Bloomberg — Em todo o mundo, as luzes da vida noturna se apagaram, de Nova York e Montreal a Londres, Berlim e Sydney. Até mesmo Las Vegas perdeu um pouco de seu calor após o expediente.
Mas São Paulo está criando um argumento global para ficar acordado até tarde.
Enquanto bares e clubes em todo o mundo lutam contra o aumento dos custos e um maior foco no bem-estar, a maior cidade do Brasil se inclina para a noite, especialmente em seu centro histórico. A região tem prosperado depois de um longo período em que os empresários e festeiros evitavam seus prédios abandonados e os onipresentes usuários de drogas.
De acordo com um estudo realizado em 2025 pela Universidade de São Paulo, 11,4 milhões de brasileiros com mais de 14 anos, 6,6% da população do país, já usaram cocaína ou crack.
São Paulo foi considerada o principal destino de vida noturna no ranking World’s Best Cities 2026 no final de novembro, e por um bom motivo. É uma cidade onde as pessoas ficam na rua até tarde sete noites por semana.
Os bares normalmente ficam abertos apenas até as 2h da manhã, e os baladeiros obstinados são conhecidos por manter as coisas animadas até o nascer do sol. E não apenas nos fins de semana.
A chave para o sucesso de São Paulo: os locais de eventos se adaptam ao amplo mix cultural da cidade, expandindo constantemente a definição de onde e o que podem ser as festividades.
Bares, festas e salões de jantar projetados para atrair os entusiastas da noite estão surgindo por toda a cidade - e em lugares inesperados, desde uma passagem subterrânea abandonada até uma antiga sede de banco.
Assumir um local abandonado tornou-se uma jogada cada vez mais popular em uma cidade em que os imóveis estão entre os mais caros da América do Sul.
De acordo com dados do QuintoAndar, o preço médio do aluguel em São Paulo era de R$ 69,50 por metro quadrado em 2025, sendo que os imóveis no bairro mais caro da cidade chegavam a R$ 143,50.
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Mesmo em locais onde não cabem mais de 15 pessoas, se houver espaço para um banco de bar ou um alto-falante, é provável que o ambiente se transforme em um ponto de encontro.
“São Paulo é, há muito tempo, uma das cidades com vida noturna mais ativa do mundo. O que se destaca agora é a crescente força criativa e adaptativa do setor”, diz Vinicius Bento, gerente de operações de negócios de alimentos e bebidas do Condessa Bar, que tem um ano de existência.
Esse local ganhou rapidamente uma reputação por seus drinques refinados e um cardápio que inclui dadinhos de tapioca, quadradinhos de queijo e carne assada.
O epicentro dessa transformação está no centro da cidade, no antigo distrito financeiro. O centro financeiro da cidade começou a migrar nos anos 90 para bairros mais elegantes e sofisticados, principalmente o Itaim Bibi.
Há alguns anos, outras empresas, incluindo operadoras de vida noturna, começaram a ocupar os espaços deixados, atraídas por aluguéis relativamente baixos e por uma onda de reformas governamentais destinadas a tornar a área mais segura e atraente.
“À medida que novos empreendimentos trazem mais moradores, combinados com os esforços da cidade para melhorar a segurança, restaurar fachadas e limpar espaços públicos, o centro da cidade tem potencial real para se tornar um centro comercial próspero em um futuro próximo”, diz a corretora de imóveis Ruth da Silva.
Não há melhor exemplo de como o centro da cidade mudou do que a antiga sede do Banco do Estado de São Paulo, a poucos passos da bolsa de valores brasileira.
Atrás de duas portas redondas de 16 toneladas, o Bar do Cofre agora abriga litros de vodca, uísque e Aperol em vez de dinheiro. O cardápio de bebidas do Bar do Cofre equilibra clássicos e originais da casa.
