Bloomberg — A American Bitcoin Corp. foi criada com base em uma ideia simples: que possuir e minerar bitcoins seria suficiente para gerar lucro.
Em vez disso, a empresa cofundada por Eric Trump está mergulhada em uma profunda crise. À medida que o bitcoin (XBTUSD) entrava em um mercado em baixa e a demanda por inteligência artificial disparava, os investidores passaram a preferir cada vez mais mineradoras capazes de reaproveitar sua infraestrutura para centros de dados voltados para IA.
⟶ Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.
A American Bitcoin (ABTC), porém, manteve sua estratégia de criptomoedas e viu suas ações despencarem mais de 95% em relação ao pico.
Isso eliminou mais de US$ 600 milhões do valor de mercado da participação de Eric Trump nos últimos 10 meses, de acordo com cálculos da Bloomberg, e forçou a empresa, nesta semana, a realizar um desdobramento de ações na proporção de 1 para 15 para manter sua cotação na Nasdaq. Na quarta-feira (8), o preço de suas ações atingiu o menor nível de todos os tempos.
Leia também: De Strategy à SpaceX: as 10 empresas com maiores reservas de bitcoin no mundo
Essa reviravolta ilustra exatamente com que rapidez os investidores perderam o interesse em empresas dedicadas exclusivamente às criptomoedas.
O sucesso não é mais determinado por quem consegue produzir mais bitcoin, mas por quem tem flexibilidade para monetizar sua eletricidade, terrenos e infraestrutura de computação.
Para a família Trump, as dificuldades da American Bitcoin ilustram a natureza volátil dos investimentos em ativos digitais da família.
Mesmo com o presidente Donald Trump tendo declarado pelo menos US$ 1,4 bilhão em ganhos com criptomoedas no ano passado em sua última declaração financeira, muitos investidores de varejo sofreram perdas à medida que os tokens afiliados a Trump e as ações da American Bitcoin despencaram.
Eric Trump detém cerca de 6% da American Bitcoin, segundo cálculos da Bloomberg, e atua como diretor de estratégia da empresa. A participação do assessor Donald Trump Jr. não foi divulgada.
Eric Trump, a Trump Organization e a American Bitcoin não responderam aos pedidos de comentários.
Leia também: Bitcoin perde apelo entre investidores de varejo e fica mais dependente de Wall St
Ironicamente, quando a empresa antecessora da American Bitcoin estreou na bolsa, ela afirmou que sua estratégia seria construir um portfólio de data centers.
A American Data Centers Inc., um empreendimento apoiado por Eric Trump e Donald Trump Jr., foi criada pelo banco de investimentos Dominari Holdings — assessorado por Trump — em fevereiro de 2025.
Eric Trump afirmou na época que isso era “crucial para o desenvolvimento da infraestrutura de IA nos Estados Unidos”.
Mas, apenas um mês depois, a empresa mudou de rumo, fechando um acordo para receber equipamentos de mineração de uma empresa chamada Hut 8 Corp. em troca de uma participação acionária e de um contrato de prestação de serviços exclusivo.
Em seguida, a empresa, renomeada como American Bitcoin, realizou uma fusão reversa com uma empresa de mineração já de capital aberto, a Gryphon Digital Mining Inc., e começou a ser negociada na Nasdaq no início de setembro.
O preço das ações atingiu seu pico cinco dias úteis depois, fechando na alta de US$ 139,65 em 9 de setembro.
Mudança para a IA
À medida que os preços das criptomoedas despencaram nos últimos nove meses, os investidores recompensaram outras mineradoras sediadas nos EUA por alugarem sua infraestrutura de computação para IA.
A Riot Platforms Inc., a Cipher Digital Inc., a MARA Holdings Inc. e a TeraWulf Inc. anunciaram acordos para expandir suas operações para data centers. Suas ações registraram alta média de mais de 60% neste ano, em comparação com uma queda de 77% da American Bitcoin.
“Todas as empresas que acompanho estão se voltando para a HPC (computação de alto desempenho)”, afirmou John Todaro, analista da Needham.
