Bloomberg Línea — Bloqueios de tratores em áreas turísticas de Paris, na Champs Elysées e no Arco do Triunfo, se consolidaram como a imagem dos protestos do agronegócio francês contra o acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia.
O agro brasileiro, enquanto isso, comemorou a aprovação do pacto entre as duas regiões e é apontado como um dos maiores beneficiados.
Mas nem todo o agronegócio do Brasil. Para quem produz vinho, a frente industrial parece pesar mais do que o do campo, e o sentimento é o de preocupação junto com cobrança por apoio do Estado - como acontece na Europa.
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A entrada de vinhos europeus no Brasil com redução ou eliminação de tarifas, como prevê o acordo de livre comércio, tende a pressionar ainda mais a indústria nacional em um mercado já marcado por assimetrias competitivas, subsídios no exterior e alto grau de informalidade na cadeia de bebidas alcoólicas.
Essa é a avaliação de Maurício Salton, diretor-presidente da vinícola Salton, maior produtora e exportadora de espumantes do país, que defende que o governo brasileiro precisa cumprir a promessa feita ao setor de criar mecanismos de compensação ao setor vitivinícola.
“Não teria como lidarmos com uma situação em termos paritários diante do nosso custo Brasil se o governo também não for um pouco sensível a essa questão de mercado”, disse Salton em entrevista à Bloomberg Línea.
Segundo o executivo, a indústria nacional em geral não se opõe ao acordo de livre comércio, mas precisa de condições mínimas para competir em um mercado que passaria a importar ainda mais.
Sem isso, o acordo que beneficia parte do agronegócio brasileiro poderia impor custos relevantes a um segmento que combina produção agrícola e industrialização.
Salton disse que acompanha a negociação entre os dois blocos há anos e que se envolveu diretamente nas discussões setoriais desde 2017. Segundo ele, o setor participou de conversas com o governo para apresentar impactos sobre a cadeia produtiva da uva e do vinho.
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A avaliação central levada ao governo, explicou, é que os países europeus operam em um contexto de apoio estatal e de infraestrutura produtiva que não se replica no Brasil.
“Os países europeus produtores de vinho e espumantes contêm diversos subsídios para a questão de custeio de matéria-prima”, disse. O desenho inclui, segundo ele, políticas para gestão de estoques de safra e incentivos que reduzem custo e aumentam a capacidade de investimento.
No caso brasileiro, Salton apontou uma combinação de fatores que, segundo ele, reduz a competitividade da indústria local. Um deles é o custo de modernização industrial, em grande parte dependente de fornecedores europeus.
“Essa tecnologia hoje é fundamentalmente italiana, francesa e alemã”, disse, ao citar equipamentos de elaboração e engarrafamento.
No cenário corrente de real desvalorizado, afirmou, a comparação com produtores que operam na própria moeda amplia a distância competitiva do ponto de vista de grau de automação e de atualização do parque industrial.
O executivo mencionou ainda que, no Brasil, há particularidades regulatórias e estruturais que aumentam o custo e o risco do negócio, como o fato de o preço referencial da uva ser definido como commodity.
Em sua visão, esse conjunto de limitações não deveria ser ignorado em um acordo que tornaria a concorrência europeia mais agressiva no mercado doméstico.
O risco, segundo Salton, não se limita ao segmento já dominado por importados. Hoje, o mercado brasileiro de vinhos finos é majoritariamente composto por produtos estrangeiros, com uma proporção de “80-20”, afirmou.
A preocupação, disse, é que vinhos europeus passem a competir com ainda mais força também em categorias mais populares, inclusive vinho de mesa, hoje um dos pilares do consumo nacional.
“Alguns vinhos europeus se tornariam muito competitivos no Brasil”, disse.
E isso, por tabela, criaria um cenário “paradoxal”, em que produtos importados ganhariam espaço justamente em faixas de preço em que o vinho brasileiro historicamente se especializou por necessidade de mercado.
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O executivo traçou um paralelo com o acordo entre Brasil e Chile.
“Quando o Brasil fez o acordo bilateral com o Chile, houve uma isenção súbita das taxas de importação e rapidamente o Chile dominou o mercado”, disse. A lógica, afirmou, foi econômica, com preços competitivos e rápida captura de participação.
Na visão de Maurício Salton, o desenho de compensações ao setor vitivinícola chegou a avançar em ciclos anteriores de negociação, com a elaboração de uma minuta de projeto de lei voltada a modernização e competitividade.
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A proposta, disse, foi pensada para permitir investimentos e reduzir a distância frente a concorrentes europeus, especialmente diante de fatores estruturais como informalidade e fragilidade de controle de fronteiras.
Ele afirmou que houve uma “sinalização” do governo na época e que a estrutura estaria pronta para ser acionada quando o acordo se tornar efetivo. “Nós partimos do pressuposto de que o governo honre com a sua palavra”, disse.
Além da concorrência formal, Salton apontou que o mercado brasileiro convive com um problema adicional que distorce preços e reduz competitividade: o contrabando e a falsificação de bebidas.
“Estima-se que hoje o mercado de bebidas alcoólicas no Brasil seja formado por cerca de 30% que venha ou de contrabando ou de falsificação”, disse.
Segundo ele, a dimensão econômica é relevante e ajuda a explicar o peso do desafio para empresas que operam dentro da legislação e enfrentam carga tributária elevada, custos logísticos e restrições de capital.
Por outro lado, ele disse acreditar que o trabalho feito ao longo dos últimos anos tende a reduzir o risco de que o segmento fique sem proteção.
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