Das carnes às ’superproteínas’: a estratégia da JBS frente às canetas emagrecedoras

Em entrevista à Bloomberg Línea, o CFO global da JBS, Guilherme Cavalcanti, aponta sinais de que o uso de GLP-1 tem feito o consumidor priorizar as proteínas; para lidar com o novo perfil da demana, empresa aposta na Seara, na Genu-in e em novo centro de US$ 37 mi dedicado a desenvolver ‘superproteínas'

Supermercado Brasil
06 de Abril, 2026 | 06:00 AM

Bloomberg Línea — Guilherme Cavalcanti, CFO global da JBS, saiu da CAGNY, o maior encontro anual de analistas de consumo dos Estados Unidos, realizado em Orlando em fevereiro, com uma percepção: a proteína dominou a pauta de todas as empresas presentes.

No centro dessa virada estratégica, há um consumidor que come menos e que, principalmente, coloca a proteína no topo da lista de preferências, impulsionado por uma geração de medicamentos à base de GLP-1, como Ozempic e Wegovy, para emagrecimento, que está redesenhando hábitos alimentares em todo mundo.

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Para Cavalcanti, um dos sinais mais concretos dessa mudança comportamental aparece nos preços. Desde a pandemia, a carne moída nos Estados Unidos subiu de US$ 4 para US$ 6,74 a libra [450 gramas]. O peito de frango saltou de US$ 3 para US$ 4. Em categorias tão sensíveis a preço, o esperado seria uma queda de demanda.

“O preço da carne nos Estados Unidos teve todo esse aumento, mas as pessoas não tiveram um decréscimo de demanda. Para mim, isso é uma evidência de que cortaram o consumo de outras coisas”, disse o executivo em entrevista à Bloomberg Línea.

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O efeito prático dessa mudança aparece no carrinho de compras. Cavalcanti citou reportagens sobre consumidores que abandonaram salgadinhos e junk food depois de iniciar o tratamento e passaram a priorizar proteína, mesmo pagando mais por ela.

Isso porque médicos recomendam uma dieta rica em proteína para preservar a massa muscular e evitar flacidez da pele durante a perda acelerada de peso.

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“Estima-se em mais de 15 milhões de americanos usando o GLP-1. Nos próximos anos, isso vai subir para 30 milhões”, observa o CFO da JBS, em referência a uma projeção do J.P. Morgan que aponta esse número até 2030.

O contexto regulatório também tem avançado nessa mesma direção. As novas diretrizes do Departamento de Saúde dos EUA colocaram a proteína animal no topo das recomendações nutricionais, uma virada que reforça a tese que a JBS já defende nas gôndolas e nos balanços.

“Cinco anos atrás, se falava que comer ovo aumentava o seu colesterol”, disse Cavalcanti.

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Uma das estratégias da empresa está na diversificação - geográfica e de entrada em novos mercados.

No início de 2025, a JBS acertou a compra de 50% da Mantiqueira, em uma operação que marcou a entrada da maior processadora de carnes do mundo no segmento de ovos.

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O negócio permitiu à Mantiqueira avançar na expansão fora do Brasil. Em novembro de 2025, a empresa anunciou a aquisição da Hickman’s Egg Ranch nos Estados Unidos.

Colágeno como vantagem

Nos EUA, onde o movimento é mais avançado, o GLP-1 já é citado abertamente como driver de reformulação de portfólio, com o impacto já em curso do varejo ao foodservice. Até o Starbucks lançou recentemente um café com proteína, exemplifica Cavalcanti.

No Brasil, a JBS já antecipou o movimento com a linha Seara Protein, com teor proteico explícito na embalagem. Mas a jogada mais diferenciada está no colágeno.

“A JBS também é um grande produtor de colágeno e tem a capacidade de adicionar nos alimentos preparados, oferecendo uma quantidade de proteína maior, e isso é mais fácil para nós do que para o concorrente”, disse o CFO.

