Bloomberg — Desde pequena, Kailane Frauches se lembra da voz em sua cabeça que lhe dizia para cantar. “Era algo dentro de mim, como se Deus estivesse ali naturalmente”, diz de sua casa em uma cidade a uma hora de carro ao sul do Rio de Janeiro.
Hoje, aos 22 anos, Frauches é uma celebridade em ascensão da música gospel brasileira, um dos gêneros musicais mais difundidos e de crescimento mais rápido no país.
Com um contrato de vários anos com um dos principais produtores de música cristã, ela acumula 1,8 milhão de ouvintes mensais no Spotify, tem 2 milhões de seguidores no Instagram, e lota arenas do Rio à bacia amazônica com hinos a Jesus.
Frauches é apenas uma entre uma crescente congregação de novos talentos que lotam os bancos das igrejas e as playlists no Brasil.
Esses artistas emergentes são talvez os arautos mais reconhecíveis do que os brasileiros chamam, meio em tom de brincadeira, de “Geração Zesus” — devotos adolescentes e na faixa dos 20 anos que acreditam que Deus é “maneiro” e que a igreja é um porto seguro em um mundo incerto.
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Com suas vozes comoventes, letras devocionais e seguidores fervorosos, eles mantêm encantados os evangélicos cristãos, que se multiplicam rapidamente no país.
Esqueça o samba e a bossa nova, os sons suaves e cosmopolitas que fizeram do Brasil ser Brasil. O gospel é o gênero de música pop mais consumido no país depois do sertanejo, segundo a empresa de pesquisas Quaest.
Líderes do setor dizem que ele representa um quinto do mercado fonográfico brasileiro (streaming, royalties e mídia física), estimado em cerca de US$ 500 milhões, o nono maior do mundo.
Mesmo com o Carnaval deste ano em andamento, as congregações evangélicas se preparam para celebrar sua própria versão, sem álcool e misturando gospel com pop brasileiro.
Transição
O gospel também é a trilha sonora de um país em transição.
Impulsionando essa demanda está uma mudança histórica na sociedade que está remodelando a fé, a cultura e o poder.
Antes escassos e dispersos, evangélicos cristãos no Brasil triplicaram desde 1990, para 47,4 milhões. Como grupo, os evangélicos — termo para o amplo espectro de denominações protestantes — representam quase 27% da população.
A participação dos católicos, por sua vez, caiu de 90% para menos de 57%. Embora dados recentes do censo mostrem que o ritmo acelerado do protestantismo tenha diminuído, os evangélicos ainda estão a caminho de se tornarem a religião majoritária até 2049.
A crescente popularidade do evangelicalismo é sinalizada pelo entusiasmo cada vez menor da maioria católica e pelo conservadorismo crescente entre cristãos fundamentalistas.
O apelo tradicional do catolicismo também está diminuindo, à medida que fiéis gravitam em direção a igrejas iluminadas por luzes de néon, com sermões acelerados, louvores aos “valores familiares” e uma liturgia de salvação para os aflitos, como se a igreja fosse um “hospital de campanha”.
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Novo Brasil
O Brasil tornou-se o epicentro da “explosão do gospel” do século XXI, como o chama a autora e estudiosa de religião, a brasileira Magali Cunha.
É possível sentir essa vibe em qualquer domingo, e na maioria dos dias da semana, nas dezenas de milhares de “templos” evangélicos que se espalharam pelo país.
O número de igrejas evangélicas registradas tem disparado ano após ano, representando 71% dos mais de 124.000 estabelecimentos religiosos do Brasil — cada um deles uma verdadeira caixa de som de música devocional.
No final do ano passado, em Xerém, a comunidade semirrural onde Frauches cresceu, quase 1.000 fiéis lotaram a igreja da Assembleia de Deus para uma noite de oração e lágrimas, hinos exaltados, testemunhos de curas milagrosas e um vislumbre da celebridade de sua cidade.
Contralto autodidata, cujos hinos característicos variam de um sussurro a um crescendo, Frauches não teve formação musical formal. Ela começou durante o lockdown da pandemia, gravando vídeos caseiros e postando no Instagram, onde sua fama se espalhou rapidamente.
Sua mãe deixou o emprego de manicure e vendedora ambulante em 2023 para se tornar empresária em tempo integral de Frauches. Seu pai ainda trabalha como mecânico de bicicletas. A família se mudou recentemente para São Paulo, perto do aeroporto internacional de Guarulhos, para melhor conciliar os crescentes compromissos da carreira de Frauches.
Sentada com sua família nos rígidos bancos de madeira, ela quase poderia ter passado despercebida no culto de domingo — até que as luzes se apagaram e ela subiu ao palco. Vestindo um longo vestido bordô e com uma cascata de cachos no cabelo, Frauches cantou sobre sua jornada de menina do coral de sua cidade natal a diva gospel, transformando brevemente a sala de oração em um show pop.
Se a música cristã está dominando o palco nacional, é porque os brasileiros estão prontos para ouvir. Fora das igrejas, artistas gospel agora são atrações principais em locais seculares, de teatros a rodeios.
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Fernando Altemeyer, teólogo da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, acredita que, embora o crescimento protestante esteja perdendo fôlego, os católicos têm muito a aprender com os evangélicos.
“Nas igrejas pentecostais, especialmente nas periferias da cidade, você vê pessoas cuidando umas das outras e as chamando de ‘meu irmão’”, diz. “Isso cria laços comunitários que podem ajudar a resgatar pessoas da violência, do tráfico de drogas e da miséria.”
Fé e política
O futuro da fé no Brasil e na América latina parece cada vez mais protestante. E esse grupo em expansão representa uma oportunidade para a economia brasileira de US$ 2,2 trilhões.
Pesquisas recentes com consumidores começaram a captar como a guinada global na prática religiosa está remodelando costumes sociais e a cultura, e impulsionando a demanda em tudo, da moda às viagens.
Pesquisas de mercado mostram que, apesar de toda a sua diversidade, os evangélicos compartilham não apenas hábitos de culto, mas também preferências em roupas (elegantes, porém discretas), política (direita, centro-direita ), relacionamentos amorosos (“Tinder Gospel”), exercícios físicos (academias e treinadores cristãos) e influenciadores digitais.
Cerca de 58% dizem levar sua fé em conta ao fazer compras, enquanto 31% evitam marcas de empresas percebidas como “desalinhadas” com valores cristãos, segundo o estudo Gospel Power, de 2025.
Não é de admirar que quatro dos cinco maiores anunciantes do Rio, incluindo varejistas e concessionárias de veículos, promovam seus produtos e serviços na Rádio Melodia, a emissora FM totalmente evangélica que antes evitavam. Ou que, em 2023, a TV Globo, a maior emissora do Brasil, tenha estreado uma novela com temática evangélica, Vai na Fé, estrelada por uma cantora gospel em ascensão.
“Por que o gospel faz tanto sucesso?”, pergunta Adriana Barros, ex-cantora pop que se tornou empresária cristã. “Porque há sofrimento no Brasil, e o gospel é um bálsamo para a alma.”
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