Onde investir no 2º semestre? Especialistas veem oportunidades com juro em queda

De ações a ativos de renda fixa, gestores e estrategistas de bancos e corretoras revelam à Bloomberg Línea as principais estratégias para os próximos meses

Onde investir no 2º semestre? Especialistas destacam oportunidades com queda da Selic
26 de Julho, 2023 | 04:45 AM

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Bloomberg Línea — Depois de um primeiro semestre pautado por inflação e juros no mundo, investidores começaram a segunda metade do ano de olho em um esperado início do ciclo de flexibilização monetária no Brasil.

Segundo o mais recente relatório Focus, do Banco Central, economistas do mercado financeiro estimam que a taxa básica deve encerrar o ano em 12%, uma queda em relação ao nível atual de 13,75% ao ano. As apostas para o primeiro corte de juro se concentram na reunião de agosto, na semana que vem, com expectativa de corte de 0,25 ponto percentual na Selic.

  • Nota do editor: Este é um artigo baseado em recomendações de especialistas. Se tiver dúvidas ou preocupações, fale com um consultor financeiro profissional. Este artigo destina-se apenas a fins editoriais.

Uma visão mais otimista contribuiu para um fechamento de taxas - leia-se queda nos juros futuros - nos títulos de renda fixa, para a valorização do real e para um rali do Ibovespa (IBOV), que subiu quase 8% na primeira metade do ano.

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Porém, enquanto na cena doméstica uma aposta em juros mais baixos pode impulsionar expectativas mais construtivas com ativos de renda variável, as taxas ainda em dois dígitos somadas a um cenário de incertezas no ambiente internacional continuam a beneficiar estratégias de renda fixa.

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Essa é a avaliação de gestores, estrategistas e analistas consultados pela Bloomberg Línea. Os especialistas destacaram as principais estratégias que têm adotado para os próximos meses e quais as melhores oportunidades hoje para o investidor pessoa física. Confira:

Títulos públicos

Apesar do fechamento da curva, a taxa de juros continua elevada e a alocação em renda fixa segue atrativa, destaca Camilla Dolle, da XP Investimentos.

Com a perspectiva de corte da Selic, Dolle conta que mudou um pouco a visão em relação aos indexadores, reduzindo a posição em títulos pós-fixados (atrelados à taxa básica) e aumentando em prefixados.

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Como o juro real permanece elevado, contudo, a casa continua gostando de papéis atrelados ao Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). É o caso do Tesouro IPCA+, que paga, em média, a inflação mais uma taxa de 5,35% ao ano.

Os títulos públicos atrelados à inflação também estão nas carteiras do family office Vita Investimentos e da gestora de patrimônio TAG Investimentos.

Na avaliação de Arthur Mello, sócio e co-CIO da Vita, os títulos Tesouro IPCA+ (antiga NTN-B) oferecem a melhor relação entre risco e retorno hoje no mercado, em especial os papéis de prazos entre 2028 e 2032.

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André Leite, CIO da TAG Investimentos, também diz gostar das NTN-Bs com prazos médios. Ele cita como exemplo o Tesouro IPCA+ com vencimento em 2035, que paga atualmente a inflação mais uma taxa de 5,26% ao ano. “Quando olhamos do ponto de vista atuarial, para construção de poupança no longo prazo, é uma ‘baita’ taxa”, diz.

Outros ativos de renda fixa

Além dos títulos públicos, o investidor pessoa física também pode se beneficiar dos produtos de renda fixa isentos de Imposto de Renda, destaca Leite, da TAG. É o caso dos Certificados de Recebíveis Imobiliários e do Agronegócio (CRIs e CRAs), Fundos de Investimento em Cadeias Agroindustriais (Fiagros) e fundos de infraestrutura.

Em papéis investment grade é possível encontrar boas empresas pagando uma taxa de CDI mais 2,8%, com prazo de seis meses a um ano – o que, segundo Leite, é interessante para o carrego.

