Agro

Etanol de milho cresce no Brasil e alivia escassez global de açúcar

Custo do etanol de milho é mais baixo que produção a partir da cana-de-açúcar, o que significa que usinas podem direcionar uma parte menor da colheita para o combustível

Produção de milho: país superou os EUA na safra atual como maior exportador do mundo
Por Dayanne Sousa
22 de Setembro, 2023 | 01:45 PM

Bloomberg — A escassez global de açúcar, que impulsionou os preços para a cotação máxima de onze anos, está prestes a diminuir - e isso se deve a uma safra que à primeira vista pode parecer totalmente sem relação direta.

A produção de milho do Brasil está aumentando, tornando mais lucrativo usar o grão para produzir etanol - um combustível chave que alimenta os carros na maior economia da América Latina. Como resultado, usinas de cana-de-açúcar estão buscando produzir mais açúcar e menos biocombustível.

“Qualquer pessoa com dinheiro hoje está ou investindo em etanol de milho ou adicionando capacidade para produzir açúcar”, disse Eder Vieito, analista sênior de commodities da Green Pool Commodity Specialists.

A queda nos preços do açúcar seria um alívio bem-vindo para os consumidores que enfrentam uma inflação de alimentos desenfreada. Um indicador de preços de commodities agrícolas registrou seu maior aumento em 16 meses em julho, antes de recuar um pouco em agosto. Condições climáticas extremas prejudicaram a cana-de-açúcar na Índia, o segundo maior produtor mundial depois do Brasil.

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O milho ganha uma parcela maior do mercado de etanol no Brasil, que fica atrás apenas dos Estados Unidos entre os produtores globais de biocombustível. O etanol de milho representará quase um quinto de toda a produção de biocombustível nesta temporada, em comparação com quase zero há cinco anos. Até 2033, sua participação poderia chegar a um terço do suprimento total, prevê a consultoria Datagro.

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“Expansão de biocombustíveis virá predominantemente do milho”, disse Renato Pretti, diretor de planejamento estratégico da produtora de etanol Cerradinho Bioenergia. A empresa, que utiliza tanto milho quanto cana-de-açúcar como matéria-prima para o combustível, é uma das muitas usinas que estão desviando mais cana para produzir açúcar e até investindo em novas máquinas.

O aumento na produção de milho no Brasil está permitindo maiores lucros com o etanol, já que as vendas de subprodutos como ração animal cobrem em grande parte o custo do grão.

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Por outro lado, as usinas de cana-de-açúcar viram as margens encolherem recentemente na produção de etanol. O custo de produção de etanol a partir de milho foi 16% mais baixo em comparação com a produção do biocombustível a partir da cana-de-açúcar nos últimos dois anos, afirmaram analistas do banco BTG Pactual em um relatório.

A demanda por etanol, no entanto, tem ficado para trás, à medida que os motoristas adotam a gasolina na comparação que leva em conta o rendimento. Os preços do biocombustível poderiam cair para um nível tão baixo quanto 65% a 68% do valor da gasolina a longo prazo, de acordo com Willian Hernandes, sócio da consultoria FG/A. Uma queda abaixo de 70% convencerá mais motoristas a mudar para o etanol, mas também limitará os lucros das usinas na produção do biocombustível.

Usinas de cana-de-açúcar já fizeram planos para adicionar aproximadamente 2,5 milhões de toneladas de capacidade para produzir açúcar nas próximas safras, estimou a FG/A. As usinas provavelmente continuarão a maximizar a produção de açúcar por pelo menos mais duas safras, disse Murilo Mello, chefe de açúcar para as Américas na Hedgepoint Global Markets.

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As conexões políticas da indústria do açúcar no Brasil podem, em última análise, ajudar a impulsionar suas margens de etanol. O governo do presidente Lula da Silva está apoiando um projeto de lei que aumentará o percentual de etanol misturado à gasolina.

No entanto o etanol à base de milho também enfrenta alguns obstáculos.

Usinas que utilizam o grão dependem principalmente de biomassa de retalhos de madeira como fonte de energia, e os suprimentos de madeira estão diminuindo no Brasil devido ao crescimento da produção de celulose e papel.

Isso pode significar menos incentivo para expandir o suprimento de etanol de milho além do que já está planejado, disse Ana Zancaner, analista da Czapp, que pertence à trader de commodities Czarnikow Group.

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Mas o consenso é que o etanol de milho terá mais alguns anos de expansão.

O Brasil possui oito usinas de etanol de milho adicionando capacidade, enquanto outras sete novas usinas estão em construção, afirmaram analistas do Itau BBA em um relatório de setembro. O suprimento da matéria-prima também é abundante: os analistas estimam que o Brasil consumirá um recorde de 13 milhões de toneladas de milho para etanol nesta safra, cerca de um décimo do suprimento total.

Isso é uma boa notícia para os produtores de milho no principal estado produtor, Mato Grosso. Há um potencial significativo para o grão conquistar uma parcela maior do mercado de etanol, segundo o agricultor Zilto Donadello.

“O etanol de milho ainda tem muito terreno para percorrer”, disse Donadello.

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