Bloomberg Línea — O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu nesta quarta-feira (29) reduzir a taxa básica de juros em 0,25 ponto percentual, levando a Selic para 14,50% ao ano. A decisão foi unânime.
Em comunicado, o Copom reafirmou que a condução da política monetária seguirá com “serenidade e cautela”, condicionando decisões futuras à evolução do conflito no Oriente Médio e seus efeitos sobre preços.
A decisão era amplamente esperada pelo mercado. Todos os economistas consultados pela Bloomberg, com exceção de um, projetavam um corte de 25 pontos-base.
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A redução marca o segundo corte consecutivo do ciclo de afrouxamento iniciado em março, quando o Copom reduziu a taxa de juros pela primeira vez desde 2024, após manter a Selic estável em 15% por cerca de nove meses.
Apesar do cenário de incerteza elevada, o Copom justificou a continuidade do ciclo de cortes pela avaliação de que a política monetária restritiva mantida por um longo período já está produzindo os efeitos esperados sobre a economia.
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Para o comitê, isso cria condições para ajustes graduais no ritmo e na extensão da flexibilização, sem abrir mão da convergência da inflação à meta.
“O período prolongado de manutenção da taxa básica de juros em patamar contracionista propiciou evidências da transmissão da política monetária sobre a desaceleração da atividade econômica”, afirma o Copom no comunicado divulgado nesta quarta.
O comitê destacou que as projeções de inflação se distanciaram ainda mais da meta no horizonte relevante — o quarto trimestre de 2027 —, para o qual o IPCA projetado no cenário de referência está em 3,5%. Para 2026, a projeção é de 4,6%.
As expectativas de inflação apuradas pelo Focus para 2026 e 2027 permanecem acima da meta, em 4,9% e 4,0%, respectivamente. O cenário de referência adota câmbio de R$ 5,00/US$ e trajetória de juros extraída do próprio Focus.
Inflação e emprego pressionam o BC
O Copom chegou a esta reunião com um quadro econômico ambíguo. O IPCA-15 de abril avançou 0,89% no mês — abaixo da estimativa mediana de 0,98% dos economistas consultados pela Bloomberg —, mas a leitura anual acelerou para 4,37%, bem acima da meta de 3% perseguida pelo Banco Central.
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Alimentos e bebidas foram o principal vetor de alta, com avanço de 1,46% na primeira quinzena do mês. Por enquanto, o choque de energia ainda não deu sinais de repasse para os núcleos de inflação.
A escalada das tensões no Oriente Médio, com a guerra no Irã, tem pressionado os preços do petróleo e aumentado as incertezas sobre a trajetória da inflação global.
Economistas consultados pelo BC na pesquisa Focus elevaram suas projeções de inflação para o Brasil, com estimativas apontando para leituras acima da meta de 3% até 2029.
Ao mesmo tempo, o real acumulava valorização de cerca de 10% frente ao dólar no ano, o melhor desempenho entre as moedas de mercados emergentes no período — fator que ajuda a conter os custos de importação e atenua parte do choque externo sobre os preços de combustíveis.
No mercado de trabalho, o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) mostrou a criação de 228.208 vagas formais em março, número muito superior à mediana das estimativas de 148.576 postos.
O setor de serviços respondeu por mais de 152.000 novas vagas. A agropecuária foi o único setor com saldo negativo, perdendo cerca de 18.000 postos — movimento associado a fatores sazonais.
A robustez do mercado de trabalho tem sido uma preocupação recorrente dos membros do Copom, já que sustenta renda e consumo em um ambiente de inflação ainda elevada.
Além disso, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vem adotando uma série de medidas de estímulo às vésperas das eleições de outubro, o que adiciona complexidade ao trabalho do Banco Central.
O governo reduziu impostos sobre combustíveis, ampliou subsídios e prepara um programa de redução do endividamento das famílias. Membros do Partido dos Trabalhadores têm pressionado publicamente por cortes mais agressivos nos juros.
Comunicado do Copom de 29/04/2026 na íntegra
“O ambiente externo permanece incerto, em função da indefinição a respeito da duração, extensão, e desdobramentos dos conflitos geopolíticos no Oriente Médio, com reflexos nas condições financeiras globais. Tal cenário exige cautela por parte de países emergentes em ambiente marcado por elevação da volatilidade de preços de ativos e commodities.
