade da situação”, disse Harald Christ, que lidera o comitê responsável por supervisionar o fundo de infraestrutura do governo e mantém contato regular com ambos.
-- Com a colaboração de Sonja Wind.
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