“Houve uma abertura de spread e hoje bons papéis estão negociando com taxas interessantes. Mas estamos falando de crédito, o que exige uma pulverização por parte do investidor”, alerta.

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Dolle, da XP, lembra que no início do ano o caso Americanas (AMER3) elevou a aversão ao risco do mercado, resultando em um aumento dos spreads de debêntures, chegando a CDI + 3%. Hoje, as taxas estão em torno de 2,7%, o que ainda é atrativo, segundo ela.

Apesar da melhora recente no sentimento, a especialista recomenda cautela no momento de escolha dos papéis de crédito privado, com preferência por títulos de empresas com boa qualidade de crédito e de preferência com prazos de até cinco anos.

“O cenário macro continua punitivo para empresas que não estavam preparadas para segurar juros em patamares mais elevados”, diz.

Ações

Embora as perspectivas de bancos de investimento apontem para um cenário positivo para a bolsa brasileira nos próximos meses, gestores de recursos têm optado por esperar para ver.

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Na XP Investimentos (XP), a avaliação é de que o Ibovespa ainda não incorporou no preço todo o corte de juros esperado pelo mercado.

Do ponto de vista do valuation, a bolsa brasileira continua barata mesmo após o rali recente, defende Fernando Ferreira, estrategista-chefe da XP. O Ibovespa é negociado a 8,2 vezes o lucro – um desconto de 20% em relação à média histórica e de 50% ante os mercados globais.

A casa vê o índice aos 130 mil pontos no fim do ano e há espaço para revisões para cima nas projeções caso as taxas de juros de longo prazo continuem caindo e as perspectivas de lucro das empresas melhorem, disse ele durante coletiva com a imprensa recente.

Já o Santander (SANB11) vê o índice negociado aos 140 mil pontos em junho de 2024, o que implicaria upside de 15% ante o fechamento da segunda-feira, 24 de julho.

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Com um olhar otimista para a bolsa brasileira nos próximos 12 a 18 meses, Aline Cardoso, head do research e estrategista de ações do Santander, diz esperar daqui para frente uma expansão dos múltiplos, com o corte dos juros incorporado nas projeções de lucro das empresas, além de revisões para cima de crescimento dos lucros.

Apesar de ver o rali atual como sustentável, Cardoso defende que ele não deverá ser em linha reta, mas volátil por conta das novas emissões de ações e follow-ons.

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Ibovespa subiu quase 8% no primeiro semestredfd

Dentre os setores preferidos na bolsa brasileira para o segundo semestre, Cardoso cita os de varejo, transporte, tecnologia e construção, que devem se comportar melhor em um ambiente de juros mais baixos.

Locadoras de veículos e operadoras de ferrovias, que historicamente têm uma alavancagem acima da média, também poderão se beneficiar.

Para as commodities, a avaliação de Cardoso é de que a celulose e o minério de ferro deverão performar de lado, dada a recuperação mais lenta do que o esperado na China, enquanto o petróleo deverá continuar a impulsionar nomes como Petrobras (PETR3; PETR4) e PetroRio (PRIO3).

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Na Vita Investimentos, Mello conta que tem carregado desde 2021 uma fatia pequena alocada em ações e que está esperando o Banco Central cortar de fato os juros para poder ficar mais otimista com a classe na carteira dos clientes – embora reconheça que possa ficar de fora do rali inicial.

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A cautela também é vista na TAG Investimentos, com a avaliação de que a queda dos juros deverá ser feita em uma baixa velocidade e que a taxa terminal será acima do esperado pelo mercado. “Não enxergo o rali que a bolsa teve como sustentável, principalmente por conta do cenário mais desafiador”, diz Leite.

Enquanto o cenário externo permanece desafiador, no Brasil o gestor destaca que os problemas continuam. “O arcabouço fiscal afastou o risco de calda, mas está longe de endereçar os problemas fiscais, justamente por permitir gastos maiores. No fim, dependemos muito do humor do mercado externo.”

