Mais de 3,7 mil trades em três meses: operações de Trump no mercado espantam Wall St

No primeiro trimestre, Trump ou seus assessores de investimentos operaram uma quantidade de transações que chama a atenção de gestores e reforça as preocupações sobre conflitos de interesse

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Bloomberg — As mais recentes declarações financeiras do presidente Donald Trump mostram que ele ou seus assessores de investimento realizaram mais de 3.700 operações no primeiro trimestre, uma avalanche de negociações no mercado que totaliza dezenas de milhões de dólares e envolve grandes empresas com negócios junto ao seu governo.

As transações, detalhadas em mais de 100 páginas de documentos protocolados na quinta-feira (14) no Escritório de Ética Governamental dos Estados Unidos, listam compras e vendas em faixas amplas, o que dificulta o cálculo de um valor exato. Mas o volume de operações — mais de 40 por dia ao longo de três meses — chama tanto a atenção quanto o valor potencial em dólares.

“É uma quantidade absurda de operações”, disse Matthew Tuttle, presidente-executivo da Tuttle Capital Management, em entrevista à Bloomberg News, acrescentando que se assemelha mais ao que faria “um hedge fund com trades algorítmicos” do que a uma conta pessoal.

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No primeiro trimestre, o presidente comprou pelo menos US$ 1 milhão em ações de empresas como Nvidia, Oracle, Microsoft, Boeing e Costco, segundo os documentos. Outras operações envolveram eBay, Abbott Laboratories, Uber, AT&T e a rede de lojas de desconto Dollar Tree.

A divulgação reacende preocupações com conflitos de interesses que têm marcado os mandatos de Trump na Casa Branca. Críticos acusam o presidente regularmente de misturar suas funções oficiais com seus interesses comerciais.

Ao contrário de seus antecessores, Trump não alienou seus ativos nem os transferiu para um blind trust com um gestor independente. Seu vasto império empresarial é administrado por dois de seus filhos e atua em áreas que se cruzam com a política presidencial.

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Ao mesmo tempo, o genro de Trump, Jared Kushner, ajuda a gerir bilhões em investimentos para o Catar, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, enquanto atua simultaneamente como enviado “voluntário” do presidente em questões relacionadas à guerra no Irã e ao Oriente Médio.

A Casa Branca não quis responder às perguntas sobre possíveis conflitos de interesse. O porta-voz David Ingle disse que Trump “age sempre no melhor interesse do público americano” e acrescentou: “Não há conflitos de interesse.”

Um porta-voz da Trump Organization afirmou anteriormente que as participações do presidente são geridas de forma independente por instituições financeiras terceirizadas, que têm controle sobre todas as decisões de investimento, com as operações executadas por processos automatizados.

Trump, seus familiares e sua empresa não têm nenhum papel nas transações, disse a porta-voz. Eles não recebem aviso prévio sobre as atividades de negociação e não fornecem nenhuma orientação, acrescentou.

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O volume de operações supera tudo o que Trump já declarou anteriormente. No quarto trimestre do ano passado, ele realizou 380 transações, principalmente compras de títulos municipais, além de algumas operações com notas comerciais, segundo seus registros.

Sua primeira declaração de compra de ativos foi em agosto, reportando 690 transações realizadas a partir de 21 de janeiro de 2025, dia seguinte ao início de seu segundo mandato. Essas transações, cobrindo cerca de sete meses, totalizaram pelo menos US$ 103,7 milhões.

‘Perplexo’

As declarações do presidente geraram questionamentos entre alguns participantes de Wall Street, que expressaram surpresa com o volume de operações.

“Estou perplexo”, disse Eric Diton, presidente e managing director da The Wealth Alliance. “Em mais de 40 anos em Wall Street, isso é uma quantidade incomum de operações por qualquer parâmetro.”

“Precisaríamos ver as operações reais para tentar entender por que alguém quereria negociar tanto”, acrescentou Diton.

Adam Sarhan, fundador da 50 Park Investments, disse que a frequência das operações era “impressionante”.

“O que realmente quero saber é se, no fim de todas essas operações, a conta estava positiva ou negativa”, disse Sarhan.

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Trump tomou uma série de medidas que afetam as empresas listadas em que negociou, e interage regularmente com muitos dos executivos dessas empresas. Isso inclui a Nvidia, cujos chips — essenciais para o desenvolvimento de IA — precisam de aprovação do governo americano para vendas ao exterior.

