Bloomberg Línea — A forte participação da energia hidrelétrica, entre outros fatores, permitiu que um grupo de países da América Latina superasse a média regional de geração de eletricidade a partir de fontes renováveis, que atualmente chega a 67%, segundo a Organização Latino-Americana e Caribenha de Energia (Olacde).
No entanto, dentro desse grupo de países, o Paraguai é o único que atualmente gera 100% de sua eletricidade por meio de fontes renováveis, seguido pelo Uruguai (97%), Costa Rica (92%), Equador (92%), Brasil (88%), Colômbia (87%), Venezuela (86%), Belize (76%) e Peru (68%).
O principal fator que determinou que a geração de energia do Paraguai seja 100% renovável é a existência das duas usinas hidrelétricas binacionais de Itaipu e Yacyretá, que o país compartilha com o Brasil e a Argentina, respectivamente.
A capacidade de geração de suas grandes usinas hidrelétricas permite que o Paraguai atenda ao consumo nacional e exporte o excedente de energia que lhe cabe nas usinas binacionais.
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De acordo com informações do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), o país possui uma das taxas mais altas de acesso à energia, atingindo quase 100% das famílias. O Paraguai, um país sem litoral, tem cerca de 6,4 milhões de habitantes e um PIB per capita de aproximadamente US$ 6.261.
No caso de Itaipu, considerada a terceira maior usina hidrelétrica do mundo, a principal vantagem é a perspectiva de contar com eletricidade a baixo custo.
Em 2025, a Itaipu gerou 72,9 milhões de megawatts-hora (MWh), um aumento de 8,63% em relação ao ano anterior.
Essa energia é suficiente para abastecer o mundo durante um dia, o Brasil por 40 dias e o Paraguai por cerca de três anos.
“Além de contar com uma matriz de geração de energia elétrica limpa, o Paraguai tem um dos preços de eletricidade mais baixos da América Latina”, disse à Bloomberg Línea o secretário executivo da Olacde, Andrés Rebolledo.
Estima-se que o preço médio da eletricidade no mundo seja de US$ 0,176 por kWh para usuários residenciais e US$ 0,164 por kWh para empresas, de acordo com o site Global Petrol Prices.
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No Paraguai, o custo médio para o setor residencial é de US$ 0,055 e, para as empresas, de US$ 0,046.
Tanto a Itaipu quanto a Yacyretá oferecem um fornecimento de energia com baixas emissões de gases de efeito estufa, o que fortaleceu a imagem do Paraguai como um país com uma matriz elétrica limpa e renovável.
Ao mesmo tempo, isso favoreceu a chegada de indústrias ligadas à economia de baixo carbono e a produtos de maior valor agregado.
Apesar de gerar toda a sua eletricidade a partir de fontes renováveis, o Paraguai continua dependendo de outras fontes menos sustentáveis para suprir toda a demanda energética interna.
De acordo com o balanço energético, citado pelo PNUD, a biomassa representa 41% do consumo e os hidrocarbonetos importados, 39%. Isso contrasta com “uma utilização limitada de 20% da energia hidrelétrica”, que é a responsável por 100% da energia limpa do país.
Apesar disso, o país sul-americano “obtém recursos econômicos significativos com a exportação de energia elétrica e se tornou um destino atraente para a implantação de centros de processamento de dados para criptomoedas, inteligência artificial e outros serviços digitais”, observou Andrés Rebolledo.
Em sua recente visita a Taiwan, o presidente do Paraguai, Santiago Peña, afirmou que os dois países haviam iniciado “o caminho para criar o maior hub de inteligência artificial do mundo”. Os acordos para investimentos em centros de dados de inteligência artificial teriam como objetivo aproveitar o potencial energético do país e a capacidade tecnológica de Taiwan.
O secretário executivo da Olacde destaca que, justamente por sua energia elétrica relativamente barata e limpa, o Paraguai se tornou um polo atraente para investimentos em projetos de data centers voltados para criptomoedas e inteligência artificial, destinados a serviços digitais internacionais.
E o mesmo vale para projetos de hidrogênio verde e seus derivados, com destaque para a usina experimental do Parque Tecnológico de Itaipu, no Paraguai, destinada à produção de amônia verde e fertilizantes.
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Vantagem geográfica
A principal vantagem comparativa do Paraguai em termos de recursos energéticos renováveis decorre diretamente do fato de que o país compartilha com outros países da região um dos principais potenciais hidrelétricos no trecho internacional do rio Paraná.
“É um dos principais rios do mundo e uma das maiores bacias hidrográficas do planeta, com características topográficas muito favoráveis à construção de represas com área inundável relativamente pequena”, disse à Bloomberg Línea o professor Victorio Enrique Oxilia.