Em relação ao cenário doméstico, o conjunto dos indicadores segue apresentando, conforme esperado, trajetória de moderação no crescimento da atividade econômica, enquanto o mercado de trabalho ainda mostra sinais de resiliência. Nas divulgações mais recentes, a inflação cheia e as medidas subjacentes aceleraram, distanciando-se adicionalmente da meta para a inflação.
As expectativas de inflação para 2026 e 2027 apuradas pela pesquisa Focus permanecem em valores acima da meta, situando-se em 4,9% e 4,0%, respectivamente. A projeção de inflação do Copom para o quarto trimestre de 2027, atual horizonte relevante de política monetária, situa-se em 3,5% no cenário de referência (Tabela 1).
Os riscos para a inflação, tanto de alta quanto de baixa, permanecem mais elevados que o usual, perante a indefinição acerca dos conflitos no Oriente Médio. Entre os riscos de alta para o cenário inflacionário e as expectativas de inflação, destacam-se (i) uma desancoragem das expectativas de inflação por período mais prolongado, com horizontes mais longos incorporando impactos potenciais de segunda ordem de restrições de oferta de petróleo e seus derivados; (ii) uma maior resiliência na inflação de serviços do que a projetada em função de um hiato do produto mais positivo; e (iii) uma conjunção de políticas econômicas externa e interna que tenham impacto inflacionário maior que o esperado, por exemplo, por meio de uma taxa de câmbio persistentemente mais depreciada. Entre os riscos de baixa, ressaltam-se (i) uma eventual desaceleração da atividade econômica doméstica mais acentuada do que a projetada, tendo impactos sobre o cenário de inflação; (ii) uma desaceleração global mais pronunciada decorrente dos choques de comércio e do petróleo, e de um cenário de maior incerteza; e (iii) uma redução nos preços das commodities com efeitos desinflacionários.
O Comitê segue acompanhando como os desenvolvimentos da política fiscal doméstica impactam a política monetária e os ativos financeiros, reforçando a postura de cautela em cenário de maior incerteza. Os indicadores correntes de atividade econômica mostram recuperação em relação ao último trimestre de 2025, mantendo-se consistentes com uma trajetória de desaceleração no acumulado de 2026, enquanto o cenário segue sendo marcado por expectativas desancoradas, projeções de inflação elevadas, e pressões no mercado de trabalho.
O Comitê considera os impactos dos conflitos no Oriente Médio de forma prospectiva, em particular seus efeitos sobre a cadeia de suprimentos global e os preços de commodities que afetam direta e indiretamente a inflação no Brasil. Nesse momento, as projeções de inflação apresentam distanciamento adicional em relação à meta no horizonte relevante para a política monetária. Ao mesmo tempo, a incerteza acerca dessas projeções foi elevada consideravelmente, em função da falta de clareza sobre a duração dos conflitos e de seus efeitos sobre os condicionantes dos modelos de projeção analisados. O Comitê julgou apropriado dar sequência ao ciclo de calibração da política monetária, na medida em que o período prolongado de manutenção da taxa básica de juros em patamar contracionista propiciou evidências da transmissão da política monetária sobre a desaceleração da atividade econômica, criando condições para que ajustes no ritmo e extensão dessa calibração, à luz de novas informações, sejam possíveis de forma a assegurar o nível compatível com a convergência da inflação à meta.
O Copom decidiu reduzir a taxa básica de juros para 14,50% a.a., e entende que essa decisão é compatível com a estratégia de convergência da inflação para o redor da meta ao longo do horizonte relevante. Sem prejuízo de seu objetivo fundamental de assegurar a estabilidade de preços, essa decisão também implica suavização das flutuações do nível de atividade econômica e fomento do pleno emprego.
No cenário atual, caracterizado por forte aumento da incerteza, o Comitê reafirma serenidade e cautela na condução da política monetária, de forma que os passos futuros do processo de calibração da taxa básica de juros possam incorporar novas informações que aumentem a clareza sobre a profundidade e a extensão dos conflitos no Oriente Médio, assim como seus efeitos diretos e indiretos sobre o nível de preços ao longo do tempo.
Votaram por essa decisão os seguintes membros do Comitê: Gabriel Muricca Galípolo (presidente), Ailton de Aquino Santos, Gilneu Francisco Astolfi Vivan, Izabela Moreira Correa, Nilton José Schneider David e Paulo Picchetti."
-- Com informações da Bloomberg News
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