Família dona da Ray-Ban entra em conflito por controle de fortuna de € 40 bilhões

Divergências entre os herdeiros do fundador da EssilorLuxottica, Leonardo Del Vecchio, morto em 2022, ameaçam desmantelar um império que inclui o controle da fabricante de óculos e participações em grandes bancos da Itália

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Bloomberg — Leonardo Del Vecchio construiu uma das maiores fortunas empresariais da Europa e tentou garantir que ela continuasse intacta após sua morte. Em vez disso, turbulências familiares ameaçam desmantelar seu legado de mais de € 40 bilhões.

O fundador da EssilorLuxottica designou oito herdeiros e confiou a um grupo de consultores de longa data a tarefa de supervisionar o império de óculos após sua morte.

O que ele não previu foram quatro anos de disputas entre os recém-nomeados multimilionários, as divergências entre os principais colaboradores, nem a tentativa malfadada de seu filho homônimo de quebrar o impasse: Leonardo Maria Del Vecchio, um empresário e DJ ocasional que recebe rappers como 50 Cent e French Montana em suas casas noturnas Twiga.

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A discórdia levou a uma crise de governança em uma das empresas mais importantes da Itália. A holding familiar Delfin é a maior acionista tanto da EssilorLuxottica quanto do banco mais antigo do mundo, o Banca Monte dei Paschi di Siena.

As discussões para resolver a sucessão de Del Vecchio poderiam levar a família a separar sua participação na gigante do setor de óculos de suas participações financeiras, segundo pessoas a par do assunto que falaram com a Bloomberg News, mas as disputas aumentam o risco de uma separação conturbada.

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“Um conflito acirrado entre os herdeiros dentro da Delfin poderia comprometer o patrimônio de Leonardo Del Vecchio e seu legado industrial”, afirmou Roberta Crivellaro, managing partner do escritório de advocacia Withers na Itália, especializada em planejamento sucessório e aquisições por familiares.

Em retrospecto, disse ela, colocar todos os herdeiros no mesmo patamar, apesar dos diferentes interesses e da grande diferença de idades, “foi um erro”.

No início deste ano, o emaranhado de disputas parecia caminhar para uma resolução. Leonardo Maria, o quarto dos seis filhos do magnata do setor de óculos, ofereceu-se para comprar as participações de dois irmãos, Luca e Paola.

O plano de € 10 bilhões teria dado a Leonardo Maria uma participação de 37,5% na empresa familiar e aberto caminho para a conclusão do processo sucessório de seu pai. A proposta foi aprovada por votação da família em abril, mas, a partir daí, o projeto fracassou.

Uma queda nas ações da EssilorLuxottica, proprietária da Ray-Ban e parceira da Meta Platforms no desenvolvimento de óculos inteligentes com IA, complicou os esforços de financiamento ao reduzir o valor dos ativos da Delfin.

Leonardo Maria, de 31 anos, também buscou incluir cerca de € 1 bilhão de sua dívida existente no pacote, e o conselho de administração da Delfin, dividido, não se comprometeu a garantir a transação caso Leonardo Maria deixasse de honrar seus compromissos.

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As ações da EssilorLuxottica, que caíram 2,1% na quarta-feira (29) após a empresa divulgar vendas no segundo trimestre abaixo das estimativas dos analistas, estão 49% abaixo da alta atingida em novembro, quando o otimismo dos investidores em relação à sua parceria de óculos com IA estava no auge.

A queda no valor de mercado se traduz em uma redução de € 23,4 bilhões no maior item individual da carteira da família Del Vecchio.

Após expressar descontentamento com o conselho da Delfin, Leonardo Maria se reorganizou. Ele reformulou a gestão de sua LMDV Capital e está trabalhando em um refinanciamento de € 1,1 bilhão com a Apollo Global Management.

De acordo com os termos em discussão, a linha de crédito poderia ser ampliada para € 10 bilhões no futuro, proporcionando-lhe liquidez para quaisquer oportunidades que surjam, afirmaram fontes a par do assunto.

As negociações continuam sobre uma ideia alternativa — separar a participação principal no setor de óculos das ações dos setores bancário e de seguros, que poderiam ser vendidas para levantar recursos para os membros da família ou para reorganizar a Delfin.

Essa abordagem foi proposta pelo meio-irmão de Leonardo Maria, Rocco Basilico, mas há resistência interna à venda de quaisquer investimentos financeiros da Delfin enquanto o setor bancário italiano passa por uma onda de consolidação, afirmaram as fontes. A família pretende contratar um consultor externo experiente para ajudar a mediar e chegar a um acordo, afirmaram as fontes.

