Economistas já veem primeiros sinais de efeitos secundários na inflação

Aumento dos preços dos combustíveis, impulsionado pela alta do petróleo, já começa a ser incorporado nas projeções com a expectativa de repasse de custos para os bens industriais

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Bloomberg — Economistas começam a identificar os primeiros sinais de efeitos secundários do choque internacional do petróleo sobre a inflação, já que a alta dos preços passa a se espalhar por cadeias produtivas.

Após o impacto inicial da guerra no Oriente Médio sobre combustíveis e energia, a pressão passa a aparecer em outros componentes do índice de inflação ao consumidor, o IPCA, como os ligados a bens industriais.

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O movimento está na mira do Banco Central. Para investidores, o risco é de que a Selic caia mais lentamente, diante de uma inflação mais persistente e disseminada na economia.

“Já vemos um segundo efeito da alta do petróleo sobre a cadeia de produção”, disse Adriano Valladão, economista do Santander. “O petróleo é utilizado como insumo para produtos industriais. Na nossa expectativa como um todo, já incorporamos um repasse maior para esses bens.”

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A composição do IPCA-15 divulgado nesta quarta-feira reforçou a preocupação com a dinâmica de preços, com alta de 0,62% em maio, ante estimativa de 0,57% e aumento de 0,89% em abril.

A inflação de bens industriais, principal ponto de monitoramento para sinais de efeitos secundários, subiu 0,3%, ainda que tenha desacelerado frente à alta de 0,6% em abril, segundo cálculos de economistas.

Saúde e cuidados pessoais teve aumento de 1,05% ante 0,93% em abril, com destaque para higiene pessoal. No grupo transportes, passagens aéreas subiram 3,2%, depois da queda de 14,3% no mês passado.

“Nesse IPCA-15 os itens de alimentação e bens industrializados seguiram pressionados. Nossa leitura é que reforçam o diagnóstico de condições de uma economia aquecida e resultado de efeitos secundários maiores da pressão do petróleo e produtos químicos,” disse Marcelo Toledo, economista chefe da Bradesco Asset.

Ele destaca também alimentos no domicílio, reparos (material construção) e artigos de limpeza.

“Os efeitos ainda são incipientes, mas vejo industriais subjacentes acelerando novamente na margem. É difícil cravar qual o tamanho exato do efeito da alta do petróleo isoladamente na inflação, mas é possível atribuir parte dessa alta ao petróleo”, disse Valladão.

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O efeito indireto da alta do petróleo na inflação ocorre ao longo das cadeias produtivas, por meio do aumento de custos com transporte, logística, embalagens e insumos industriais, de acordo com o relatório do Itaú. Esses canais são mais difíceis de mensurar.

“Enquanto o primeiro canal tende a aparecer rapidamente nos índices de preços, o segundo é mais difuso, opera com defasagens”, diz o relatório assinado pela área de pesquisa macroeconômica, chefiada pelo economista-chefe Mario Mesquita.

O Itaú estima que o choque do petróleo adicionará cerca de 110 pontos base à inflação de 2026, dos quais 60 pontos virá de efeitos indiretos sobre a cadeia produtiva, segundo relatório publicado em 22 de maio.

O cenário-base do banco para o IPCA em 2026, de 5,2%, considera petróleo a US$ 85 por barril e câmbio a R$ 5,15. Pelas abordagens do banco, o impacto indireto potencial pode ser maior, entre 75–125 p.b., reforçando “um balanço de riscos altista para a inflação”, o que tende a exigir “maior cautela do Banco Central”.

Política monetária

O risco dos efeitos de segunda ordem do choque do petróleo foi incorporado ao comunicado da última reunião do Copom, no final de abril.

Em evento neste mês, o presidente do BC, Gabriel Galípolo, disse que o choque de oferta gera um desafio e apontou para a dificuldade de separar o que é efeito secundário na inflação dos demais impactos. “Precisamos estar ainda mais vigilantes do que estaríamos normalmente, não é abordagem simples”, afirmou.

O impacto do efeito indireto tende a ser mais disseminado e menos susceptível à compensação por medidas de política econômica, já que não se concentra em um grupo restrito de bens finais, segundo o Itaú.

“Nesse momento, o que o mercado quer entender é se as pressões inflacionárias vão ficar limitadas ao choque de oferta, ou se vai virar algo que descola as expectativas de inflação de mais longo prazo”, disse Marina Valentini, estrategista de mercado global na JPMorgan Asset Management.

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O Banco Central vem reduzindo os juros em um ritmo mais lento do que o esperado pelo mercado antes da guerra, à medida que a inflação resiliente limita o espaço para flexibilização monetária.

Desde a última reunião do Copom — quando o BC decidiu por um corte de 0,25 pp para 14,5% — a curva do petróleo passou a embutir um choque mais persistente do que o previsto anteriormente, segundo Valladão.

Ao mesmo tempo, as expectativas de inflação para horizontes mais longos subiram - para 2028, já estão em 3,65% segundo a pesquisa Focus mais recente, acima da meta.

“Para o BC, o que preocupa mesmo é 2028. Para um horizonte tão longo, a expectativa é que o choque tivesse se dissipado”, disse Valladão.

Na ata da última reunião, o Banco Central afirmou que “ficou evidente” uma deterioração adicional das expectativas de inflação.

O diretor de política monetária do Banco Central, Nilton David, afirmou em evento nesta quinta-feira que as expectativas de inflação de curto prazo estão reverberando para os anos seguintes, 2027 e 2028.

Para Marina, alguns itens, como as passagens aéreas, possivelmente já refletem pressões vistas globalmente e potenciais disrupções relacionadas aos combustíveis.

“Mas ainda não é possível isolar com clareza os efeitos secundários da guerra. Ainda é cedo para dizer, precisamos de mais dados ao longo do tempo que mostrem a persistência desses resultados”, disse.

Nos próximos meses, economistas vão monitorar os dados de inflação em busca de sinais de que a alta do petróleo esteja se disseminando pelos preços industriais.

A atenção também estará voltada para a inflação de serviços subjacentes, vista como um termômetro do nível de aquecimento da economia. Um avanço mais persistente dos preços pode acabar alimentando reajustes salariais mais à frente, segundo Toledo.

“As leituras de inflação de maio e junho serão especialmente importantes para entender a extensão e a magnitude dos efeitos de segunda rodada”, disse Marina.

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