Bloomberg — Para onde quer que se olhe nos supermercados de todo o Brasil, os consumidores sentem os efeitos da inflação, o que evidencia problemas de acessibilidade no país e representa um risco para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em sua busca pela reeleição.
De barras de chocolate a café, os tamanhos das embalagens estão encolhendo, mesmo quando os preços se mantêm estáveis ou sobem — um fenômeno que ganha atenção na maior economia da América Latina, agora que a inflação dos alimentos tem aumentado a seis meses das eleições.
A tendência, que ecoa os problemas enfrentados pelo ex-presidente dos EUA Joe Biden em sua fracassada candidatura à reeleição em 2024, representa uma ameaça crescente para Lula.
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O líder de 80 anos retornou ao cargo de presidente do país prometendo melhores padrões de vida para os brasileiros de baixa renda e prometendo que o poder de compra se recuperaria.
Como o conflito no Oriente Médio aumenta a inflação em todo o mundo e intensifica a pressão sobre os consumidores locais, a narrativa do ícone esquerdista está se tornando mais difícil de sustentar antes do que provavelmente será uma disputa acirrada em outubro.
“Eu esperava uma melhora real no poder de compra, mas o que vejo todos os dias é o contrário. A promessa de Lula não foi cumprida”, disse Thiago Couto, um vendedor da periferia da capital Brasília que faz as compras para uma família de seis pessoas. “O governo não tem mais credibilidade alguma.”
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Com as pesquisas mostrando que Lula perdeu sua vantagem sobre o candidato de direita mais forte, o senador Flávio Bolsonaro, os paralelos com as lutas de Biden há dois anos são cada vez mais difíceis de ignorar.
Em seguida, o ex-presidente dos Estados Unidos brincou sobre o fato de ter menos retorno sobre seu investimento em produtos comuns, como sorvete. “Já estou farto do que eles chamam de encolhimento da inflação - é um roubo”, disse ele em um vídeo, tentando mostrar que estava em sintonia com as preocupações dos eleitores com a acessibilidade.
A mensagem de Biden não pegou. Mesmo antes de seu desempenho no debate, amplamente criticado, ter descarrilado sua campanha, os eleitores continuavam não convencidos de que ele tinha controle sobre o custo de vida.
No Brasil, Lula enfrenta um desafio semelhante: confrontar uma forma de inflação oculta que pode ser mais difícil de ser contornada e ainda mais difícil de ser contida, uma vez que a alta dos preços dos alimentos continua a incomodar.
“Fazer compras se tornou horrível. O leite, o café e o açúcar estão mais caros novamente, e o sabão em pó também”, disse Jhully Alves, uma faxineira de 40 anos. “Além disso, as quantidades de vários itens são menores.”
O presidente de esquerda está ajustando sua mensagem ao público. Em um discurso no início deste mês, Lula se referiu ao conflito no Oriente Médio, dizendo que faria tudo o que estivesse ao seu alcance para evitar que “a guerra travada pelo Sr. Trump e pelo Sr. Netanyahu” aumentasse os preços para os consumidores brasileiros.
Ainda assim, dentro do Partido dos Trabalhadores de Lula, há uma percepção crescente de que a ênfase no consumo foi um erro estratégico, de acordo com uma pessoa familiarizada com o assunto que falou à Bloomberg News. Em sua campanha, há quatro anos, Lula lançou a ideia de mais “churrasco” e “cerveja”, simbolizando que bons tempos estavam a caminho.
Essa perspectiva otimista não se concretizou, e é uma preocupação para Lula à medida que sua reeleição toma forma, disse a pessoa, que pediu anonimato para discutir o assunto.
Despensas de escritórios
A mudança na inflação é visível na vida cotidiana, à medida que as famílias ajustam seus hábitos de compra. Até mesmo os escritórios corporativos no famoso distrito financeiro Faria Lima, em São Paulo, estão sentindo o aperto - os gastos com suprimentos de despensa aumentaram, pois as empresas são forçadas a reabastecer com mais frequência para compensar as quantidades reduzidas.
De acordo com dados compilados pela empresa de pesquisa de mercado Euromonitor International, a tendência se espalhou por uma ampla gama de produtos. As caixas de ovos agora vêm em pacotes de 10 em vez de 12. Os sacos de pipoca e grãos foram reduzidos em até 100 gramas.
