Bloomberg Opinion — A corrida pelos minerais essenciais está unindo a improvável parceria entre o presidente americano Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva.
Isso ficou evidente durante a reunião bilateral improvisada na Casa Branca na semana passada, onde a cooperação em terras raras gerou sorrisos e promessas de laços mais estreitos.
Para Trump, que se prepara para uma viagem importante à China, foi uma forma de mostrar a Pequim que os EUA estão recuperando a iniciativa na maior economia da América Latina e ampliando seu acesso aos recursos naturais essenciais para a disputa pelas cadeias de abastecimento modernas.
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Considerando a profunda divisão ideológica e a longa história de confrontos entre os dois presidentes, a nova relação entre Trump e Lula deve ser bem-vinda.
Se há um país capaz de ajudar os EUA a reduzir sua dependência dos minerais estratégicos chineses, esse país é o Brasil, que possui as maiores reservas mundiais de terras raras depois da nação asiática, além de energia renovável abundante.
O anúncio, em abril, de que a USA Rare Earth concordou em pagar US$ 2,8 bilhões em dinheiro e ações pelo Grupo Serra Verde, único produtor de terras raras em escala comercial do Brasil e com planos ambiciosos de expansão, ressalta a magnitude dessa oportunidade.
Ainda assim, é preciso ter uma boa dose de realismo. A urgência geopolítica pode ser enorme, mas o Brasil não se tornará um grande fornecedor de terras raras da noite para o dia — nem mesmo em poucos anos. Os mesmos obstáculos regulatórios, gargalos de licenciamento ambiental e nacionalismo de recursos que prejudicaram o setor de mineração do país continuam sendo fortes fatores dissuasores.
Os brasileiros perseguem o sonho das terras raras há décadas. Ouvi falar pela primeira vez do potencial desses metais especiais em 2011, quando era repórter de mineração relativamente jovem no Rio de Janeiro.
Olacyr de Moraes, um dos pioneiros da revolução da soja no Brasil, acabara de anunciar a descoberta de um enorme depósito no oeste da Bahia. O entusiasmo era palpável. Uma onda de startups correu para se posicionar como a primeira defensora das terras raras no Brasil, pois a promessa parecia inegável: geologia de nível mundial, uma indústria de mineração sofisticada e sinais crescentes de que esses minerais específicos se tornariam estrategicamente indispensáveis para a transição energética e a transformação tecnológica.
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No entanto, quase nenhum desses projetos se concretizou. Moraes faleceu alguns anos depois, com muitos empreendimentos paralisados por falta de capital ou de interesse dos investidores e sucessivas ondas de entusiasmo que recuavam para segundo plano. A cada poucos anos, uma nova iniciativa surgia, apenas para esbarrar em obstáculos já conhecidos: fortes oscilações de preço, mudanças nas políticas ou a falta de contratos de compra. Apesar de suas vastas reservas, a produção brasileira de terras raras continua insignificante.
Os desafios geopolíticos podem ser maiores em 2026, mas os problemas estruturais do setor de mineração continuam arraigados. O principal deles é a crescente dificuldade de expandir as atividades extrativas em um país mais rico e urbanizado, que cada vez mais encara a mineração com desconfiança.
O licenciamento ambiental e o escrutínio regulatório já vinham se tornando mais rigorosos há anos, mas o colapso fatal das barragens de rejeitos de minério de ferro em Minas Gerais em 2015 e 2019 — que matou centenas de pessoas — endureceu as atitudes do público e a fiscalização legal.
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Hoje, uma empresa de mineração pode levar de cinco a dez anos para obter as licenças necessárias para operar no Brasil, dificultando muito mais a execução de qualquer novo empreendimento.
A burocracia desenfreada e as disputas entre diferentes níveis do governo também atrasam projetos e chegam a interromper instalações já em operação.
Essa tensão não resolvida entre proteger comunidades e ecossistemas e promover a indústria considerada essencial para setores estratégicos permanece no cerne do problema.
O resultado é um distanciamento cada vez maior entre as grandes ambições geopolíticas em torno de minerais críticos — vitais para semicondutores, centros de dados relacionados à IA e aplicações militares — e as realidades cotidianas das comunidades onde esses recursos podem ser encontrados.
Os conflitos sociais se multiplicam à medida que as populações locais resistem a projetos que muitas vezes nem compreendem nem dos quais se beneficiam, afirma Thiago Toscano, CEO da Itaminas Mineração, produtora de minério de ferro com sede em Belo Horizonte.
“A agenda global e as realidades locais não estão alinhadas, e essa desconexão atrasará projetos, inflará custos e comprometerá os resultados que os formuladores de políticas prometem”, disse ele.
“Enquanto as empresas não conseguirem conectar a narrativa global com avanços locais concretos, cada novo projeto enfrentará os mesmos obstáculos, e a agenda que tanto importa levará cada vez mais tempo para produzir resultados.”
Tudo isso ocorre antes mesmo das recorrentes crises de nacionalismo de recursos no Brasil.
Sempre que o país parece prestes a se beneficiar de um renovado interesse internacional, o governo endurece as condições em nome da defesa da soberania, muitas vezes antes mesmo que qualquer boom de produção tenha se concretizado.
O resultado é desestimular exatamente o tipo de investimento que as autoridades afirmam querer atrair.
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Vemos essa história se repetir parcialmente agora, com um novo projeto de lei que daria ao governo influência significativa sobre o setor, mesmo que algumas das propostas mais controversas não tenham sido aprovadas na votação da Câmara dos Deputados na semana passada.
Lula também está revivendo suas antigas ambições desenvolvimentistas de que o Brasil controle mais da cadeia de suprimentos, incluindo o processamento midstream e downstream, para evitar permanecer meramente como um exportador de matérias-primas. Essa aspiração é razoável, mas não é algo que possa ser alcançado por decreto.
Em vez disso, o Brasil deveria se concentrar em melhorar as condições para que as empresas privadas assumam a liderança.
Isso significa investir em infraestrutura e no desenvolvimento da força de trabalho, além de criar marcos regulatórios estáveis, permitindo que o governo colha os frutos posteriormente.
O sucesso de décadas do país no domínio do mercado de nióbio por meio da CBMM, uma empresa privada, oferece um modelo exemplar.
O Brasil tem todos os ingredientes para se tornar um grande participante, e sua parceria com os EUA poderia compensar as deficiências em financiamento, conhecimento técnico e integração da cadeia de suprimentos.
Mas, após tantos falsos começos, os formuladores de políticas devem reconhecer que as chances de fracasso continuam significativas e que o intervencionismo provavelmente agravará o problema em vez de resolvê-lo. Caso contrário, o sonho de desafiar a China nesse setor estratégico será apenas um sonho.
Esta coluna reflete as opiniões pessoais do autor e não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.
Juan Pablo Spinetto é colunista da Bloomberg Opinion e cobre negócios, assuntos econômicos e política da América Latina. Foi editor-chefe da Bloomberg News para economia e governo na região.
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