MSD Saúde Animal mira maior uso de dados para ‘ouvir’ os bovinos e elevar eficiência

Divisão de bovinos responde por 53% da receita da MSD Saúde Animal no Brasil e deve ganhar tração coma o uso de dados e tecnologia de monitoramento de animais nos próximos anos, segundo detalhou à Bloomberg Línea a diretora da unidade da empresa, Laura Villarreal: ‘o difícil não é comprar a tecnologia. O difícil é [fazer o produtor] dar o primeiro passo’

MSD Saúde Animal: Sense Hub monitora gados de leite
09 de Abril, 2026 | 09:25 AM

Bloomberg Línea — A pecuária brasileira passa por um momento de transição de um modelo baseado na intuição do produtor para outro guiado por dados. Essa mudança, que pode redefinir a forma de produzir proteína, também deve impulsionar o negócio de tecnologia da MSD Saúde Animal no país.

Essa é a leitura da diretora da Unidade de Negócios de Ruminantes (que inclui bovinos) da MSD Saúde Animal, Laura Villarreal.

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Nesse sentido, a empresa tem apostado no crescimento da demanda por dispositivos de identificação e monitoramento de animais, capazes de indicar se eles estão ruminando, em cio ou prestes a adoecer.

“Os dados e a tecnologia estão ajudando a tomar as melhores decisões na pecuária. Já não é mais um negócio em que você espera o final do ciclo. Você sabe exatamente o que está acontecendo todo dia”, disse Villarreal em entrevista à Bloomberg Línea.


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A divisão de Ruminantes respondeu por 53% da receita da operação de saúde animal da companhia no Brasil em 2025, seguida por pets, com 23%, suínos (11%), aves (9%) e aquicultura (1%).

Em 2024, o crescimento da área de Ruminantes foi de 4% e, em 2025, de 1%. Para este ano, porém, a expectativa é de aceleração, com alta projetada de 8%, puxada por biológicos e prevenção, que é o core da companhia. Mas o crescimento também passa pela tecnologia.

Leia também: Além da vacina: MSD Saúde Animal quer avançar em prevenção e ‘falar’ com os bichos

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Apesar de exercer um papel central na estratégia da divisão, a tecnologia ainda responde por cerca de 10% da receita da unidade no Brasil, explica a executiva.

A divisão do negócio segue equilibrada entre corte e leite, com participação próxima de 50% para cada segmento.

A empresa vê espaço para ampliar essa participação à medida que o produtor passa a adotar ferramentas de monitoramento e análise de dados no manejo, com foco em maior previsibilidade no dia a dia da operação.

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“O olhar do produtor continua sendo importante, mas a gente não vai esperar até o final para ver se a operação rendeu resultado econômico. Nós conseguimos ver isso todo dia e fazer mudanças de rota à medida que avançamos. O dado permite tomar a melhor decisão”, disse a executiva, que está à frente da unidade de ruminantes no Brasil desde janeiro de 2022.

Tecnologia avança, puxada pelo leite

A base de uso dessas tecnologias cresceu de forma acelerada nos últimos anos, conta a executiva.

Segundo dados relativos ao gado de leite pela plataforma da empresa SenseHub, o número de animais monitorados pela tecnologia da empresa passou de cerca de 8.000 em 2019 para mais de 165.000 atualmente, com meta de superar 230.000 até o fim deste ano. Segundo a empresa, parte dessa projeção já foi contratada.

MSD Saúde Animal: Sense Hub monitora gados de leite

O número de fazendas de clientes avançou de 39 para mais de 900 propriedades pagantes no período. O modelo é baseado em assinatura - a empresa não divulga o valor mensal para contratar o serviço.

O monitoramento mais intensivo ainda está concentrado no gado leiteiro, enquanto a identificação animal tem uso mais disseminado entre corte e leite.

“Você deixa de olhar a média do lote e passa a olhar indivíduo por indivíduo. Você sabe se o animal está ruminando, se entrou em cio, se a produção aumentou ou caiu. Isso muda toda a lógica da pecuária”, disse.

