Inflação faz marmita substituir restaurante até para executivos da Faria Lima

Pesquisa mostra que alimentos mais caros levam a uma mudança de hábitos em todo o país, mesmo entre trabalhadores de alta renda, enquanto restaurantes relatam queda no movimento

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Bloomberg — A correria do almoço no Brasil está migrando dos restaurantes para os micro-ondas dos escritórios.

Em centros empresariais de São Paulo a Brasília, marmitas se tornaram uma cena cada vez mais comum, conforme os trabalhadores fazem fila nas copas para esquentar suas refeições enquanto restaurantes próximos registram menos movimento. O motivo não é saúde nem conveniência. É inflação.

Os preços dos alimentos pressionam os brasileiros de forma generalizada, mas as refeições fora de casa estão ficando ainda mais caras, forçando até trabalhadores de renda mais alta a repensar gastos cotidianos.

“Trago minha própria comida na maior parte da semana para economizar”, disse João Borges, assessor de investimentos da XP, em São Paulo. “É realmente uma decisão financeira. Onde eu trabalho, tudo é muito caro.”

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A economia da marmita revela um problema econômico e político mais amplo para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva às vésperas da eleição de outubro.

Com o desemprego próximo das mínimas históricas e o crescimento econômico superando as previsões, o Brasil parece estar melhor nos indicadores agregados do que na percepção dos consumidores diante dos preços no caixa do supermercado e nas contas do dia a dia.

Os preços dos alimentos têm sido o principal motor da inflação neste ano, impulsionados em parte pela guerra no Oriente Médio, que elevou os custos globais de fertilizantes e combustíveis. Apenas em maio, os alimentos ficaram 1,33% mais caros, mais que o dobro da inflação geral do período, de 0,58%.

E o cenário pode piorar. Eventos climáticos extremos ameaçam adicionar uma nova camada de pressão nos próximos meses, justamente quando as famílias já começam a reduzir gastos.

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Um forte episódio de El Niño é cada vez mais provável e deve “aumentar a pressão sobre a produção agrícola e manter os preços dos alimentos elevados nos próximos meses”, afirmou André Valério, economista sênior do Banco Inter.

Marmita

Embora muitos restaurantes ainda registrem movimento intenso no horário de almoço, esse pico tem ficado menor com os brasileiros de renda mais alta passando a levar comida de casa com mais frequência.

Nos 12 meses até abril, um aumento significativo no hábito de levar marmita foi registrado justamente entre os brasileiros da faixa de renda mais elevada, segundo uma pesquisa da consultoria de alimentação Galunion.

Cerca de 61% dos entrevistados da classe A afirmaram que estão levando refeições preparadas em casa com maior frequência — percentual semelhante ao observado entre trabalhadores de 18 a 24 anos.

Considerando todos os participantes da pesquisa, 58% apontaram a necessidade de economizar dinheiro como a principal razão para trocar restaurantes pela marmita.

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A marmita, por muito tempo associada à necessidade de economizar entre trabalhadores de baixa renda, está se tornando um ajuste que atravessa diferentes classes sociais — e um indicador discreto de como a inflação vem remodelando os padrões de consumo no Brasil.

Nos arredores dos escritórios de Brasília, os sinais dessa mudança são difíceis de ignorar.

Na Asa Sul, um dos principais centros comerciais da capital e onde estão sediadas instituições como a Caixa Econômica Federal, o Banco do Brasil e o Banco Central, donos de restaurantes afirmam que o movimento na hora do almoço diminuiu de forma perceptível.

“Os custos dos alimentos aumentaram bastante, e tentamos repassar esses reajustes da forma mais cuidadosa possível”, disse Anderson Chin, proprietário do restaurante Brazilian China. “Mas alguns clientes simplesmente deixaram de vir.”

Pressionados

Por trás dessa mudança está a crescente diferença entre o custo de comer em casa e o de fazer refeições fora. Nos 12 meses até maio, os preços da alimentação fora do domicílio avançaram 6,2%, bem acima da inflação oficial acumulada no período, de 4,72%, segundo dados do IBGE.

Aplicativos de entrega como iFood e 99Food também vêm aumentando a pressão sobre os restaurantes tradicionais, inundando consumidores com descontos, ofertas de cashback e promoções de frete grátis que, muitas vezes, tornam mais barato pedir comida do que sentar-se à mesa para uma refeição.

A confiança do consumidor enfraquecida também pesa sobre os gastos. Mais da metade dos brasileiros avalia a situação econômica atual como ruim, segundo pesquisa realizada pela AtlasIntel para a Bloomberg News em maio.

A nova realidade deixa muitos estabelecimentos com pouca margem de manobra.

Segundo uma pesquisa da Abrasel, associação que representa o setor de bares e restaurantes, cerca de 58% dos estabelecimentos reajustaram seus preços em linha ou abaixo da inflação ao longo do último ano, mesmo diante da contínua alta dos custos operacionais.

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A entidade estima que oito em cada dez restaurantes no Brasil fecham as portas antes de completar dois anos de atividade, um retrato das dificuldades enfrentadas pelo setor.

O dado acende um alerta para uma indústria que emprega mais de 3 milhões de pessoas em cerca de 650 mil estabelecimentos espalhados pelo país.

A inflação acumulada em 12 meses no Brasil está acima da meta de 3% desde 2020, quando a pandemia de Covid-19 paralisou a economia. Nos últimos meses, os preços voltaram a acelerar, mesmo com o Banco Central mantendo a taxa básica de juros em 14,5% ao ano para conter as pressões inflacionárias.

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De volta à Asa Sul, em Brasília, o Fogo de Lenha, restaurante por quilo que opera há mais de duas décadas, sente os efeitos dessa mudança de comportamento.

O proprietário, Leandro Rodrigues, afirma que o negócio está sendo pressionado dos dois lados: pela inflação mais alta e pela redução no número de clientes.

“Não há como repassar custos mais altos se você não está vendendo”, disse Rodrigues.

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