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Fundos multimercados

Os fundos “camaleões” do mercado financeiro, que conseguem investir em diversas classes de ativos, de renda fixa a ações e câmbio, também fazem parte da alocação de gestoras de patrimônio para os próximos meses.

Leite, da TAG, diz gostar dos multimercados para composição da carteira, mas destaca a necessidade de paciência do investidor para poder rentabilizar.

Na Vita, as carteiras voltaram a tomar mais risco em fundos multimercados e sistemáticos. A estratégia do family office é escolher poucos e bons fundos, fazendo um rebalanceamento três vezes por ano, conta Mello.

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Para escolher o melhor fundo, Sigrid Guimarães, sócia-fundadora e CEO da Alocc, reforça a análise qualitativa (quem é o gestor, qual a estratégia do fundo e qual o tipo de risco que o fundo corre).

Para a análise de desempenho, janelas maiores, de no mínimo três anos, são recomendadas, lembrando que retorno passado não é garantia de retorno futuro.

Fundos imobiliários

Após uma cautela no início do ano, em meio às preocupações com juros elevados, aumento da inadimplência e modelos de trabalho híbrido, que afetaram os escritórios, os fundos imobiliários se recuperaram nos últimos meses em meio à expectativa de corte da Selic.

O Ifix, índice que acompanha os principais FIIs listados em bolsa, subiu 10,05% no ano até junho, ante variação de 6,61% do CDI no período e alta de 7,6% do Ibovespa.

Para Larissa Nappo e Marcelo Potenza, analistas de fundos imobiliários do Itaú BBA, a maior “pernada” de valorização em torno da temática de juros já aconteceu.

Com isso, para o segundo semestre, uma análise micro dos fundos deverá ganhar mais relevância, com o monitoramento de indicadores como taxa de vacância, melhora nos preços revisionais de aluguel e rendimento dos FIIs.

FIIs de escritórios estão entre os mais descontados do Ifixdfd

Diante de um cenário ainda volátil, a dica de ouro é diversificação. No Itaú BBA, cerca de 40% da carteira de FIIs está nos chamados “fundos de papel”, que têm na carteira papéis de renda fixa, como CRIs.

O restante é dividido entre fundos de galpões logísticos, lajes corporativas, renda urbana e shopping centers.

“Já vimos em relação ao P/VPA um movimento de recuperação, mas ainda há espaço para um upside das cotas a essa métrica, porém com uma ‘puxada’ mais cautelosa”, diz Nappo, se referindo ao índice que mede quanto os investidores estão dispostos a pagar pelo patrimônio líquido dos FIIs.

Alocação internacional

Para fechar as “caixinhas” de alocação, os gestores destacam a importância de uma diversificação geográfica e de moeda.

Um efeito tardio do efeito monetário nas economias desenvolvidas e uma inflação persistente seguem como ventos contrários no cenário internacional.

Apesar disso, a visão de que o ciclo de aperto monetário do Federal Reserve possa estar chegando ao fim, somada ao ganho de produtividade no longo prazo com a inteligência artificial (IA) pode contribuir para um momento mais construtivo com ações globais, defende Daniel Martins, CEO da Geocapital.

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Após o rali em Wall Street, puxado principalmente por grandes players do setor tech, o gestor diz ver oportunidade de uma gestão ativa, de forma a se posicionar nas empresas que ainda não surfaram a alta, mas que também podem se beneficiar, mesmo que indiretamente, do cenário.

Algumas das principais empresas que compõem os portfólios da gestora são Berkshire Hathaway, Alphabet (GOOGL), que tem se beneficiado com a IA, e Visa (V), que ganha espaço, segundo Martins, com o crescimento dos meios eletrônicos como forma de pagamento.

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Mariana d'Ávila

Editora assistente na Bloomberg Línea. Jornalista brasileira formada pela Faculdade Cásper Líbero, especializada em investimentos e finanças pessoais e com passagem pela redação do InfoMoney.