Bioceres, da Argentina, aposta em ‘forte expansão’ do agronegócio sob Milei

CEO da empresa, Federico Trucco, diz em entrevista à Bloomberg News que a desvalorização do peso teve efeito direto no aumento do poder de compra dos agricultores do país

Fazenda de soja na Argentina
Por Jonathan Gilbert
22 de Fevereiro, 2024 | 03:37 PM

Bloomberg — A Bioceres (BIOX), empresa de ciências agrícolas da Argentina, está de olho em um forte crescimento da agricultura em sua terra natal à medida que o presidente Javier Milei busca desregulamentar a economia e promover o livre mercado.

Milei desvalorizou o peso argentino em 54% quando assumiu o cargo em dezembro, aumentando as receitas dos agricultores cujas vendas de soja, milho e trigo estão vinculadas ao dólar dos Estados Unidos.

O benefício aumenta a probabilidade de que os produtores invistam em sementes, pesticidas e fertilizantes vendidos por empresas agroindustriais como a Bioceres.

“Há um aumento direto no poder de compra dos agricultores”, disse o CEO Federico Trucco em uma entrevista. “E quando os agricultores passam de uma mentalidade defensiva para uma em que buscam maximizar a produção, investem em mais tecnologia e tecnologia mais precisa como a nossa - e podemos ver isso parcialmente refletido em nossos ganhos.”

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A Bioceres divulgou seus resultados trimestrais no dia 8 de fevereiro, superando as estimativas dos analistas. As ações da empresa nos EUA acumulam ganho de 9,71% desde a vitória de Milei no segundo turno, em novembro. Em 2024, no entanto, os papéis têm queda de 6,19% até esta quinta-feira (22).

Agricultores argentinos, atormentados por anos de pesada tributação, interferência nas exportações e hostilidade governamental, têm apoiado a agenda de livre mercado de Milei na tentativa de alcançar os rivais nos Estados Unidos e no Brasil.

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Os agricultores estocaram colheitas nos últimos anos, apostando que o governo teria que afrouxar seu controle sobre uma taxa de câmbio controlada rigidamente para conter a rápida inflação.

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A cotação do peso também prejudicou os balanços corporativos, incluindo o da Bioceres, uma vez que as vendas vinculadas ao dólar ficaram aquém dos salários vinculados ao índice de preços ao consumidor e outros custos.

A situação em ambos os fronts está melhorando após a desvalorização de Milei, mas Trucco expressou preocupação com a sobrevalorização da taxa de câmbio novamente. A inflação mensal em janeiro foi de 20,6%, enquanto a depreciação do peso pelo Banco Central foi fixada em apenas 2%.

“Somos uma empresa global com todas as nossas receitas em dólares, mas uma parte de nossa estrutura de custos está em pesos, então a desvalorização nos tornou mais competitivos a partir da Argentina”, disse ele. “Manter essa competitividade depende da vantagem criada pela desvalorização continuar ao longo do tempo e a inflação não a corroer nos próximos meses.”

A empresa agrícola argentina Cresud também expressou otimismo pela era Milei em uma teleconferência de resultados recente, já que a desvalorização do peso e menos controles cambiais se combinam com melhorias climáticas, fortalecendo os balanços dos agricultores em todo o cinturão de cultivo das Pampas.

“Milei tenta mudar muitos bolsões do país e todos os tipos de distorções no mercado, então achamos que os agricultores vão estar muito melhores”, disse o CEO da Cresud, Alejandro Elsztain, na ligação.

O sentimento dos agricultores em relação a Milei azedou um pouco depois que ele tentou aumentar os impostos sobre exportações, priorizando o equilíbrio das contas do governo em detrimento de outras questões. Mas a Bioceres ainda vê tempos bons pela frente para os agricultores argentinos.

“Há um lado emocional nisso, que é passar de um governo que o tratou mal para um que o trata um pouco melhor”, disse Trucco. “E acredito que um humor positivo se traduz em ação: compras de insumos agrícolas e plantio de mais hectares.”

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-- Com informações da Bloomberg Línea

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