“O encolhimento ganhou força após a pandemia, pois as empresas responderam a um período de inflação elevada de alimentos”, disse Adriana Murasaki, analista sênior de pesquisa em alimentos e nutrição da Euromonitor International.
“Um exemplo bem conhecido no Brasil é a barra de chocolate Bis, que tem reduzido constantemente a quantidade de produto em sua embalagem.”
A assessoria de imprensa da Mondelez, que fabrica essas barras de chocolate, disse em um comunicado que a linha de produtos Bis é ampla e contém vários formatos de embalagens.
A estratégia da empresa “está focada na diversificação de tamanhos para atender às diferentes necessidades e ocasiões de nossos consumidores”.
O encolhimento nem sempre é imediatamente aparente para os consumidores. “No início, a redução de tamanho passa despercebida.
Mas com o passar do tempo, quando as famílias percebem que suas compras não duram mais tanto tempo, torna-se impossível ignorá-la”, disse Cesar Bergo, economista e professor da Universidade de Brasília.
Casos anteriores de encolhimento da inflação provocaram intensa reação. Em 2023, a Nestlé reduziu o número de cápsulas de café Nescafé Dolce Gusto por caixa de 16 para 10, provocando uma série de reclamações online.
Em uma resposta publicada no conhecido site brasileiro de direitos do consumidor Reclame Aqui, a empresa disse que a mudança fazia parte de um processo de padronização - mesmo com os preços permanecendo inalterados.
A Nestlé também reduziu o tamanho de algumas de suas populares barras de chocolate, de acordo com a Euromonitor International. A Nestlé não respondeu a um pedido de comentário para esta história.
Monitorado de perto
Os custos de alimentos e bebidas no Brasil aumentaram 1,56% no mês em março, impulsionados por aumentos de dois dígitos em tomates, cebolas, batatas e leite, informou a agência nacional de estatísticas, conhecida como IBGE, na sexta-feira.
De modo geral, os preços ao consumidor subiram 0,88% em comparação com fevereiro, um resultado que superou todas as estimativas de uma pesquisa da Bloomberg com economistas.
A inflação anual, por sua vez, acelerou para 4,14%, ainda mais acima da meta de 3% do banco central.
Agora, com o prolongamento do conflito no Oriente Médio, os economistas brasileiros elevaram sua previsão de inflação para 2026 acima do teto da meta do banco central. Os aumentos de preços ao consumidor atingirão 4,71% em dezembro, acima da estimativa anterior de 4,36%, de acordo com uma pesquisa semanal do banco central com economistas publicada na segunda-feira.

As mudanças causadas pela retração da inflação são monitoradas de perto pelo IBGE. De acordo com Fernando Gonçalves, que gerencia as leituras de inflação da instituição, quando o peso ou o volume da embalagem de um produto é modificado, esse bem é posteriormente tratado como um novo item no índice.
O produto com o tamanho antigo da embalagem é removido e substituído por um item atualizado, disse ele. Os preços são registrados separadamente até que seja possível estabelecer uma comparação consistente no mês seguinte.
“Esse procedimento garante que produtos com pesos ou volumes diferentes não sejam comparados diretamente, já que o índice foi projetado para captar a variação pura de preços”, disse Gonçalves.
Sentimento econômico
Lula não está perdendo tempo em correr para o lado de seus principais apoiadores da classe trabalhadora. Em resposta à guerra do Irã, seu governo introduziu e depois ampliou os cortes de impostos federais e os subsídios aos combustíveis para proteger os consumidores.
Anteriormente, ele promoveu um aumento significativo no salário mínimo e também ampliou o número de trabalhadores isentos do pagamento de imposto de renda.
Ainda assim, as pesquisas mostram uma deterioração do sentimento, apesar dos esforços do governo. Cerca de 57% dos brasileiros veem a economia como ruim, de acordo com uma pesquisa realizada pela AtlasIntel para a Bloomberg News em março.
Para as famílias brasileiras, o cenário global pouco importa. O que conta mais são as preocupações do dia a dia, como as contas do supermercado e até onde vai seu dinheiro.
“A situação já estava ruim nos últimos anos e agora, com esse governo, piorou”, disse Alves, a faxineira.
-- Com a ajuda de Franco Dantas, Daniel Carvalho e Giovanna Serafim.
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