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Segundo o executivo, essa maior concentração de proteína é possível graças à Genu-in, subsidiária da JBS criada em 2022 com investimento de R$ 400 milhões, que produz 6 mil toneladas anuais de peptídeos de colágeno em Presidente Epitácio, no interior paulista, e já opera acima da capacidade original.

O colágeno abastece a própria linha Seara Protein, é vendido em formato B2B para outras empresas adicionarem em seus produtos e exportado para mais de 20 países, com os EUA como principal destino.

Essa maior integração vertical transforma um subproduto da cadeia frigorífica (a pele do boi) em ingrediente de alta margem para o mercado global de alimentos funcionais, sem depender de fornecedores externos nem incorrer nos custos de quem precisa construir essa capacidade do zero.

JBS Biotech, inaugurada em 1º de abril no Sapiens Parque, em Florianópolis: mais de 4.000 m² e 20 laboratórios especializados no desenvolvimento das chamadas "superproteínas" — ingredientes proteicos de alta qualidade nutricional desenhados para atuar de forma direcionada no organismo

Margem recorde da Seara

Essa estratégia já aparece nos resultados, explica Cavalcanti. “A Seara vem tendo margens recordes, que ela nunca teve no passado”, afirmou o CFO, citando a maior fábrica de salsicha e empanados da América Latina.

O market share da marca em alimentos congelados saltou de 10,9% em 2013 para 26,7% em 2025, com taxa de recompra 57% maior no período, segundo dados apresentados à CAGNY.

Cavalcanti cita a maior fábrica de salsicha e empanados da América Latina, inaugurada há três anos em Rolândia, no norte do Paraná, que opera em plena capacidade com perspectiva de ampliação, como evidência de que o consumidor brasileiro segue demandando proteína, processada ou não.

O market share da Seara em alimentos congelados saltou de 10,9% em 2013 para 26,7% em 2025, com taxa de recompra 57% maior no período, segundo dados da própria JBS apresentados na CAGNY.

Para além do portfólio atual, a JBS inaugurou na última quarta-feira (1) a JBS Biotech, centro de biotecnologia avançada instalado no Sapiens Parque, em Florianópolis, com investimento de US$ 37 milhões, voltado ao desenvolvimento das chamadas “superproteínas”, ingredientes funcionais de alta qualidade nutricional, incluindo proteínas cultivadas a partir de cogumelos.

A gigante de alimentos aposta no potencial de mercado dessas proteínas desenhadas para modular respostas fisiológicas específicas, do ganho muscular ao suporte imunológico.

O mercado global de suplementos proteicos chega a US$ 30 bilhões, com crescimento de 10% ao ano, segundo estimativas da companhia.

“Essa tendência vai continuar e vamos nos preparar para cada vez mais atender e aproveitar os nossos recursos”, disse Cavalcanti.

O centro em Santa Catarina mira exatamente o perfil de consumidor que emerge do universo GLP-1: alguém que precisa de proteína de alta qualidade, rapidamente absorvida, para preservar massa muscular enquanto perde peso.

Segundo o CFO, é também uma aposta na longevidade como tendência global, não apenas nos EUA, onde o debate sobre envelhecimento saudável já molda decisões de compra.

A JBS destina US$ 1,3 bilhão em expansão de capacidade, incluindo nova planta de frango da Pilgrim’s em Walker County, na Geórgia, fábricas de salsicha, linguiça e bacon no Iowa, frango no Paraguai e expansão contínua da Seara no Brasil.

“A decisão de investir em novos produtos hoje passa muito por isto”, disse Cavalcanti, referindo-se à demanda crescente por proteína. Para o CFO, o fenômeno se captura na rentabilidade, por preço, volume e preferência do consumidor, e sustenta as expansões em curso.

“O nosso portfólio já é proteína. Não precisamos adaptar nada”, concluiu.

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