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Por que a economia brasileira surpreendeu? Veja 7 visões sobre a alta do PIB

Produto Interno Bruto cresceu 0,9% no segundo trimestre frente ao primeiro e 3,2% nos 12 meses encerrados em junho. Resultado veio acima das previsões do mercado

A indústria extrativa, como a de mineração e de petróleo, foi um dos destaques do crescimento no segundo trimestre
01 de Setembro, 2023 | 02:05 PM

Bloomberg Línea — Com o Produto Interno Bruto (PIB) acima do esperado no segundo trimestre de 2023, com alta de 0,9% na comparação trimestral, analistas do mercado financeiro e economistas começaram a revisar para cima a previsão de crescimento do país neste ano. A taxa veio acima do esperado pelo consenso de mercado, que era de uma taxa de 0,3% ante o primeiro trimestre.

A última mediana das projeções, apontada pela pesquisa Focus do Banco Central, apontava um crescimento de 2,31% em 2023. Agora, os novos dados da atividade mostram que a economia deve crescer em torno de 3%.

Com os últimos números, a economia brasileira atingiu o patamar mais alto da série histórica, somando um valor corrente de R$ 2,651 trilhões no período. Nos 12 meses encerrados em junho, o PIB cresceu 3,2%.

O maior crescimento foi da indústria (0,9%), seguida pelo setor de serviços (0,6%). Já a agropecuária recuou 0,9%. Na comparação com o mesmo período de 2022, os três setores tiveram o seguinte desempenho: agropecuária com alta de 17%; indústria, de 1,5%, e serviços, de 2,3%.

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Economistas consultados pela Bloomberg Línea destacaram alguns pontos nos dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Economia e Estatística (IBGE): a resistência da economia do país ao alto patamar da taxa Selic, de 13,25% ao ano, e a força do agronegócio e da indústria extrativa.

Veja abaixo 7 comentários de economistas e instituições financeiras e suas expectativas para o crescimento do PIB ao fim de 2023:

Natalia Cotarelli e Matheus Fuck, do Itaú

Os economistas Natalia Cotarelli e Matheus Fuck assinam a análise macroeconômica do Itaú. Os analistas destacaram que o setor agropecuário veio acima das estimativas, mesmo com a queda trimestre a trimestre. Com o resultado, o banco vai revisar para cima o PIB, cujos cálculos apontam que o segundo semestre começou com um carrego estatístico de 3%. Até então, a previsão do Itaú era a de um crescimento do PIB de 2,5% neste ano.

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“Apesar de a queda do setor agropecuário no 2T23 ser menor que a esperada, após crescimento recorde no 1T23, o PIB ex-agro [que exclui esse setor] também surpreendeu positivamente, acelerando para 1,0% na variação trimestral no 2T23, de 0,4% no 1T23. A resiliência do mercado de trabalho e o estímulo fiscal impulsionaram o crescimento do período. Com esse resultado, a nossa projeção para o PIB deste ano (agora em 2,5%) deve ser revisada para cima”, apontaram em nota.

Rodolfo Margato, da XP Investimentos

O economista Rodolfo Margato apontou que setores pouco sensíveis à política monetária foram os tiveram desempenho positivo. No caso da agropecuária, apesar da queda trimestral, o dado comparativo anual mostrou alta de 17%. No caso da indústria, que cresceu em ambas as comparações, o setor extrativo também foi um destaque dado que é menos sensível aos juros altos.

“O setor de serviços veio em linha com as expectativas, mostrando aí um crescimento resiliente, ainda que com perda de tração. Todos os subsetores cresceram, o que indica um quadro de economia resiliente”, afirmou o economista.

Assim, a previsão do economista da XP é de que o PIB cresça em torno de 3%.

Alberto Ramos, do Goldman Sachs

Com o resultado do trimestre, o banco americano Goldman Sachs revisou a expectativa do avanço do PIB neste ano para 3,25%. Vale ressaltar que o banco tinha uma previsão de crescimento de 2,65%. Nesta semana, a previsão da mediana do mercado pelo Boletim Focus era de 2,31%.

