Acordo Mercosul-UE rearranja mercado de vinhos e beneficia importação de alta gama

Redução tarifária amplia margens e competitividade de produtos europeus, com impacto desigual entre segmentos; espumantes premium avançam e rótulos europeus ganham competitividade, enquanto produtores nacionais enfrentam maior concorrência

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Bloomberg Línea — O acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, que entrou em sua fase de implementação em 1º de maio, começa a reorganizar o mercado vitivinícola brasileiro antes mesmo de seus efeitos financeiros se materializarem por completo.

Importadores brasileiros revisam portfólio e aceleram negociações, enquanto produtores europeus reforçam a ofensiva sobre o país, de acordo com Felipe Galtaroça, CEO da consultoria Ideal.BI, especializada no setor, em entrevista à Bloomberg Línea.

Segundo o executivo, o impacto se dará em frentes distintas e em ritmos diferentes.

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Para os espumantes com valor igual ou superior a US$ 8 por litro, equivalente a US$ 6 por garrafa de 750 ml, e que atualmente chega ao consumidor no Brasil atualmente por cerca de R$ 150 (US$ 30), a alíquota de importação foi zerada de imediato.

Para os vinhos tranquilos (que não possuem gás carbônico), a redução será gradual ao longo de oito anos, mas o reposicionamento estratégico do mercado já está em curso. O setor encerrou 2025 movimentando R$ 21,1 bilhões, alta de 9% sobre 2024, segundo dados da própria consultoria.

A leitura macroeconômica de Galtaroça aponta um cenário favorável para quem traz vinho europeu ao Brasil. “A combinação entre desoneração tributária e valorização do real cria um cenário otimista para o importador brasileiro”, disse.

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Esse contexto, segundo ele, permite recompor margens historicamente espremidas por câmbio e inflação, e, ao mesmo tempo, oferecer preços mais competitivos ao consumidor, o que tende a impulsionar especialmente o consumo de itens de maior valor agregado.

A ressalva está na base do mercado. “O segmento de vinhos de entrada [que custam até R$ 50] continua pressionado pela perda do poder de compra e pelos juros elevados, que restringem o acesso ao crédito”, afirmou Galtaroça. Ou seja, o efeito virtuoso da redução tributária não chega de forma uniforme à prateleira mais barata.

O segmento que recebe a desoneração imediata é numericamente pequeno, mas relevante em valor. Os espumantes acima de US$ 8 por litro representam cerca de 6% do faturamento total dos importados no Brasil, e a categoria tem alta concentração: Itália, França e Espanha respondem por mais de 80% das vendas.

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É nessa fatia premium que a abertura tarifária se traduz em movimento de preço de imediato, com vantagem para Champagnes e produtos como Cavas e Crémants, que podem ganhar margem competitiva direta sobre concorrentes do Velho e do Novo Mundo.

Galtaroça também avalia o efeito do acordo sobre o produtor brasileiro, que ele divide em três camadas.

A primeira é a dos espumantes, segmento em que o setor nacional conquistou na negociação uma janela de 12 anos antes que a alíquota sobre similares europeus de entrada caia a zero.

“A proteção aos produtores nacionais mostrou-se altamente assertiva em um de seus principais segmentos: o de espumantes, no qual detêm 83% de market share”, disse.

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A segunda camada é a dos vinhos de mesa, produzidos com uvas americanas e híbridas, que respondem por mais da metade do volume vendido no país.

Para essa categoria, o impacto do acordo tende a ser nulo, segundo Galtaroça, em razão das características sensoriais do produto, marcado por alto residual de açúcar, e do vínculo cultural com o consumidor brasileiro.

A terceira camada é a mais delicada, e contraintuitiva. Nos vinhos finos, a produção nacional responde por apenas uma em cada dez garrafas vendidas no país. “Nesse cenário, a pressão de preços acirra a concorrência direta principalmente com os vinhos chilenos e argentinos”, afirmou Galtaroça.

A avaliação é que o produtor brasileiro de vinho fino, embora afetado pelo acordo, sente o aperto sobretudo no embate com os vizinhos sul-americanos, que hoje dominam o segmento e disputam o mesmo espaço de preço.

A reorganização de portfólio já em curso entre importadores sugere que esse rearranjo competitivo deve se consolidar bem antes do fim do ciclo de oito anos previsto para a redução total das tarifas, disse o executivo.