Enoturismo como atração: o plano do Alentejo para atrair 1 milhão de visitantes

Vinícolas como a Herdade do Sobroso e a Herdade do Freixo, entre outras, investem em hotéis e novas instalações para atrair um perfil mais amplo de visitante, interessado também na experiência, contam produtores à Bloomberg Línea

Enoturismo como motor econômico: como o Alentejo quer chegar a 1 milhão de visitantes de adegas
Por Daniel Buarque
30 de Novembro, 2025 | 08:03 AM

Bloomberg Línea — Sofia Machado e Filipe Teixeira Pinto não conseguiam esconder sua felicidade em recente dia neste mês de novembro.

Horas antes, eles haviam sido informados que a Herdade do Sobroso, do qual são donos, apareceria entre as 50 melhores vinícolas do mundo, segundo uma revista internacional.

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“É um prêmio muitíssimo importante para nós, uma distinção. Um reconhecimento do caminho que seguimos, da identidade que criamos para nos diferenciarmos, pois o mundo do vinho é um mundo extremamente competitivo”, disse Machado.

Essa diferenciação do Sobroso se dá pela transformação do enoturismo em um pilar do negócio quase tão relevante quanto o próprio vinho, um movimento ainda pouco comum na região, mas que tem ganhado força na última década.

O Alentejo tem recebido em torno de 200 mil visitantes em suas vinícolas, mas tem um plano de multiplicar o número para chegar a um milhão até o fim da década.

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A propriedade de 1.600 hectares opera duas empresas independentes, uma dedicada ao vinho e outra a um hotel boutique de perfil “monte alentejano”.

Construído a partir da recuperação de ruínas da herdade, o hotel tem estrutura de luxo e decoração pensada em todos os detalhes, com serviço de alto nível para entregar experiência de conforto aos visitantes - há um restaurante autoral, além de opções de passeios com safaris e até de balão pela propriedade.

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No total, os dois projetos são resultado de um investimento de 17 milhões de euros ao longo de 25 anos de trabalho - e acabam se interligando.

O vinho sustenta o lado agrícola do projeto com uma produção de 500 mil garrafas por ano (com preço médio de 6,50 euros); e a propriedade também, com um portfólio diversificado que inclui mel, azeite, geleias e infusões.

Enoturismo se torna motor econômico do Alentejo, que quer ter 1 milhão de visitantes

Já o turismo, explicou Machado, funciona como porta de entrada para novos consumidores. Os milhares de visitantes que passam anualmente pela propriedade conhecem os vinhos ali produzidos e levam essa experiência para casa.

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Todo o desenho do projeto, afirmam, foi pensado para unir autenticidade, identidade e profissionalismo, com o enoturismo funcionando como componente estratégico para diferenciar a marca em um mercado cada vez mais competitivo.

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“Sempre acreditamos que era importante diversificar, mas com tudo girando em torno do vinho”, disse Machado. “O enoturismo ajuda muito a posicionar a marca.”

Turismo agrícola

O exemplo da Sobroso deixa claro que o Alentejo decidiu que o futuro dos seus vinhos não será definido apenas nas garrafas mas também nas estradas, nos hotéis, nos restaurantes e nas salas de provas que começam a transformar a paisagem rural da região.

De uma atividade quase complementar há uma década, o enoturismo tornou-se um dos pilares da estratégia de crescimento, diversificação e premiumização do maior território vitivinícola de Portugal.

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“O ticket médio no enoturismo é altíssimo. O visitante compra vinhos mais caros, especialmente a Geração Z, que entra no universo do vinho por meio da experiência”, afirmou Luís Sequeira, presidente da Comissão Vitivinícola Regional do Alentejo (CVRA).

Enoturismo se torna motor econômico do Alentejo, que quer ter 1 milhão de visitantes

A ambição da região é, portanto, multiplicar o total de visitantes das vinícolas.

Segundo Sequeira, o Alentejo recebeu 1,89 milhão de turistas no último ano. Destes, cerca de 11% visitaram adegas.

O objetivo é que o total de turistas chegue a 4 milhões por ano e o índice de visitas a adegas chegue a 20%.

A meta exige mais adegas abertas, produtos turísticos de alto valor e uma cadeia de consumo que começa na prova e termina na exportação.

“Vamos chegar a essa meta de três formas: aumentando o número de vinícolas abertas, recebendo mais turistas e oferecendo experiências de maior valor agregado”, disse.

“Lisboa está saturada. O Alentejo está a uma hora [da capital] e é um mundo completamente diferente.”

Se o enoturismo ganha força como novo motor econômico do Alentejo, a Herdade do Freixo tornou-se outro dos símbolos do reposicionamento.

Com uma adega subterrânea icônica desenhada por arquitetos portugueses, a propriedade atrai visitantes que buscam experiências de alto padrão e paisagem preservada.

“Temos visitantes que vêm só pela arquitetura”, disse Carolina Tomé, diretora comercial da Freixo. “Outros vêm pela natureza, pela biodiversidade, e muitos pela experiência completa.”

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Com produção de cerca de 300 mil garrafas por ano, a Freixo acelerou investimentos no turismo, na gastronomia e na integração com o mercado brasileiro.

“Recebemos muitos turistas brasileiros que já conheciam os vinhos. O Brasil é um dos nossos focos principais”, afirmou.

O crescimento do enoturismo não corresponde apenas a visitas — ele está diretamente ligado à estratégia da Comissão Vitivinícola Regional do Alentejo de elevar o valor médio dos vinhos da região e reduzir a dependência de segmentos de entrada.

“O verdadeiro luxo hoje é viver experiências autênticas, com muito conforto, mas autenticidade”, disse Sofia Machado, da Herdade do Sobroso.

Para ela, a homogeneização do turismo mundial abriu uma oportunidade para projetos com identidade territorial forte.

“O mundo está ficando muito igual e, quanto mais viajamos, mais percebemos que são as experiências autênticas que ficam.”

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Daniel Buarque
Daniel Buarque