Mas a American Bitcoin permaneceu comprometida com uma estratégia de mineração e acumulação de bitcoins. Talvez ela não tenha muita escolha.
Os principais ativos da empresa são seus equipamentos de mineração e suas participações em bitcoins. A energia, suas instalações, a infraestrutura de hospedagem e as operações diárias de mineração são fornecidos pela Hut 8, proprietária majoritária da American Bitcoin, por meio de contratos de serviço exclusivos.
Isso deixa grande parte da flexibilidade em relação ao data center de IA nas mãos da Hut 8, que tem se inclinado para essa estratégia por meio de uma reformulação de marca voltada para a infraestrutura de energia e contratos de locação de data centers de IA no valor de bilhões de dólares. As ações da Hut 8 mais que dobraram este ano.
Em vez de tratar a mineração de bitcoin como um trampolim para a infraestrutura de IA, os executivos da American Bitcoin têm argumentado que a própria criptomoeda acabará por proporcionar os maiores retornos e que acumulá-la durante períodos de baixa criará mais valor do que realocar capital em outros setores.
A empresa também argumenta que a virada do setor para a IA poderia fortalecer sua posição ao longo do tempo. À medida que os concorrentes redirecionam energia e capital para data centers, menos máquinas permanecem dedicadas à segurança da rede de bitcoin, reduzindo a dificuldade de mineração e aumentando a quantidade de bitcoin disponível para aqueles que permanecem.
Assim, o crescimento da IA também pode oferecer uma chance de conquistar uma parcela maior das recompensas em bitcoin.
“Estamos observando centenas de megawatts provenientes da migração dos principais mineradores públicos para a IA”, afirmou o CEO Mike Ho durante a teleconferência sobre os resultados do primeiro trimestre da empresa. Isso “resultou em uma queda de cerca de 6% na dificuldade da rede neste trimestre”.
‘Aguente firme’
Várias empresas começaram a acumular bitcoins em seus balanços no ano passado, e a maioria de suas ações sofreu forte queda à medida que o preço da criptomoeda desceu.
A maior detentora desse tipo, a Strategy, de Michael Saylor, delineou planos para vender parte de seus bitcoins no mês passado, após anos prometendo não fazê-lo.
A American Bitcoin não planeja vender seus ativos, afirmou Eric Trump em um podcast recente, acrescentando que quaisquer motivos para fazê-lo teriam de ser “mais do que catastróficos”.
De fato, a empresa continuou a comprar a criptomoeda no mercado, adquirindo mais 500 na segunda-feira.
No primeiro trimestre, a empresa registrou um prejuízo operacional de US$ 118,2 milhões após ter reduzido o valor de seu estoque de bitcoins em US$ 117,2 milhões.
Muitos investidores acreditam que o preço do bitcoin está próximo da mínima deste ciclo. Se ele se recuperar, o foco da American Bitcoin na criptomoeda poderá eventualmente dar frutos, especialmente porque os concorrentes que mudaram de foco não conseguem retornar facilmente ao setor.
“Do ponto de vista da eficiência, tamanho e capacidade de produzir bitcoins, a empresa está muito bem posicionada”, afirmou Mark Palmer, analista da Benchmark. “A questão, é claro, é que o preço do bitcoin precisa subir para que o modelo de negócios funcione.”
Essa foi a mensagem que Eric Trump transmitiu em abril.
“Estamos vivendo o melhor período da história das criptomoedas”, disse ele na Bitcoin Conference 2026, em Las Vegas. “Aguentem firme, pessoal, apenas aguardem.”
-- Com a colaboração de David Pan.
Veja mais em bloomberg.com
Leia também
Fundo do poço? Bitcoin perde US$ 1,3 tri; veteranos alertam que pode cair ainda mais
ETFs de bitcoin caminham para saída recorde de US$ 4,1 bilhões em junho
Visa, Stripe e BNY lançam aliança para criar stablecoin aberta lastreada em dólar