Bloomberg Línea — Três vinhos produzidos com a mesma uva, o mesmo processo de vinificação e em uma mesma região podem ter três sabores muito diferentes. A vinícola Don Melchor, que faz um dos principais ícones do Chile, tem atuado para explicar como a divisão do terroir mais amplo em pequenos sub-pedaços de terra (as chamadas parcelas) transforma a produção de cada uma delas em um ingrediente diferente que, juntos, fazem o premiado vinho da casa.
A Bloomberg Línea acompanhou o processo durante uma visita à vinícola em maio. Em um dia de frio com névoa cobrindo as vinhas, a vinícola mostrou os vinhos produzidos em diferentes partes da propriedade para mostrar este processo. Enquanto a bebida produzida na parcela de número 1 tem sabor marcante de frutas vermelhas, o lote número 3 tem mais frutas negras, e o de número 7 revela notas florais e de especiarias, por exemplo.
Após a degustação dos ingredientes, eles são combinados na frente do visitante, para mostrar de uma forma mais simplificada como é feito o vinho da casa.
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Este processo começou a se desenhar no início de 1997, quando, poucos meses depois de assumir a responsabilidade pela Don Melchor, o engenheiro agrônomo Enrique Tirado passou a percorrer a pé o vinhedo da vinícola em Puente Alto, no sopé da Cordilheira dos Andes, com papel e lápis na mão. O vinho era produzido desde 1987 a partir de um vinhedo manejado como uma unidade. O que ele via no campo não confirmava essa lógica.
“Caminhando pelo vinhedo, observando as plantas, percebi que ele mostrava diferenças, crescimentos distintos, vigores distintos, tempos de maturação distintos”, disse Tirado, hoje CEO e diretor técnico da Viña Don Melchor, em entrevista à Bloomberg Línea. “Havia diferenças maiores em cada parte do vinhedo, que não estávamos captando no vinho que fazíamos.”
O desenho feito à mão naquele ano deu origem a um mapa que hoje divide os 125 hectares do vinhedo em 151 microparcelas, áreas que são colhidas e vinificadas separadamente.
Quase três décadas depois, o método virou também produto. Em agosto de 2025, a vinícola lançou o DM/01, safra 2022, primeiro rótulo da série The Parcels, que a cada ano engarrafa separadamente parcelas.
A estratégia acompanha um movimento mais amplo no segmento de vinhos de alta gama. Produtores do Chile, da Argentina e da Europa passaram a destacar vinhos de parcelas específicas, em resposta a um consumidor que busca uma origem cada vez mais precisa.
A ideia já existia em algumas produções de regiões clássicas da França, onde o conceito de “climat” já tratava de características de um pedaço de terra menor dentro de um vinhedo, mas acabou se tornando uma ferramenta de especialização da produção e de marketing de forma mais geral no mundo.
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Na Don Melchor, ao desenho inicial seguiram-se estudos de solo, de clima e de crescimento das plantas, além de degustações de uvas no vinhedo e dos vinhos resultantes ao longo de várias safras. Em 2002, depois de cerca de cinco anos, a vinícola formalizou a divisão. O estudo de solos daquele ano, feito com o especialista Pedro Parra e o Institut National Agronomique Paris-Grignon, foi o primeiro do gênero no Chile.
As 151 microparcelas se agrupam em sete parcelas principais. Segundo Tirado, poucas mudaram desde então, por causa de alterações em alguns quartéis do vinhedo.
A lógica está ligada à composição do Don Melchor, baseado quase inteiramente em Cabernet Sauvignon. Em um vinho de uma só uva, a complexidade depende da diversidade de expressões dentro do próprio vinhedo, e cada parcela contribui com aromas, sabores e texturas distintos para a mistura final. “Para conseguir uma melhor expressão de todo um vinhedo, é preciso afinar cada uma de suas peças”, disse Tirado.
Tirado atribui o espaço para esse tipo de produto a uma mudança no comportamento do comprador de vinhos caros. “Cada vez mais, querem maior especificação, vinhos que provêm de um lugar muito preciso, muito determinado”, disse. Segundo ele, o mercado reúne hoje “um consumidor mais exigente, mais sofisticado, que quer provar vinhos que falam de um lugar”.
O Brasil ocupa posição central nessa estratégia. “É um dos mercados mais importantes para Don Melchor há 30 anos”, disse Tirado. A relação vai além das vendas no país, já que brasileiros estão entre os visitantes frequentes da vinícola em Puente Alto, a menos de uma hora de Santiago. “O consumidor brasileiro gosta de vinhos sofisticados, que expressam um lugar, que têm origem, uma história”, afirmou.