“No entanto, o simples fato de possuir esses recursos em regime de condomínio não explica a realização dos grandes projetos binacionais, Itaipu e Yacyretá”, observou o professor da Faculdade Politécnica da Universidade Nacional de Assunção.
O acadêmico se refere a um contexto marcado por conflitos territoriais históricos que acabaram se transformando em soluções energéticas para os países que compartilham o recurso.
Segundo ele, isso foi resultado de negociações bilaterais e, em um determinado período, trinacionais (em 1979, quando foram definidas as condições para a construção de um terceiro projeto binacional — entre o Paraguai e a Argentina — denominado Corpus Christi, ainda em fase de planejamento).
“A disponibilidade do recurso natural, a negociação com os países vizinhos para o uso conjunto do recurso energético, bem como a definição de condições que garantiram a viabilidade técnica e financeira, foram os principais elementos que possibilitaram um desenvolvimento único na região: geração de energia hidrelétrica para o mercado interno e para a cessão (exportação) de energia elétrica”, afirmou Oxilia.
Apelo turístico
O modelo desenvolvido em torno da usina hidrelétrica de Itaipu pode se tornar uma vantagem competitiva para atrair investimentos em setores com alto consumo de eletricidade, segundo o professor Oxilia.
Por se tratar de uma usina sem dívidas, com baixos custos operacionais e capaz de gerar energia a baixo custo, ela oferece condições favoráveis para projetos que exigem alto consumo de energia.
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Em 2023, a Itaipu Binacional, empresa criada pelo Brasil e pelo Paraguai para administrar a usina hidrelétrica, informou que pagou a última parcela da dívida de construção.
Além do preço competitivo, a disponibilidade de um abastecimento confiável e de baixas emissões reforça a atratividade do Paraguai para a manufatura de maior valor agregado, mas também para a produção de hidrogênio e fertilizantes verdes.
“Acho que isso é muito interessante, principalmente para os setores complexos e em crescimento”, afirmou o analista paraguaio. “Também há as empresas de mineração de criptomoedas (que, atualmente, têm contratos válidos até o ano de 2027), mas são os investimentos com menor impacto em relação ao desenvolvimento local”, em sua opinião.
A esse respeito, ele explicou que as mineradoras de criptomoedas que operam regularmente consomem uma grande quantidade de energia e pagam suas contas à Administração Nacional de Eletricidade (ANDE).
“Para a ANDE, esse aumento na receita é positivo. Mas para mais ninguém no país. Eles não pagam impostos no país sobre a renda real que, no fim das contas, auferem, nem empregam muitos paraguaios”, observou. Portanto, “em termos tributários e de emprego, o impacto para o país é praticamente nulo. Eles pagam praticamente apenas o IVA da conta da ANDE”.
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Riscos
A Olacde afirma que, embora o Paraguai tenha enfrentado períodos de vazante em alguns anos recentes, como em 2020, 2021 e 2024, esses períodos não chegaram a afetar o abastecimento de energia elétrica no país.
De qualquer forma, eles realmente reduziram os excedentes de energia exportáveis do país.
A Olacde destaca que o país tem planos de diversificar sua matriz de geração de energia elétrica, principalmente com base em usinas fotovoltaicas apoiadas por bancos de baterias.
Segundo Victorio Enrique Oxilia, o principal desafio de longo prazo para o país é a variabilidade climática, especialmente o aumento da frequência de secas prolongadas e chuvas extremas.
Além disso, há a falta de infraestrutura suficiente para armazenar energia durante os períodos de maior abundância e, assim, garantir a geração de eletricidade nos anos seguintes.
“É um desafio muito importante. As medidas de adaptação terão que ser propostas, estudadas e, caso se comprove sua eficácia, deverão ser implementadas”, afirmou Oxilia.
“No que diz respeito ao fenômeno periódico do El Niño, prevê-se um aumento no volume de chuvas e de água na bacia hidrográfica, o que criaria condições para a geração de grandes quantidades de eletricidade”, observou o acadêmico da Universidade Nacional de Assunção. De fato, “um ano com produção recorde de eletricidade em Itaipu ocorreu em 2016, ano do último ‘El Niño’ relevante na bacia hidrográfica”.
A Organização Internacional do Trabalho (OIT) indica que o fenômeno do El Niño de 2026-2027 poderia afetar negativamente o emprego, reduzir a renda dos trabalhadores e piorar as condições de trabalho na América Latina e no Caribe.
No sudeste da América do Sul, especialmente no sul do Brasil, no Paraguai, no Uruguai e no norte e nordeste da Argentina, indica que os riscos ocupacionais e produtivos incluem possíveis perdas decorrentes de inundações na produção agropecuária e danos à infraestrutura de transporte.
Nesse sentido, prevê impactos em áreas como agricultura, logística, transporte e obras públicas.
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