Vinícolas europeias se antecipam a acordo Mercosul–UE e ampliam aposta no Brasil

Segundo o diretor da feira Wine South America, Marcos Milanez, cresceu o interesse de produtores da Europa em entrar no mercado brasileiro, o que favorece o trade de forma geral, mas pressiona as empresas brasileira por competitividade

Chianti grapes hang on vines at a vineyard, owned by Marchesi Antinori SpA, around San Casciano in Val di Pesa, Tuscany, Italy on Friday, Oct. 7, 2016. CNH Industrial controls more than 50% of the niche wine-machination market, with its New Holland Braud unit selling more than 400 grape harvesters every year. Photographer: Marc Hill/Bloomberg
Por Daniel Buarque
09 de Janeiro, 2026 | 05:00 AM

Bloomberg Línea — Enquanto o consumo de vinhos enfrenta estagnação ou retração em mercados tradicionais, o Brasil se destaca cada vez mais no radar de produtores internacionais como uma das poucas histórias de crescimento relevante no setor.

A expectativa em torno do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia tem acelerado esse movimento, com vinícolas europeias que já buscam espaço no país antes mesmo da assinatura do tratado.

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O interesse antecipado tem ficado evidente na preparação da Wine South America, uma das principais plataformas de negócios do setor no Brasil, que será realizada de 12 a 14 de maio em Bento Gonçalves, na Serra Gaúcha.

Segundo Marcos Milanez, diretor do evento, a procura de produtores europeus cresceu nos últimos meses, impulsionada pela percepção de que o Brasil pode se tornar um mercado mais competitivo para vinhos importados caso o acordo seja de fato concretizado, como é a expectativa consensual.

“Estamos recebendo mais consultas de vinícolas da União Europeia com interesse em expor”, disse. “Já é fato que vamos ter uma participação maior de vinícolas da Europa, muito de olho nessa abertura de mercado”, disse Milanez em entrevista à Bloomberg Línea.

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Muitas das vinícolas europeias vão participar junto com conglomerados regionais. É o caso da associação Italian Trade Agency, da Vini Portugal, da CVR Lisboa e da comunidade de Vinhos Verdes, que já confirmaram presença no evento.

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O movimento ocorre em um contexto em que o Brasil consolida sua posição como maior mercado consumidor de vinhos da América Latina.

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“Com os cenários internacionais bem confusos, principalmente no mercado americano, as vinícolas viraram os olhos para a América Latina e, principalmente, para o Brasil”, afirmou Milanez.

Os dados mais recentes confirmam que o mercado brasileiro segue em expansão, embora em ritmo mais cauteloso. Números da consultoria Ideal BI citados pelo executivo apontaram crescimento em torno de 6% em 2025 em relação ao ano anterior.

“É um dado importante, mas o setor fica preocupado com o que vai vir agora em 2026”, disse Milanez.

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Parte dessa preocupação vem do ambiente macroeconômico. Juros ainda elevados encarecem o financiamento de estoques e pressionam margens, especialmente entre importadores. “Com a taxa Selic muito alta, o custo de ter estoque é muito caro, e isso aperta cada vez mais a lucratividade”, explicou.

Do lado dos produtores nacionais, o início de 2025 trouxe um alívio pontual, com uma safra considerada excepcional em volume e qualidade.

“Muitos chegaram a comparar com a safra histórica de 2020”, disse Milanez. Esse ganho agronômico, no entanto, não elimina desafios estruturais.

Concorrência assimétrica

A possível entrada mais agressiva de vinhos europeus tende a intensificar um desequilíbrio já existente no mercado brasileiro. Hoje, cerca de metade do preço final de uma garrafa produzida no país corresponde a impostos, segundo o diretor da Wine South America. “Chega perto de 50% do valor da garrafa.”

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O cenário pode se agravar com a reforma tributária em discussão, que inclui a possibilidade de enquadrar o vinho no chamado “imposto do pecado”. “Isso tende a aumentar a carga e reduzir ainda mais a competitividade das vinícolas nacionais”, disse.

Ao mesmo tempo, produtores europeus contam com subsídios em seus países de origem, apontou o executivo. “Eles têm apoio dos governos e acabam tendo uma concorrência um pouco desleal com as vinícolas nacionais.”

Diante disso, produtores brasileiros têm se articulado para pleitear mecanismos de compensação. “O setor entende que precisa de alguma política para enfrentar de igual para igual os produtores internacionais.”

O acordo entre Mercosul e União Europeia aparece, dessa forma, como um divisor de águas com impacto em geral positivo para o trade de vinhos, mas com pressão sobre produtores locais.

Para importadores, a redução de tarifas pode ampliar o portfólio e estimular o consumo. Para produtores locais, no entanto, o risco é perder espaço sem medidas que equilibrem o jogo.

“Por um lado beneficia importadores, por outro pode prejudicar os produtores nacionais. Precisa existir uma política para balancear esses dois lados”, disse Milanez.

Termômetro do mercado

Criada em 2018, a Wine South America se consolidou como um dos principais pontos de entrada para produtores estrangeiros interessados no Brasil.

Organizada pela Milanez & Milaneze, do grupo italiano Veronafiere, responsável pela Vinitaly, a feira replica no país o modelo de negócios adotado em Verona há mais de cinco décadas.

Na última edição, o evento reuniu 430 marcas expositoras e gerou mais de R$ 100 milhões em negócios, a partir de cerca de 2.000 reuniões estruturadas entre produtores e compradores. Para 2026, a expectativa é a de crescimento de aproximadamente 10% no número de expositores.

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Hoje, cerca de 70% das marcas presentes são nacionais, e 30%, internacionais. Dentro do grupo estrangeiro, a União Europeia já responde por cerca de dois terços, proporção que deve aumentar. “Com as novas adesões, acreditamos em um crescimento maior de vinícolas europeias na próxima edição”, disse Milanez.

Além de compradores brasileiros de todas as regiões, a feira também tem atraído importadores internacionais, em iniciativas realizadas com apoio de entidades como a ApexBrasil. Na edição mais recente, houve presença de compradores de 19 países.

Tendências em consolidação

Apesar das incertezas, algumas tendências de consumo seguem se fortalecendo no mercado brasileiro. Vinhos brancos, espumantes e rótulos sem álcool ganharam espaço nos últimos anos e devem continuar a avançar.

“O crescimento de vinhos sem álcool não é uma moda passageira. É algo que acompanhamos no mercado internacional há pelo menos cinco anos”, disse Milanez.

Segundo ele, produtores nacionais e estrangeiros têm ampliado lançamentos com menor teor alcoólico para atender a mudanças no comportamento do consumidor.

Outro movimento relevante é o aumento da participação feminina no consumo. “As mulheres hoje são o principal público consumidor de vinhos, e não só de brancos e espumantes. Elas também lideram o consumo de tintos”, afirmou.

Esses movimentos ajudam a sustentar a expansão do mercado, mesmo em um ambiente de maior pressão econômica.

Para Milanez, o Brasil segue como uma aposta estratégica no mapa global do vinho, mas entra em uma fase mais complexa.

“O mercado continua crescendo, mas os desafios estão mais claros. O próximo ciclo vai exigir mais estratégia de todos os lados.”

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Daniel Buarque

Daniel Buarque

Editor-assistente