“Uma possível solução para as controvérsias poderia ser a Delfin recomprar as participações daqueles que buscam uma saída para dar continuidade aos seus respectivos family offices”, afirmou Crivellaro.

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Os ativos financeiros da Delfin, avaliados em cerca de € 16 bilhões, conferem à família uma influência que se estende dos negócios à economia e à política italianas. A joia da coroa é sua participação na Assicurazioni Generali, uma das maiores seguradoras da Europa, além de investimentos no Unicredit e no Monte Paschi, o banco que está no centro da mais recente rodada de fusões e aquisições bancárias na Itália.

Quem é o fundador da Luxottica

Leonardo Del Vecchio fundou a Luxottica em 1961 e a transformou na maior fabricante mundial de óculos e armações. Ele fundiu a empresa italiana com a gigante óptica francesa Essilor em 2018, criando um grupo verticalmente integrado que abrange desenvolvimento, design, fabricação e lojas de varejo como a LensCrafters, fundada nos Estados Unidos.

Seu testamento tinha como objetivo manter a unidade entre seus herdeiros — seis filhos de três mães diferentes, cujas idades variam atualmente entre 22 e 69 anos; sua viúva, Nicoletta Zampillo, de 68 anos; e Basilico, filho dela de um casamento anterior.

Cada um recebeu uma participação de 12,5% na Delfin, mas nenhum ficou no comando. O assessor mais próximo de Del Vecchio, Francesco Milleri, tornou-se presidente do conselho e CEO da EssilorLuxottica e presidente do conselho da Delfin. Romolo Bardin permaneceu como CEO da holding familiar.

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A exigência de quase unanimidade em decisões importantes criou um obstáculo para os membros da família, que se encontram divididos, e seus consultores também têm, por vezes, discordado entre si. A Delfin se recusou a comentar esta matéria.

“A estrutura que ele deixou obriga os herdeiros a buscar consenso sem lhes oferecer uma saída clara caso o consenso não seja alcançado”, afirmou Alessandro Minichilli, professor de governança corporativa e empresas familiares na Universidade Bocconi, em Milão. “O poder de decisão igualitário em uma empresa pode facilmente se transformar em poder de veto.”

A saga da família Del Vecchio tem prendido a atenção da Itália, juntamente com algumas outras disputas sucessórias de grande repercussão entre a realeza industrial do país. O presidente da Stellantis, John Elkann, está envolvido em uma longa disputa judicial com sua mãe, Margherita Agnelli, sobre questões de sucessão na família fundadora da Fiat.

Entre os maiores obstáculos à reestruturação da Delfin estão as restrições à venda de participações individuais, que foram estabelecidas para manter unidas as participações da família, e um teto para dividendos que limita os pagamentos a 10% do lucro da Delfin, que totalizou € 1,5 bilhão no ano passado.

Na assembleia anual realizada em junho, uma proposta para revogar a regra dos dividendos — elemento-chave do plano de Leonardo Maria para comprar as participações de seus dois irmãos — não obteve o apoio necessário para ser aprovada, segundo afirmaram na época pessoas a par da reunião.

Os resultados da EssilorLuxottica, embora apresentem um crescimento modesto nas vendas, mostraram que a empresa avança na proteção das margens de lucro, à medida que os volumes aumentam para os óculos inteligentes de custo mais elevado. O negócio principal de armações e lentes continua subvalorizado, afirmaram analistas do Barclays em uma nota.

A empresa também tem feito inovações de produto em áreas como armações com recursos de áudio aprimorados. Os óculos inteligentes da marca Meta, com preços mais acessíveis, que foram lançados em junho, ajudaram os sócios a construir uma vantagem competitiva contra rivais como a Apple e a Alphabet, que preparam seus próprios dispositivos vestíveis para venda.

“A empresa está relativamente bem posicionada, pois ainda detém a vantagem de ser pioneira”, afirmou Margherita Strazzari, analista de investimentos da Sempione SIM. As desavenças familiares também influenciam o desempenho das ações, acrescentou ela.

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Os investimentos financeiros da família aumentaram desde a morte de Del Vecchio. A Delfin adquiriu uma participação no Monte dei Paschi, ampliou sua participação já existente no Mediobanca e apoiou a oferta pública de aquisição do Paschi pelo Mediobanca no ano passado.