Limite traçado na taça
Levada ao extremo, essa crescente subdivisão do vinhedo em parcelas menores poderia correr o risco de chegar até mesmo à videira individual, já que cada planta tem um perfil próprio, disse o CEO. Segundo ele, entretanto, o critério adotado foi outro. “O limite é encontrar uma pequena área, zona que é homogênea”, explicou. “Todas as plantas de uma parcela vão produzir um vinho muito similar.”
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A definição de cada fronteira combina fontes diferentes. “Há três camadas de informação. Estudo de solo, estudo do vinhedo, do crescimento do vinhedo, e a terceira camada, mais importante, são os vinhos”, disse. Na prática, a divisão entre uma parcela e outra foi fixada pela observação e pela degustação.
O trabalho não é considerado encerrado depois de 35 colheitas. A vinícola segue estudando solo, clima e o comportamento da Cabernet Sauvignon, e Tirado disse que não há um ponto em que esse conhecimento possa ser dado como concluído.
A separação das parcelas tem um efeito direto na seleção. Todos os anos, entre 60% e 70% da produção das parcelas entra no Don Melchor. O restante, entre 30% e 40%, fica de fora.
Segundo Tirado, parte desse volume corresponde a vinhos de alta qualidade quando provados isoladamente, mas que não funcionam no conjunto. “Quando provávamos na mistura final do Don Melchor, havia uma quebra, não havia uma boa conexão entre esta parcela e o resto das parcelas”, disse.
Foi nesse espaço que nasceu a série The Parcels. Na safra 2022, a vinícola decidiu engarrafar separadamente o vinho da parcela número 1, a mais antiga do vinhedo, plantada em 1979 com seleção massal pré-filoxera em pé franco. Dela foram selecionadas as 3.000 plantas que deram origem à seleção massal usada pela vinícola. O DM/01 2022 tem 88% de Cabernet Sauvignon e 12% de Cabernet Franc e passou 15 meses em barricas de carvalho francês, 64% delas novas. Segundo Tirado, o vinho vem principalmente da parcela de número 1.
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O lançamento também teve um objetivo de comunicação. Críticos e consumidores que acompanham a marca já conheciam o conceito das parcelas, e a série passou a permitir que as partes que compõem o blend sejam provadas em separado.
Uma parcela por safra, sem calendário
A série não segue uma ordem predefinida. A cada ano, a vinícola pretende escolher a parcela que se destaca, conforme o clima e a maturação da temporada. “Todos os anos vamos ter uma nova parcela, não há uma ordem”, disse Tirado. A edição da safra 2023, segundo ele, virá da parcela número 5.
Um rótulo feito com vinho que não entrou no produto principal carrega o risco de ser lido como versão inferior e de disputar espaço com ele. Tirado rejeita essa leitura. “Não é um segundo vinho da marca, não existe uma primeira seleção e uma segunda seleção”, disse.
A diferenciação se apoia no volume reduzido e no perfil do comprador. “As parcelas também são edições muito pequenas em volume”, afirmou. Para Tirado, a série se dirige também a interessados e colecionadores, e não ao consumidor que substituiria uma garrafa pela outra. “O conhecedor de Don Melchor vai querer guardar as distintas parcelas”, disse.
A série também marca uma mudança no portfólio. O nome Don Melchor homenageia Melchor Concha y Toro, que fundou a vinícola Concha y Toro em 1883. Até 2019, o Don Melchor era o principal rótulo do grupo. Naquele ano, passou a ser produzido por uma vinícola independente dentro da holding, com direção própria, sob o comando de Tirado. A proposta, segundo ele, foi “dedicar toda uma equipe, um vinhedo à criação de um só vinho”. Até o lançamento do DM/01, o Don Melchor era o único rótulo da empresa, que tem estrutura própria de marketing, área comercial e distribuição.
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Tirado disse dedicar cerca de dois terços do tempo à parte técnica, no vinhedo e na adega, e um terço à gestão. O peso da comunicação cresceu depois que o Don Melchor chegou ao primeiro lugar do ranking anual da revista americana Wine Spectator. Em 2025, ele percorreu diversos mercados para divulgar o resultado. “Hoje Don Melchor pertence a outra divisão”, disse. O efeito prático é uma cobrança maior sobre qualidade, rótulo e forma de chegar ao consumidor. “É outra imagem à qual temos que responder todos os dias”, explicou.
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