Bloomberg — O presidente do Brasil que iniciar o mandato em 2027 precisará agir rapidamente para apresentar um plano fiscal crível para estabilizar a dívida pública, ou corre o risco de estressar os mercados, segundo o ex-secretário do Tesouro Mansueto Almeida.
Mansueto, atualmente economista-chefe do BTG Pactual, afirmou que o mercado aceita que não haverá aprofundamento do tema fiscal na campanha, mas busca sinais de responsabilidade orçamentária.
“Se os candidatos reconhecerem que precisam resolver o problema fiscal a partir de 2027, mesmo que só sinalizando isso, o mercado já vai melhorar”, disse Mansueto à Bloomberg News em uma entrevista recente.
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Embora a estrutura fiscal criada pela equipe econômica do presidente Luiz Inácio Lula da Silva tenha imposto algum limite ao crescimento dos gastos públicos, ela não foi suficiente para estabilizar os níveis da dívida pública em um ambiente de juros elevados.
“O grande dilema em relação à política fiscal é que, se você perguntar a qualquer analista quando a dívida pública vai realmente começar a cair, ninguém sabe responder”, disse Mansueto.
A dívida pública deverá terminar 2026 em cerca de 81% do PIB, 10 pontos percentuais acima do início do atual mandato de Lula, segundo as estimativas de Mansueto.
O plano do presidente a partir de 2027 tem que ser um “em que se consiga enxergar que, pelo menos, no final do próximo mandato, a dívida vai desacelerar”, afirmou.
A corrida presidencial brasileira está apenas começando a tomar forma, com o filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro surgindo como um possível adversário de Lula, que buscará a reeleição.
Mesmo assim, os mercados já especulam sobre o próximo ministro da Fazenda, e o nome de Mansueto começa a aparecer nas listas dos investidores.
Mansueto, considerado um defensor da disciplina fiscal como chefe do Tesouro durante o governo de Bolsonaro, disse estar lisonjeado por ver seu nome ventilado.
Ele ressaltou que não está mais envolvido na política após mais de duas décadas no governo e observou que o Brasil já possui um grande número de funcionários competentes no setor público.
“Independentemente de quem vencer a presidência, os desafios que o próximo governo enfrentará serão praticamente os mesmos, e há grande expectativa de que o resultado seja positivo.”
Um dos principais problemas das finanças públicas brasileiras, segundo Mansueto, é que as despesas obrigatórias estão crescendo muito mais rápido do que os limites estabelecidos pelo regime fiscal, que determina um teto para o crescimento real dos gastos primários em 2,5%.
Os gastos com benefícios sociais para idosos e pessoas de baixa renda com deficiência, por exemplo, aumentaram quase 10% entre janeiro e novembro de 2025, de acordo com dados do Tesouro.
Mansueto disse que seria possível reformar o arcabouço fiscal ajustando as regras de indexação dos programas sociais.
Apoiar-se exclusivamente no aumento da arrecadação para realizar o ajuste fiscal prejudicaria a credibilidade do plano, especialmente se gastos forem excluídos da regra, afirmou.
Apetite estrangeiro
Embora os investidores locais permaneçam cautelosos em relação ao Brasil, os estrangeiros estão se tornando mais tolerantes aos riscos fiscais do país, à medida que reduzem a exposição a ativos americanos e buscam na América Latina uma forma de diversificar seus investimentos e reduzir a exposição ao dólar, de acordo com o economista-chefe do BTG.
Mesmo pequenas realocações para mercados emergentes podem ter um impacto significativo nos fluxos de capital para o Brasil, afirmou ele.
“Neste início de ano, ninguém esperava esse fluxo enorme de dólares”, disse Mansueto, referindo-se aos fluxos de capital estrangeiro para a bolsa de valores brasileira. “É impressionante.”
O investidor estrangeiro de renda variável “não está assustado com cenário eleitoral. Ele está querendo carregar Brasil e até mesmo aumentar posição”, disse.
Mansueto também está entre os poucos economistas que esperam que o Banco Central comece a cortar as taxas de juros já em sua reunião de 28 de janeiro.
Enquanto a maioria dos analistas prevê o início do ciclo de afrouxamento monetário em março, o BTG Pactual estima que os membros do comitê de política monetária, liderados por Gabriel Galípolo, reduzirão a Selic em 0,25 ponto percentual para 14,75% nesta semana.
A atividade econômica está respondendo à política monetária restritiva que elevou as taxas de juros para 15%, o nível mais alto em quase duas décadas, disse Mansueto.
E embora o Banco Central tenha enfatizado que continua dependente de dados econômicos, desconfortável com a inflação acima da meta e com expectativas sem ancoragem, as taxas de juros estão altas o suficiente para que o afrouxamento monetário comece.
“O ponto de partida é um juro tão alto que ele pode se dar o luxo de iniciar o ciclo de corte e fazer o ajuste fino”, disse Mansueto. “Se cortar, ainda terá tempo suficiente para decidir se acelera ou não o processo em março.”
O BTG projeta uma Selic de 12% ao fim deste ano.
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