Bloomberg — O ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes enfrenta novo escrutínio sobre os vínculos com o Banco Master após a divulgação de mensagens de texto de Daniel Vorcaro, ex-presidente da instituição.
Quando a investigação sobre suspeitas de fraude avançava sobre o Master em novembro do ano passado, Vorcaro teria perguntado a Moraes se deveria deixar o Brasil, segundo mensagens obtidas pela Polícia Federal.
Poucos dias mais tarde, o Banco Central liquidou a instituição e as autoridades prenderam Vorcaro, dando início a uma crise que abalou as instituições e a elite política do país.
⟶ Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.
Investigadores federais recuperaram as mensagens que, segundo eles, foram enviadas por Vorcaro a um número pertencente a Moraes no âmbito da investigação.
Elas foram incluídas em documentos judiciais cujo sigilo foi retirado nesta terça-feira (1º) pelo relator do caso, ministro André Mendonça, após trechos vazarem para a imprensa local. O documento contém apenas as mensagens de Vorcaro e não mostra respostas.
Nem Moraes nem a defesa de Vorcaro responderam de imediato a pedidos de comentário. Após um vazamento em março de mensagens supostamente enviadas pelo banqueiro a Moraes, o ministro afirmou que os textos não haviam sido enviados para o telefone dele.
Leia também: Eleição caminha para ser um ‘espelho’ de 2022, diz Rafael Cortez, da Tendências
Os documentos judiciais, no entanto, colocaram Moraes novamente no centro de um caso que já havia ameaçado a credibilidade do STF, instituição poderosa da qual ele frequentemente se tornou um símbolo.
A divulgação também levou adversários do ministro, que ganhou projeção durante embates com o bilionário do setor de tecnologia Elon Musk e o ex-presidente Jair Bolsonaro, a renovar os pedidos para que ele deixe a corte.
“Estamos juntos sempre”, escreveu Vorcaro em uma das mensagens em 14 de novembro, acrescentando que “voce sabe que tenho gratidao da minha vida a você (sic)”.
Naquele momento, o banco enfrentava pressão crescente de investigadores que apuravam alegações de que a expansão acelerada da instituição havia sido construída com base em ativos e práticas fraudulentas.
Em 16 de novembro, Vorcaro perguntou em outra mensagem se Moraes achava que “existe alguma chance disso acontecer amanha de manha (sic)”, segundo os documentos judiciais.
No dia seguinte, a Polícia Federal prendeu Vorcaro no Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo, onde, segundo as autoridades, ele tentava fugir. Vorcaro negou essa acusação e qualquer outra irregularidade relacionada ao caso.
Leia também: Real Time Big Data: Lula e Flávio aparecem empatados no segundo turno com 44%
Moraes enfrenta questionamentos sobre os vínculos com o Banco Master desde novembro, quando o jornal O Globo publicou que um escritório de advocacia ligado à mulher dele, Viviane Barci de Moraes, havia firmado contrato com o banco.
O jornal também publicou que Moraes pressionou o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, para aprovar a aquisição do Master pelo Banco de Brasília (BRB), operação que acabou sendo barrada pelo regulador.
O processo inclui documentos que indicam que o ministro editou a versão final de um contrato entre Vorcaro e a mulher de Moraes, segundo a Polícia Federal.
O escritório Barci de Moraes afirmou em nota que a equipe de compliance consultou Alexandre de Moraes antes de aceitar o Master como cliente para verificar a existência de possíveis conflitos.
O escritório afirmou que não havia planos de representar o Banco Master perante o Supremo Tribunal Federal.
Moraes é há anos uma figura que divide opiniões no Brasil e desperta a ira de conservadores, que o acusam de censura em sua ofensiva contra as chamadas fake news nas redes sociais. O ministro teve papel central no julgamento que condenou Bolsonaro sob a acusação de planejar um golpe de Estado após a derrota na eleição de 2022 para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Flávio Bolsonaro, filho mais velho do ex-presidente e principal adversário de Lula na eleição presidencial de outubro, cobrou nesta terça-feira explicações de Moraes. O senador de 45 anos também enfrenta escrutínio sobre os próprios vínculos com Vorcaro após revelações de que buscou dinheiro com o banqueiro para um filme sobre o pai.
“São muitas acusações graves e que eu espero de verdade que ele esclareça”, disse Flávio a jornalistas no Senado. “Se ele não esclarecer e forem comprovadas essas suspeitas que estão sendo reveladas, ele não tem a menor condição de continuar sendo ministro do STF.”
-- Com a colaboração de Beatriz Reis, Martha Beck, Rafaela Duarte e Matheus Piovesana.
Leia também
Data centers ganham espaço na eleição no Brasil em contraste com resistência nos EUA