O Ministério Público de Milão investiga a suposta coordenação de Milleri na transação com outro investidor influente, o bilionário italiano Francesco Gaetano Caltagirone. Ambos negaram qualquer irregularidade.

A Delfin detém uma participação de 17,5% no Monte Paschi, cujas ações subiram 23% este ano, à medida que a Intesa Sanpaolo e o Banco BPM buscam planos rivais para se fundir com o banco sediado em Siena.

Os investimentos financeiros geraram valor para a família Del Vecchio, afirmou Fabio Caldato, gestor de portfólio da gestora de ativos italiana AcomeA. “No entanto, acredito que as diferenças de opinião bastante acentuadas entre os herdeiros Del Vecchio possam ser ainda mais exacerbadas por esses bons investimentos, pois eles podem ser complexos de liquidar no curto prazo.”

Os principais antagonistas dentro da família têm sido Leonardo Maria e seu meio-irmão Basilico, de 36 anos. Leonardo Maria é diretor de estratégia da EssilorLuxottica, enquanto Basilico, que mora em Los Angeles, era diretor de dispositivos vestíveis e chefe da marca Oliver Peoples antes de deixar a empresa no início deste ano.

A ele se deve o mérito de ter colocado Leonardo Del Vecchio em contato com o CEO da Meta, Mark Zuckerberg, o que resultou na aliança para o desenvolvimento de óculos com inteligência artificial.

Leonardo Maria reuniu um conjunto de investimentos nos setores de luxo, tecnologia e mídia, incluindo a água engarrafada Acqua Fiuggi, a Leone Film Group e a rede de jornais QN Media.

Ele é investigado por um acidente ocorrido em 2025 com sua Ferrari Purosangue em Milão, e o Ministério Público analisa se outra pessoa se apresentou como o motorista.

Del Vecchio negou qualquer irregularidade, afirmando em uma entrevista na TV que só deixou o local depois de se certificar de que ninguém havia se ferido e de que a polícia estava a caminho. Seus representantes se recusaram a fazer mais comentários sobre o acidente e se abstiveram de comentar sobre o atrito com seu irmão.

Basilico contestou a resolução de abril que levou à aprovação do plano de seu irmão; Leonardo Maria classificou a proposta alternativa de Basilico de vender as participações financeiras da Delfin com desconto como “inadequada e ilógica”. Ele também contestou a capacidade de Basilico de exercer direitos de voto na Delfin.

Zampillo, mãe de ambos, renunciou ao seu chamado usufruto — o direito de usar um bem segundo a legislação italiana — sobre a participação de 12,5% na Delfin deixada a Rocco pelo patriarca. Posteriormente, ela tentou revogar essa decisão.

Um representante de Basilico se recusou a comentar. Zampillo se recusou a comentar.

Até que se chegue a decisões no âmbito da estrutura familiar, quaisquer medidas estarão sujeitas à aprovação dos tribunais em Luxemburgo, onde a Delfin está sediada. Pelo menos cinco dos oito herdeiros apresentaram as chamadas notificações de transferência, com o objetivo de transferir participações de propriedade individual para holdings pessoais. Isso poderia abrir caminho para transações familiares ou uma reestruturação, afirmam pessoas a par do assunto.

Encontrar uma maneira de os irmãos Luca e Paola venderem suas participações também poderia economizar € 500 milhões a Leonardo Maria. Esse é o valor da multa caso ele não consiga, em última instância, cumprir o compromisso de comprar as participações deles, segundo uma das fontes. Leonardo Maria dispõe dos recursos necessários para arcar com a multa, se necessário, afirmou uma pessoa a par do assunto.

A sucessão tornou-se um tema importante para as empresas familiares na Itália. Estima-se que as transições geracionais ocorram em mais de um terço das empresas familiares na década até 2034, de acordo com o grupo de defesa das empresas familiares Aidaf.

Um patriarca que conseguiu evitar controvérsias foi Silvio Berlusconi, o extravagante ex-primeiro-ministro que faleceu em 2023. Ele colocou seus dois filhos mais velhos, Marina e Pier Silvio, no comando de seus negócios, e a família concordou em congelar suas participações por um período.

Trata-se de um exemplo de transição bem-sucedida, afirmou Leonardo Maria em entrevista à emissora La7 em janeiro. Referindo-se à família Del Vecchio, “devo, no entanto, salientar que a diferença de idade e a existência de três grupos distintos acrescentam uma camada de complexidade”.

-- Com a colaboração de Chiara Albanese e Sonia Sirletti.

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