“No futuro, esperamos que a atividade se beneficie de estímulos fiscais e parafiscais (transferências fiscais federais robustas para famílias de baixa renda com alta propensão a consumir), expansão da massa salarial real e declínio da inflação alimentar.”

“No entanto o impulso desvanecido da reabertura econômica, as condições monetárias e financeiras domésticas apertadas, os elevados níveis de endividamento das famílias, os baixos níveis de ociosidade, a moderação da criação de emprego e a reviravolta incipiente do ciclo de crédito devem gerar ventos contrários à atividade.”

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Sergio Vale, da MB Associados

O economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale, destacou que a economia crescerá 3% em 2023 mesmo com um segundo semestre estagnado. “A nossa expectativa passou de 2,5% para 3% no ano, e isso se no terceiro trimestre o crescimento for zero e, no quarto, de 0,2%. Então há espaço para surpreender.”

Sergio Vale também apontou como as commodities foram responsáveis pela alta no trimestre passado, ao levar consideração a indústria extrativa e a agropecuária.

“As commodities foram responsáveis por 50% do crescimento do primeiro semestre, sem falar no impacto do setor no restante da economia. Então no final acaba sendo um percentual até maior que 50%.”

“Quando olhamos esse resultado, a perspectiva é que, até o final do ano, ainda tenha esse impacto de commodities, mineração e petróleo. Mas, mais do que isso, temos a queda da inflação de alimentos - e aí há mais renda disponível para população - e o início de redução dos juros, com impacto mais para o final do ano.”

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André Perfeito, economista

O economista André Perfeito, ex-Necton Investimentos, ressaltou que 3% deve ser o patamar que o país deve crescer em 2023.

“O resultado foi fortemente influenciado pelo ‘Consumo das Famílias’, que subiu 0,9%, e este impulso sem dúvida é decorrente da elevação do rendimento médio real habitual, que vem subindo por causa da inflação sob controle e de medidas mais ligadas ao aumento da demanda por parte da administração federal. Vale notar a alta de 0,7% no ‘Consumo do Governo’ neste trimestre também.”

Este impulso ainda será sentido nos próximos trimestres, de acordo com Perfeito, o que explicará uma alta no PIB de ao menos 3% em 2023.

Os impactos positivos no mercado financeiro seriam principalmente sobre ações de empresas ligadas ao mercado doméstico no terceiro trimestre.

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Étore Sanchez e Guilherme Sousa, da Ativa Investimentos

Para Étore Sanchez e Guilherme Sousa, da Ativa Investimentos, a atividade em alta pode resultar em repique da inflação, já que há evidências de que a economia está menos sensível aos efeitos do aperto monetário feito pelo Banco Central. Assim, o ciclo de cortes na taxa Selic pode ser interrompido em período menos prolongado, a 10,50% ao ano, no segundo trimestre de 2024.

“Em linhas gerais, o número traz otimismo por si, mas está ainda longe de denotar um crescimento estruturalmente robusto da economia, visto que teve impulso altamente associado a itens básicos, enquanto os investimentos seguem deprimidos”, apontou a nota assinada pela dupla.

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A Ativa revisou o PIB de 2,2% para 2,7%, sob reflexo da resiliência da agropecuária. Sob influência do carrego estatístico, a perspectiva do PIB de 2024 também subiu, de 1,0% para 1,3%.

Gabriel Couto, do Santander Brasil

O Santander Brasil estimava um crescimento de 0,1% para o trimestre, uma das previsões mais baixas, inferior à mediana de 0,3%. O que resultaria em um PIB de 1,9% no fim de 2023. Com o os dados, no entanto, o banco colocou a previsão em revisão.

“O desempenho implica um carregamento de 3,1% para 2023. Portanto, nossa previsão de crescimento do PIB para 2023 de 1,9% está atualmente em revisão, com riscos inclinados para o lado positivo. Embora as condições financeiras continuem em níveis criticamente restritivos, os indicadores de atividade econômica têm mostrado alta resiliência em meio a um mercado de trabalho ainda apertado”, apontou o economista Gabriel Couto.

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Victor Sena

Victor Sena

Editor assistente na Bloomberg Línea. Formado em Jornalismo pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Especializado em cobertura de economia.