Trump levou o CEO da Nvidia, Jensen Huang, em sua recente viagem a Pequim, durante uma escala para reabastecimento, integrando uma delegação que incluía altos executivos da Boeing, do Citigroup, da Tesla e de outras grandes empresas.

Seis das operações de Trump envolveram a Intel; seu governo fechou um acordo para adquirir uma participação de 10% por quase US$ 9 bilhões na icônica fabricante de chips em agosto.

Os comentários de Trump nem sempre beneficiaram as empresas cujos ativos ele negocia. Em Pequim, seu anúncio de que a China compraria 200 jatos da Boeing derrubou as ações da empresa porque a expectativa era de um pedido maior.

A Netflix e a Paramount Skydance disputaram a aquisição da Warner Bros. Discovery em uma batalha de meses, com ambas as pretendentes levantando potenciais preocupações antitruste. Trump realizou investimentos relacionados às três empresas.

Comprou uma participação modesta na Warner Bros. em março, avaliada em pelo menos US$ 30.000, e uma participação na Paramount Skydance avaliada em pelo menos US$ 15.000 no mesmo mês. Também realizou 19 transações envolvendo a Netflix, incluindo vendas de valores entre US$ 1.000 e US$ 5 milhões no primeiro trimestre.

‘Grande ponto de interrogação’

“Tudo isso levanta questões que você preferiria não levantar como presidente”, disse Tuttle. “Agora as pessoas perguntam por que ele está comprando Nvidia e outras empresas agora. Quando você é o presidente, sabe de tudo, então qualquer ação que compre gera um grande ponto de interrogação.”

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Presidentes anteriores alienaram ativos ou tomaram outras medidas para evitar conflitos de interesse — ou mesmo a aparência de problemas éticos — enquanto estavam no cargo.

George H.W. Bush tinha um blind trust que administrava seus investimentos tanto durante seu mandato como vice-presidente quanto quando se tornou presidente em 1989. Seu sucessor, Bill Clinton, fez o mesmo ao assumir o cargo.

A lei federal passou a exigir que titulares de cargos reportassem transações envolvendo valores mobiliários somente após a aprovação do STOCK Act em 2012, que reforçou os requisitos de divulgação para funcionários do Executivo e membros do Congresso.

Nem o ex-presidente Barack Obama — cujo dinheiro estava investido em títulos do Tesouro e fundos mútuos amplamente diversificados — nem Joe Biden negociaram ações ou títulos enquanto estavam no cargo. Trump é o primeiro presidente a acionar o requisito de divulgação.

Multa de US$ 200

As maiores vendas de Trump ocorreram em 10 de fevereiro, quando se desfez de participações em três empresas de tecnologia — Microsoft, Meta Platforms e Amazon — em valores entre US$ 5 milhões e US$ 25 milhões. Também vendeu uma participação em um ETF da Vanguard em janeiro, avaliada em pelo menos US$ 5 milhões.

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As leis federais de ética exigem que os funcionários reportem operações em até 45 dias após sua realização. Ambas as declarações de Trump perderam esse prazo, mas a penalidade prevista em lei é irrisória: uma multa de US$ 200 por cada declaração entregue com atraso. Os registros de Trump indicam que ele pagou a multa nas duas ocasiões.

Trump refuta as críticas de quem o acusa de tirar proveito financeiro de ser presidente dos Estados Unidos. Em entrevista ao New York Times em janeiro, Trump disse não receber nenhum crédito por ter limitado seus interesses comerciais em seu primeiro mandato.

“Só recebi críticas”, disse Trump.

Em assunto separado, o escritório de ética governamental concedeu a Trump uma prorrogação de 45 dias para protocolar sua declaração financeira anual. O documento fornece informações sobre o valor e a renda gerada em 2025 por seu vasto império empresarial, que inclui criptomoedas, resorts, campos de golfe e sua empresa de mídia social.

As prorrogações são concedidas de forma rotineira quando solicitadas. As declarações, originalmente com prazo até esta sexta-feira, passam a ter vencimento em 29 de junho.

-- Com a colaboração de John Harney, Vivien Ngo, Romy Varghese e Kevin Whitelaw.

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