Os clássicos, como o fitzgerald, no estilo gin-sour, ficam ao lado de drinques de inspiração regional, como o amazonia, uma mistura perfumada de gim e néctar de goiaba. Os preços variam de R$ 30 a R$ 65. Há também um cardápio conciso de alimentos, incluindo o steak tartare servido com batatas fritas. Para a sobremesa, o biscoito quente com sorvete de baunilha é um dos favoritos do público.
Perto dali, sob os arcos ornamentados do Theatro Municipal de São Paulo, em estilo barroco e art nouveau, outro dos bares que se tornaram referência na cidade está escondido no porão.
Os visitantes são atraídos pela atmosfera sexy e descolada do Bar dos Arcos, com uma trilha sonora que varia de violinistas que retrabalham os sucessos de Amy Winehouse a DJs que tocam R&B e faixas clássicas brasileiras.
Os coquetéis não convencionais também são um atrativo. O poroso - uma mistura de Johnnie Walker Black Label coroada com mel e espuma de queijo azul - é um sucesso improvável, por R$ 49. Apesar de ter espaço para até 150 convidados, quase sempre há fila para entrar.
Em frente ao teatro, uma galeria subterrânea, abandonada por quase 50 anos, também voltou à vida. Agora é o Formosa Hi-Fi, um bar que atrai mais de mil fãs de música todos os fins de semana, enquanto os DJs tocam mixagens de vinil que vão desde Michael Jackson vintage até a banda de rock brasileira Legião Urbana.
A entrada do Formosa poderia ser facilmente confundida com uma estação de metrô, a não ser pelos seguranças que escoltam os convidados a carros de aplicativos.
A iluminação suave sobre as escadas de granito transforma a descida em parte da experiência. A espera parece quase intencional quando o espaço está lotado - como bônus, o cliente pode pedir bebidas nas escadas.
O bar oferece uma lista de coquetéis originais e ecléticos, e entre os pratos estão os pastéis e outros clássicos da comida caseira brasileira, como a galinhada, o ensopado de frango e arroz. A mousse de chocolate com cachaça é um item também bastante presente nas mesas.
As refeições custam em média R$ 70; as bebidas, cerca de R$ 40.
Os rooftops também fazem parte do cenário da vida noturna em expansão. O centenário Edifício Martinelli, que já foi a segunda torre mais alta do Brasil e abrigou a sede do governo e escritórios de partidos políticos, era o local favorito da alta sociedade de São Paulo.
Agora, seu 26º andar é um dos melhores lugares da cidade para apreciar uma vista de 360 graus do pôr do sol da cidade. O cardápio de drinques do bar Martinelli é clássico, com gim-tônica e caipirinhas como as principais pedidas. No 25º andar, uma popular pizza bar napolitana oferece lanches.
O bar é palco de uma programação rotativa de festas do circuito, e foi concebido não como um clube único, mas como um recipiente flexível para diferentes marcas de festas a cada fim de semana. Cada noite traz uma novidade diferente, de sets eletrônicos a ritmos brasileiros como o pagode.
À medida que a festa se estende até as 4h da manhã, a energia muitas vezes se espalha pelo terraço em estilo de vila toscana.
“A ideia é manter as ruas ativas dia e noite, impulsionando a vida noturna e recuperando áreas que estavam desertas há muito tempo, onde a insegurança havia florescido”, diz Fabio Floriano, sócio do grupo Tokyo, que gerencia eventos no Martinelli. Ele começou a investir na área em 2016.
Os dias do centro da cidade como uma opção econômica podem estar contados. Embora nenhum de seus distritos esteja atualmente entre as áreas mais caras da cidade, a revitalização em andamento está elevando os preços, mas isso provavelmente não impedirá as noitadas que continuam a animar o bairro, ou São Paulo em geral.
Há um investimento contínuo na maior cidade do Brasil, inclusive no edifício Martinelli, que está passando por uma reforma de 100 milhões de reais para ampliar os seus espaços de entretenimento.
“São Paulo nunca se cansará de bares e festas diferentes”, diz Floriano, “portanto, não há motivo para parar de investir em novas e divertidas festas”.
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