A adoção de tecnologia entre a pecuária de corte e a de leite, porém, ainda é díspar, explica a executiva.

“O pecuarista, assim como o veterinário, não quer perder tempo e tende a ir direto na solução mais simples. No gado de corte, isso passa por identificar o animal e coletar dados. No leite, estamos um pouco mais avançados, com monitoramento de comportamento e outros indicadores.”

Dos animais de corte no Brasil, cerca de 30% já são identificados — e, dentro desse universo, aproximadamente 70% utilizam soluções da linha Allflex, da empresa. No país, a tecnologia funciona como uma espécie de brinco eletrônico que permite identificar individualmente os animais.

Mais à frente, essa mesma tecnologia deve incorporar novas funcionalidades, como a capacidade de indicar sinais de doença antes da manifestação clínica e mais em linha com os atributos já existentes na tecnologia para gado de leite.

Essa solução da companhia para a pecuária já foi lançada nos Estados Unidos e deve chegar ao México em breve. Para o Brasil, porém, ainda não há previsão.

Segundo a executiva, outro desafio é adaptar as tecnologias às condições locais, já que o país tem características climáticas e produtivas específicas.

“Um produto que funciona hoje em outros mercados, como o México, nem sempre é o mais adequado para o Brasil, que é um país tropical. Por isso, só trazemos essa tecnologia quando temos segurança de que ela está adaptada às condições da pecuária brasileira.”

Estrutura do setor

A expansão dessas tecnologias ocorre em um mercado altamente pulverizado, em que pequenos e médios produtores ainda representam uma fatia relevante do negócio, conta.

Segundo a executiva, o Brasil tem cerca de 2,6 milhões de propriedades pecuárias, das quais aproximadamente 2,4 milhões possuem menos de 500 animais.

Laura Villareal, diretora de bovinos da MSD Saúde Animal

“Só cerca de 2% das fazendas têm alta tecnologia e grande volume de animais. O restante precisa de mais acompanhamento, mais suporte técnico, mais presença no campo”, disse.

Para atender essa base, a MSD mantém mais de 220 profissionais dedicados à pecuária no país, com foco em suporte técnico e implementação das soluções.

Segundo a executiva, o desafio é fazer com que o produtor, já acostumado a uma forma mais intuitiva de trabalhar, dê o primeiro passo na adoção dessas ferramentas.

“O difícil não é comprar a tecnologia. O difícil é dar o primeiro passo. O produtor vai ter que entrar. A diferença é quando ele decide entrar”, afirmou.

Dados no centro da estratégia

A companhia projeta que a tecnologia terá papel crescente no avanço do negócio. Segundo Villarreal, cerca de 25% do crescimento da unidade até 2030 deve vir dessas soluções, considerando a receita total.

A estratégia combina esse avanço com o portfólio tradicional de saúde animal.

“Já somos referência em controle de doenças, produtividade e bem-estar animal. O que queremos agora é ser referência na geração de dados para que o produtor tome as melhores decisões”, disse.

Outro fator que tende a impulsionar a adoção tecnológica é o avanço da regulação. A obrigatoriedade de identificação individual de bovinos e búfalos a partir de 2033 deve ampliar a demanda por soluções de rastreabilidade .

A portaria do Ministério da Agricultura nº 1.331, de 21 de julho de 2025, estabelece que, a partir de 1º de janeiro de 2033, será vedada a movimentação, em território nacional, de qualquer bovino ou búfalo que não esteja individualmente identificado e cadastrado no sistema, conforme os padrões do PNIB.

Essa identificação avança atualmente justamente por meio dos brincos eletrônicos.

“Na pecuária, antes desse momento de tecnologia, ainda se admitiam alguns erros porque se olhava a média do lote. Agora isso acabou. É indivíduo por indivíduo. Isso vai dar uma vantagem competitiva importante para o Brasil”, afirmou Villarreal.

Segundo a executiva, entre um e três lançamentos devem chegar ao Brasil ainda neste ano, todos com foco em prevenção. A companhia também prepara a chegada de uma vacina com foco em sanidade animal.

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