Bloomberg Línea — Existe uma estreita relação comercial entre o Brasil e o Alentejo, maior região produtora de vinhos de Portugal.
O mercado brasileiro é o maior comprador estrangeiro dos vinhos alentejanos, enquanto o território português é a região isolada da qual o Brasil mais importa vinho, segundo dados referentes a 2025 da consultoria Ideal B.
“O Brasil é de longe o mercado mais importante do Alentejo na exportação”, afirmou Luís Sequeira, presidente da Comissão Vitivinícola Regional do Alentejo (CVRA), em entrevista à Bloomberg Línea.
Apesar de barreiras de entrada, como tarifas elevadas e exigência de pagamento antecipado no processo de compra e venda, a presença no país é considerada sólida.
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Esse peso não se explica apenas pelos números gerais. As principais vinícolas da região já reposicionaram suas estratégias para tratar o Brasil como um mercado prioritário, cada uma com motivações distintas, mas convergentes.
A Carmim, maior produtora do Alentejo, envia cerca de 1 milhão de garrafas por ano ao Brasil, cobrindo desde rótulos de entrada até vinhos do topo.
“Estamos com cerca de 25% da produção em exportações. O Brasil é o nosso mercado mais importante”, disse o enólogo-chefe, Rui Veladas.
Ele explicou que o estilo clássico da região ajudou a construir essa relação. “Os lotes com uvas trincadeira, aragonês e castelão dão vinhos com taninos dóceis e fruta exuberante, exatamente o perfil de que o Brasil gosta muito.”
Entre os produtores de perfil mais boutique, a leitura é semelhante.
António Maçanita, responsável pela vinícola Fita Preta, no Alentejo, além de projetos nos Açores, no Douro e no Porto Santo, afirmou que o país passou de irrelevante a central em pouco tempo. “A transformação do Brasil em dez anos é inacreditável. O nível dos sommeliers, o interesse pelo vinho, tudo mudou”, disse.
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Na Quinta da Plansel, a relação é antiga e construída a partir do trabalho de Dorina Lindemann no país. “A nossa marca já é conhecida no Brasil. A minha mãe viajava sempre ao país”, afirmou Júlia Lindemann, diretora de marketing e vendas.
Atualmente, a vinícola executa sua segunda encomenda recente para o país. “O povo brasileiro está muito empenhado nos vinhos. Já pede a carta, pergunta a casta, quer entender o que está a tomar. O Brasil é um mundo de vinho”, disse.
Produtores focados em vinhos de alta gama também enxergam no país uma plataforma estratégica.
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A Herdade do Freixo, conhecida pela adega subterrânea icônica, trata o Brasil como mercado-chave dentro de sua nova fase de expansão internacional.
“O Brasil é um mercado prioritário para os nossos vinhos”, afirmou a diretora comercial Carolina Tomé, que citou uma demanda crescente por vinhos de perfil mais fresco e narrativas de terroir.
“Há uma atenção especial para vinhos com história, com arquitetura, com origem clara. O Brasil acompanha isso com muita sensibilidade”, disse.
Na Herdade do Rocim, referência global em vinhos preparados em ânforas de barro e exportados para 52 países, o Brasil aparece entre os mercados que absorvem com mais naturalidade a tendência por vinhos mais leves e precisos.
“Há uma procura crescente por vinhos mais frescos, minerais, sem madeira. O consumidor brasileiro está muito alinhado com essa tendência global”, afirmou o CEO Pedro Ribeiro.
Mesmo projetos pequenos e artesanais encontram nichos sólidos no país. Hamilton Reis, da Natus, explica que sua produção não é escalável, mas dialoga com o público brasileiro interessado em métodos ancestrais.
“O vinho de talha não é industrializável. Quem procura esse tipo de vinho quer pureza”, disse. E completa: “Há um público muito atento a isso no Brasil, de quem entende o que fazemos aqui”.
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Para outras vinícolas, como a Herdade do Sobroso, o Brasil surge também pela via do enoturismo, impulsionado pelo fluxo de viajantes brasileiros em busca de experiências rurais e gastronômicas no Alentejo.
“O brasileiro valoriza autenticidade. É um público que volta e que recomenda”, disse Sofia Machado.
O Alentejo concentra 24% de toda a produção portuguesa e 20% do valor econômico gerado pelo vinho no país, segundo Sequeira. Em um plano estratégico de cinco anos, a região planeja crescer 41% e atingir 2,4 bilhões de euros em negócios totais.
Para isso, o aumento da exportação é imprescindível. Hoje, apenas 23% das vendas do Alentejo se destinam ao exterior, e há uma meta explícita de chegar a 45%–50%. “Para crescermos, o Brasil é absolutamente vital”, explicou Sequeira.
Acordo Mercosul–UE
A relação já consolidada pode se fortalecer ainda mais se o acordo entre o Mercosul e a União Europeia for formalizado, reduzindo as tarifas de importação aplicadas pelo Brasil.
Hoje, esses custos praticamente dobram o preço da garrafa entre a Europa e o consumidor brasileiro. “As taxas alfandegárias no Brasil andam à volta dos 100%, e os importadores são obrigados a pagar à cabeça”, disse Sequeira.
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Segundo ele, o acordo prevê redução gradual ao longo de anos. Não haverá corte imediato para zero, mas haverá previsibilidade e queda progressiva. Isso, por si só, muda a forma como as empresas portuguesas pensam o mercado brasileiro — e explica por que tantas delas estão ampliando presença no país agora.
Se as tarifas caírem, mesmo que lentamente, o Brasil tende a consolidar-se não apenas como o principal comprador do Alentejo mas como o principal motor da sua premiumização.
E o Alentejo terá no Brasil o palco para reforçar que é mais que uma região produtiva: é um território de tradição milenar, inovação técnica e ambição econômica.
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